Carta a homens brancos de esquerda

Edição do mês
Carta a homens brancos de esquerda
(Arte Andreia Freire)
Eu não quero ouvir vocês. Nenhum de vocês. Estou de luto. Está doendo. Preciso de silêncio para dar espaço à dor e à raiva. Suas análises, formulações, propostas não me interessam. Preciso ouvir a mim mesma e a tantas outras mulheres negras cansadas de gritar. Os tiros em Marielle Franco foram em todas nós. Eu sei que você sente que foi em você também. Mas não me interessa o que você sente. Não me interessa também saber que Marielle era uma negociadora e que possivelmente ela te ouviria e acolheria. Abertura para o diálogo e postura democrática não a protegeram das balas. Pode ser que em algum momento eu queira te ouvir de novo. Espero que não. Porque eu te ouço desde que existo. E sinto que poucas vezes você parou para me ouvir. Você, com todas as boas intenções de um homem de esquerda, sempre foi contrário ao machismo, ao racismo e por isso mesmo assumiu para si o papel da revolução. Deixar isso para mulheres, ainda mais para mulheres negras, seria um erro! Você, com toda a inteligência iluminada e virilidade aguerrida que só um homem branco tem, é obviamente quem pode mostrar os caminhos para a luta política. Eu sei que você genuinamente acredita que o melhor para mim é te seguir. Mas preciso revelar uma coisa: eu não acredito nem nunca acreditei nisso. Mesmo quando balancei um sim com a cabeça, sorri ou arregalei os olhos de admiração fazendo você se sentir fantástico. Muitas vezes te deixei discursar sem interrupção ou discordância por tática. Eu te dobrei algumas vezes desse jeito e até consegui seu apoio fin

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