Enquanto isso, na campanha política brasileira

Enquanto isso, na campanha política brasileira
No que diz respeito à campanha de 2018, o que em qualquer lugar é brisa, no Brasil é furacão (Divulgação)

 

Comecei a escrever esta coluna falando sobre as expectativas gerais acerca dos efeitos da primeira semana de propaganda eleitoral na televisão sobre as intenções de voto. No que diz respeito à campanha de 2018, contudo, o que em qualquer lugar é brisa, no Brasil é furacão. Já na virada da noite começaram a ser publicados, no Twitter, os vídeos de Temer atacando Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, em defesa do seu legado. Pela primeira vez na história das oito campanhas posteriores à restauração democrática, um presidente no cargo toma a iniciativa de uma campanha de ataque a adversários do seu candidato, fora do horário eleitoral oficial. E já estava com as mãos à obra quando, de repente, chega a notícia de que o candidato líder das pesquisas é esfaqueado em pleno comício, nas ruas de Juiz de Fora. É, meus amigos, o Brasil político não é nem para amadores nem para distraídos.

Para onde a campanha na televisão moverá a massa?

Quem está observando o campeonato eleitoral na perspectiva do flanco esquerdo da disputa, gostaria muito de saber o que, afinal, acontece em um cenário eleitoral finalmente sem Lula.  Como se comportarão hoje os votos dos que preferem Lula? Eis um dos grandes enigmas desta eleição. O finalmente ungido Fernando Haddad se viabilizará eleitoralmente com os votos de Lula? Ou os votos irão para o preterido, mas ainda esperançoso, Ciro Gomes? Ou para Marina Silva, que nos cenários sem Lula (e com Haddad ainda desconhecido) aparece em segundo lugar conforme as pesquisas publicadas até a semana passada? E se Haddad se mover para cima, como é mais provável que aconteça, o que se passará com os outros dois? E com três candidatos competitivos localizados do centro para a esquerda do espectro ideológico, haverá votos suficientes para viabilizar pelo menos um deles de forma a levá-lo ao segundo turno?

No lado direito do espectro, por sua vez, não há menos pontos obscuros. O fato de, pela primeira vez desde a restauração da democracia, a extrema-direita ter saído na frente e ter um candidato com boa dianteira sobre o seu principal concorrente, não torna as coisas menos intrigantes. Todo mundo está interessado, em primeiro lugar, em verificar se, afinal, a propagada televisiva vai ter na campanha digital, enfim, um concorrente à altura. Além disso, é claro para todo mundo que Alckmin dificilmente chegará ao segundo turno se não recuperar ao menos uma parte do tradicional eleitor tucano do Sudeste e do Sul que se bandeou para a extrema-direita e, nos dois últimos anos em que se frequentou o bolsonarismo, foi profundamente radicalizado. A propaganda de Alckmin tem clareza disso e castigou duramente o adversário em vídeos feitos para o horário eleitoral. Alguns deles, visavam um dos seus flancos mais vulneráveis: o voto feminino. Em duas peças publicitárias (os vídeos “Quem não respeita as mulheres não merece o seu respeito” e “Você gostaria de ter um presidente que trata as mulheres como Bolsonaro trata?”), o Bolsonaro ogro machista é mostrado em toda a sua crueza.  Já o vídeo “Não é na bala que se resolve”, em que a última imagem é um projétil chegando a uma criança, apela para que as mães se afastem da solução “cacete e bala” que o candidato oferece para tudo. Por fim, ainda há o vídeo em que se compara Bolsonaro a Chávez e que termina com “Votar em alguém só porque ele é militar deu ruim na Venezuela, vai dar ruim no Brasil”, que se dirige ao público que demonstra crescente paixão por coturnos.

A pergunta é se a propagada de ataque de Alckmin funcionará. O bolsonarismo usa, como vacina para qualquer crítica, a desqualificação de quem o critica como esquerdista e petista. Uma atribuição pouco eficiente quando a crítica vem da direita. Mas surtirá efeito, pelo menos sobre os indecisos de direita? A dúvida de todo mundo, a este ponto, é exatamente esta: o voto à direita já está cristalizado em Jair Bolsonaro ou Geraldo Alckmin, com 44% dos blocos diários do horário eleitoral, pode produzir uma perda severa na intenção de votos no candidato da extrema-direita? E, adicionalmente, se o fizer, conseguirá capturar para si este contingente?

