“Cachorros”: a questão cínica em Ivana Arruda Leite

“Cachorros”: a questão cínica em Ivana Arruda Leite
Dog balloon, Palácio de Versalhes

“A mulher que amava cachorros” é Roberta, aquela que tem um “amor de cadela”, que é salva por seus cachorros, ou por um amante furioso como um cão de guarda que a protege de outro. Entre Lucas, o maluco, e Dario, o abandonado, é Barão, o único, entre os “cachorros” que, arrancando um naco de carne de um deles, realmente a defende.

“A mulher que amava cachorros” é título de um dos diversos contos de Ivana Arruda Leite que constam do novo livro chamado justamente de “Cachorros” (Demônio Negro, 2014). Editorialmente lindo e uma delícia de ler, “Cachorros” chama, sobretudo, pelo deboche realizado em sentido antropológico sofisticado.

Quem lembrar da etimologia do cinismo como corrente filosófica da antiguidade grega pode aproveitar especialmente o livro. Lembremos que os cínicos antigos eram chamados de cães. Na literatura de Ivana, tenha ela consciência ou não do que fez, o uso da “parrêsia”, do dizer verdadeiro, é diretamente relacionado com o que os cínicos praticavam como método discursivo. Ora, em “Cachorros” há cachorros para todos os gostos. E nem as mulheres, que recebem o foco de luz branca, por oposição à luz negra lançada sobre os homens, deixam de ser caninas.

Pelo assunto – mulheres sempre mais ou menos desgraçadas por algum homem enquanto cachorro e envolvidas com algum cachorro enquanto animal propriamente dito – “Cachorros” é daqueles livros que uma amiga compra pra dar para a outra, sendo que a outra já teve a mesma ideia. Será certamente um livro que deverá circular no campo das solidariedades femininas que alguns fingem não existir.

“Cachorros”, de um jeito ou de outro, tem um traço dessa solidariedade: a clareza da comparação explorada literariamente  extrapola a vida, vai à ficção e, por isso mesmo, devolve a questão relativa ao tema do homem enquanto cão na vida de uma mulher. Para bons leitores – e boas leitoras -, a coisa vai além das meias palavras. E rimos, como rimos. Claro que com aquela pontinha de angústia da qual a narrativa mordaz de Ivana Arruda Leite não nos poupa.

Puppy de Jeff Koons, Museu Guggenheim / Bilbao

Do primeiro ao último conto, sobram essas ideias diretas demais, às vezes meio cínicas: “Meu amor é um pau enorme que assusta os homens, esses coitadinhos” como vemos em “Lonely Street”. Às vezes cínicas e meio: “Na impossibilidade de comer um homem, comi uma truta com amêndoas que custou a metade do meu salário” como se lê em “Le Poisson D’Or”. Às vezes mais do que cínicas como em “Banho de Mulher”: “tomara que o xampu da Malu Mader faça de mim uma nova mulher”.

Não há nenhuma idealização das mulheres, tão pouco romantização, muito menos aquela defesa sem dialética que empobrece tanto a crítica quanto o humor. Sejam mães, filhas, solteiras, lésbicas, streapers, seja a comatosa, seja a tetraplégica, seja a mulher do japonês, todas tem um homem que, em algum ponto da vida, deixou a desejar. Um homem que, enquanto objeto amoroso, causa muita vergonha.

Claro que a história do amor entre homens e mulheres é a das frustrações, mas Ivana nos ajuda a rir dos fracassos. Entre amargura e crítica, sobra um olhar que cada leitor pode, por meio do livro, oferecer a si mesmo.

Em “A patética História da Loba Faminta e Banguela”, a narradora deixa claro que “chega de roubar marido dos outros” e investe nos mais jovens que ela, os que dela podem aproveitar algo, no caso, o dinheiro. No mercado sexual em que mulheres sempre valem como mercadoria, a idade é uma vantagem masculina, mas não aqui, quando fica claro que os homens também valem tanto para uma mulher quanto uma mulher vale para um homem. Verdade que quem fica só, em geral, perdeu. Mas perdeu o quê mesmo? Às vezes uma chateação daquelas, como por exemplo, a de “beber um Peterlongo” e “pagar a conta de um motel”, tal como no conto “O último encontro” que fecha o livro. Nós, ficamos sabendo que a marca da bebida é a cara do homem. E que isso, evidentemente, não é só literatura.

O viés cômico de Ivana não é engraçado, pega pelo evidente amargor que é próprio da vida. Um livro em que “Você está aqui” como no primeiro conto. Um livro do qual ninguém vai conseguir escapar. Sem uso de máscaras ou meias palavras o livro é espelho. Diante dele, contudo, surge a liberdade: independente do gênero ao qual os leitores foram classificados, sempre se pode escolher entre ser “homem” ou “cão”.

A terceria alternativa, ser mulher, é a única que permite rir, com o livro, da vida.

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