Entre a academia e a música, Capicua rima sobre feminismo, violência e política

Entre a academia e a música, Capicua rima sobre feminismo, violência e política A rapper portuguesa Capicua (Foto Miguel Refresco)

 

Por anos, Ana Matos Fernandes viveu “uma vida dupla”. À vista de todos, focava na universidade, estudando sociologia e, mais tarde, geografia. Por trás da universitária, porém, havia outra face – a da rapper que desde os 15 anos rimava sobre feminismo, violência contra a mulher, ecologia e vivências urbanas. 

Hoje, a rapper deixou de ser uma simples persona oculta para se tornar, com sucesso, sua principal faceta: aos 35 anos, a portuguesa Capicua, da Cidade do Porto, tem oito discos lançados. O mais recente deles, Língua Franca, foi gravado em parceria com os brasileiros Emicida e Rael, além do português Valete.

Fã de músicos brasileiros como Céu, Karol Conká, Liniker e Elza Soares, Capicua acha que ainda tem “muito a aprender com a espontaneidade e a beleza do Brasil”, embora em sua escrita busque sempre ir além da estética: “A palavra para mim é o veículo de uma mensagem, tem um poder, uma carga. Por isso minhas letras são sempre sobre minhas causas”, afirma.

Com “causas”, ela quer dizer a sexualidade feminina, a violência, o medo, a desigualdade social, o amor e principalmente o feminismo, que caracterizam sua música: “Há poucas mulheres na cena do rap, é verdade. Mas há poucas mulheres em vários outros espaços. Antes de simplesmente colocá-las nesses espaços, precisamos ensiná-las a sair das expectativas e dos moldes, do padrão. Este é meu trabalho.”

É com essa tarefa em mente que Capicua compõe frases como “Sua voz era livre como ela não era/ Como sempre quisera que o seu corpo fosse” ou “Quando não estou luminosa, todos me acham invisível/ Mas é aí que eu me renovo, mulher nova, invencível”. “Não faria sentido para mim que essas dimensões da minha vida não estivessem presentes na minha música”, diz.

Cobra que morde o próprio rabo

“Capicua” é sinônimo de “palíndromo” – palavra que pode ser lida da esquerda para a direita e vice-versa, como “Ana”. Também é uma expressão que vem do catalão: cap significa “cabeça” e cua “cauda”. “É a cobra que morde o próprio rabo. Achei apropriado.”.

Talvez não haja expressão melhor para definir a rapper: ela graduou-se em sociologia na Instituto Universitário de Lisboa e fez doutorado em Geografia Humana, em Barcelona, estudando questões territoriais das cidades -, mas não seguiu na área. Em vez disso, preferiu “morder o próprio rabo” e usar a capacidade crítica desenvolvida na academia como combustível para sua música. “Foi interessante porque, com a crise de 2008, percebi que seria melhor me tornar música do que seguir carreira de professora. Então me foquei nisso, sem jogar fora o que trouxe da universidade”, conta.  

Daí o esforço para abordar suas “causas” no rap: “Aprendi a pensar de forma crítica e a questionar as razões por trás das coisas, o que acabou refletindo na minha escrita”, diz. Para a rapper, o fato de ter cursado sociologia foi essencial para fazer de sua arte única, dada a assertividade do gênero musical que ocupa: “O rap coloca tudo como preto ou branco, certo ou errado. Eu prefiro dizer que as coisas são cinza, e faço várias notas de rodapé nas minhas canções”, brinca.

“Mafaldisse”

A postura crítica de Capicua tem origem na infância, quando ouvia canções de músicos como Sérgio Godinho, José Afonso e José Mário Branco, favoritos de seus pais, os professores Manuel e Benedita: “Você poderia dizer que esses cantores são o Chico Buarque e o Caetano Veloso de Portugal, então já deu para entender o tipo de música revolucionária que se ouvia na minha casa”. Como foram as primeiras canções com que teve contato, usar a música e a palavra como ferramentas de comunicação “sempre foi algo natural” para ela.

No embalo dos cantores “revolucionários”, desenvolveu o que chama de “Mafaldisse” – uma personalidade questionadora, sempre desconfiada e combativa típica da personagem Mafalda, do argentino Quino. O “espírito de Mafalda” ficou ainda mais forte quando, na adolescência, tornou-se militante feminista, envolveu-se com os movimentos antirracistas e passou a fazer grafites nas ruas – algo fundamental para o surgimento de Capicua, já que foi ali que ela teve o primeiro contato com o mundo do hip hop, aos 15 anos.

Ouvindo grupos de rap da cidade do Porto, como Dilema e Mind the Gap, Ana percebeu que era possível “fazer música com uma cor local”, e escreveu suas primeiras rimas. Embora não consiga puxar da memória alguma de suas composições pioneiras, recorda de um tema que já era frequente: “Eram muitos, as letras me fluíam, mas lembro de escrever já na época sobre violência contra a mulher”.

O rap em Portugal estourou nos anos 1990, nas periferias de Lisboa, época em que Capicua começou a compor. Então, a maior parte das pessoas via o gênero com preconceito por ser um “produto autorreferente da periferia”, diz. “Depois isso foi mudando. Os temas mudaram, passamos a falar de amor, de meio ambiente, de sentimentos, e a coisa se popularizou, há festivais e shows internacionais de rap, criou-se um mercado, coisa que há 20 anos não existia.”

Hoje, ela se surpreende com o próprio sucesso, e diz que nunca imaginou poder se sustentar com a própria música, ainda mais porque bate o pé para cantar apenas letras autorais com firme posicionamento político. “Acho que as pessoas têm medo da palavra ‘política’, porque confundem com os partidos e com o jogo político, mas para mim ‘política’ significa ‘visão de mundo’. E sinto que é minha responsabilidade ser clara quanto à minha.”

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