Verba volant 2: o retorno

Quando, enfim, a disputa presidencial parece bem aninhada na campanha política oficial, com a engrenagem da propagada eleitoral já em pleno funcionamento, eis que Temer, à moda de Trump, resolve ir ao púlpito do Twitter atacar candidaturas. A começar pela de Geraldo Alckmin, por quem confessava simpatias eleitorais até ontem e a quem fazia insinuações indecorosas de apoio, noves fora Meirelles ser, oficialmente e por força das obrigações partidárias, o seu candidato.

Por que diabos não usou para tanto o horário eleitoral, como tem sido normal em campanhas eleitorais, não se compreende. O fato é que Temer ataca Alckmin por este falar mal do seu governo e dele querer uma distância segura, mas não usa o espaço reservado para tanto pelo seu próprio candidato. É mais ou menos como se Lula em 2010 usasse o pessoal de comunicação da Presidência para produzir vídeos de ataque a Serra, e, além disso, não os veicular no horário da propaganda oficial de Dilma, em vez disso empregado sua conta pessoal em alguma plataforma digital. Ainda mais quando não se trata de esclarecimento à opinião pública a ser prestado pela Presidência, mas de uma intervenção explícita no fluxo discursivos e na competição argumentativa do horário eleitoral gratuito. O titular da presidência da República entrou no jogo eleitoral e entrou para atacar.

Por fim, não deixa de chamar a atenção o mesmo estado de ânimo que motivou a famosa carta “Verba volant!” com que selou o início oficial das inimizades com a presidente da República e explicitou ao mundo que já estava trabalhando para o outro lado da força. O mesmo tom ressentido, a mesma mágoa incontida por não ter o seu valor reconhecido pelo outro, assim mesmo, em um misto de bolero e farsa. Temer adota aquela fala empolada de advogado antigo, o peito estufado de pombo ao modo de prefeito de Sucupira, mas a dramaturgia que rege o seu comportamento é o melodrama. Faltou só falar de “perfídia” e de “coração partido”.

Mas pela fúria com que se entrega à retaliação do pérfido traidor, na defesa de um imaginário legado e de uma quimera que ele ainda chama de “nosso governo”, se depreende que o nosso “ex-presidente no exercício da presidência” tem uma imagem de si e da sua própria dignidade política que não há como caber no pudor e na modéstia que se esperaria de cavalheiro de tantas mesóclises & tão grandes mesuras. Temer não se contém em si e parte para o ataque, sem medir consequências. “Lambuzou-se inteiro com o meu governo e agora vem dizer que nem me conhece nem nunca trocamos carícias?”, dizem, no final das contas, os vídeos dirigidos a Alckmin. É praticamente revenge porn política. Despudoradamente.

Chegamos às facas

Por fim, estamos colhendo as tempestades resultantes de ventos tão longamente e com tanto afinco semeados. Há exatamente um ano eu escrevia que este país me parecia perdido. Não por causa dos políticos, que estão fazendo o que sempre fizeram, e agora, pelo menos, estão sendo flagrados, expostos e, eventualmente, punidos. Mas por causa dos cidadãos, eu, vocês. Todos agora acompanham os escândalos e fatos políticos e, ultimamente, as disputas eleitorais, feito loucos numa rinha de galos, alternando entre torcer pela morte de um dos galos ou atacar os torcedores do galo adversário a dentadas. É uma polarização sem fim, a irracionalidade tomou conta de tudo, é uma agressão sem limite, sem serenidade, sem projeto, sem substância, sem nada. Só fúria, estupidez, desinformação e raiva. O país parece em surto. E não consigo ver quando isso pode parar, uma vez que até os que pareciam mais sensatos e serenos dentre nós estão juntando pedras e afiando facas.

Pois bem, as lâminas começaram a ser usadas.

Faz muito tempo que a espiral de insanidade política brasileira está a ponto de produzir um cadáver. Por pouco não aconteceu na última quinta (6) e, por medonha ironia do destino, justamente com o político que, na semana retrasada, brandia uma peça mecânica como se fosse uma arma automática e brincava (com ele, é sempre brincadeira) de “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. O mesmo candidato que não se cansou de brincar de “fazer arminha com os dedinhos” com as criancinhas que os seus fãs lhe subiram ao colo durante esta campanha.

Pronto, conseguimos. O país está oficialmente em surto. Surto político. Que Deus se apiede de nós.


> Acompanhe a coluna de Wilson Gomes, todas as sextas, no site da CULT

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