Brasil: Nunca mais, 40 anos depois

Brasil: Nunca mais, 40 anos depois

 

Em 2025, o livro Brasil: Nunca Mais completou 40 anos. Produzido ainda sob a ditadura, o volume foi apenas a ponta do iceberg de um trabalho sigiloso e hercúleo de cópia, catalogação e organização de milhares de páginas de processos judiciais militares – um esforço clandestino que envolveu dezenas de colaboradores, entre advogados, militantes e religiosos, e que tornou públicas, pela primeira vez, provas sistemáticas da prática de tortura pelo Estado brasileiro.

Por razões de segurança, não houve coquetel de lançamento, divulgação prévia ou coletiva de imprensa que marcassem a chegada do livro às livrarias – apenas uma nota no jornal podia colocar a perder meses de trabalho. O volume publicado pela editora Vozes – com cerca de 300 páginas – era uma versão resumida de um relatório de mais de 5.000 páginas, com texto final de Frei Betto e Ricardo Kotscho, sob coordenação editorial de Paulo Vannuchi e supervisão do advogado Luís Eduardo Greenhalgh.

Quatro décadas depois, o contexto é outro, mas o espectro da ditadura continua a rondar a memória política brasileira, assim como o discurso da extrema direita. Para o jornalista Camilo Vannuchi, autor de Nunca Mais, livro lançado neste ano pela editora Discurso Direto sobre os bastidores da denúncia, a tarefa segue sendo a da disputa pela verdade – e, sobretudo, a de “lembrar por que os crimes de tortura e tentativa de golpe de Estado não devem ser anistiados”.

“Nem sequer os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” A célebre frase de Walter Benjamin, retirada de suas Teses sobre o conceito de história, é a epígrafe de Eu só disse meu nome, livro publicado por Camilo Vannuchi no ano passado. Pode-se dizer, no entanto, que a citação atravessa de forma mais ampla o trabalho do jornalista, que se dedica a uma obra voltada a articular o passado da ditadura militar às lutas políticas do presente.

O que incitou Vannuchi a se voltar à história do projeto Brasil: Nunca Mais foi a percepção de uma erosão recente dos valores democráticos, acompanhada por tentativas explícitas de reabilitar velhos referenciais repressivos – ainda muito presentes nas casernas brasileiras. A diferença, desta vez, está na adesão de jovens ao projeto autoritário e na franqueza inédita do discurso, que contrasta em tom e forma com os anos de chumbo. “A declaração de Bolsonaro a favor da tortura em um programa de TV não encontra paralelo sequer na fase mais truculenta do governo Médici. Na ditadura, a tortura era praticada nas sombras, nunca defendida publicamente”, diz em entrevista à Cult.

Nesse sentido, o material reunido pelo Brasil: Nunca Mais teve papel determinante ao demonstrar que a tortura não era fruto de “desvios” ou “casos isolados”, como sustentavam os militares, mas uma prática sistemática do Estado, amparada por um Judiciário comprometido com a repressão.

Se o discurso da extrema direita insiste em afirmar que a violência teria pesado apenas contra “terroristas” e “subversivos”, jamais contra o “cidadão de bem”, investigar os bastidores da maior denúncia já feita contra a tortura no Brasil se impõe como um gesto de disputa dessa narrativa. Trata-se também – como observa Vannuchi, ao mencionar as recentes manifestações em favor do Projeto de Lei da Dosimetria, em tramitação no Congresso Nacional – de enfrentar o próprio sentido atribuído à anistia.

“Os nossos mortos ainda não podem descansar. Até para eles, a luta é todo dia”, diz. Ainda assim, nos últimos anos houve vitórias no campo da memória e da reparação. Em outubro deste ano, por exemplo, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, emitiu 63 certidões de óbito retificadas de pessoas mortas e desaparecidas políticas durante a ditadura militar – entre elas, as de Vladimir Herzog, Carlos Marighella e Rubens Paiva. Para além do reconhecimento oficial da responsabilidade do Estado brasileiro por essas mortes, a medida cria bases jurídicas para outras formas de reparação que muitas famílias aguardam há décadas.

Lembrando ainda a vitória de Ainda estou aqui na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro no início deste ano, o autor observa: “Nossos mortos são vingados em doses homeopáticas”. Mas adverte: “Se nós, enquanto sociedade brasileira, não formos capazes de entender nossas dívidas históricas e as discriminações estruturais que assolam o país – e de afirmar que tortura, violações de direitos humanos e crimes contra a humanidade precisam ser rechaçados tanto pela direita quanto pela esquerda –, vai ser muito difícil avançar.”

 

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