Asa de Sereia de Luís Henrique Pellanda

Asa de Sereia de Luís Henrique Pellanda

A experiência urbana tornou-se uma experiência traumática. Pessoas que vivem sem casa andando pelas ruas, crianças sem escola experimentando toda forma de miséria nas esquinas, assaltantes e assaltados vivendo lados opostos de um destino infeliz, todos são seres perdidos, são seres jogados no mundo – a sociedade urbana – sobre o qual nada sabem. A inocência em um mundo triste como o nosso é culpa de cada um, dívida a ser paga por quem não pediu pra existir. Penso nisso e me pergunto: quem não sente dificuldade, por exemplo, de “estar” em uma cidade como São Paulo, uma cidade cada vez mais imobilizante, uma cidade em que os piores afetos, o ódio e todos os seus derivados, transitam em grandes carros, erigem horrendos prédios de cimento e espelho que não espelham nada senão o próprio “nada”? Hoje em dia penso que o que podemos fazer por São Paulo é deixá-la. Ou, antes, se deixá-la for impossível e se pretender alguma sobrevida, ajudar a poesia a invadi-la.

Em “Asa de Sereia” (Arquipélago, 2012, 207 p.), Luís Henrique Pellanda faz da crônica um ato de salvação de uma grande cidade: Curitiba. Curitiba faz parte da fantasia geral como cidade modelo. Todos nós pensamos que Curitiba é melhor do que as outras. E é provável que seja. Uma cidade que parece ainda um pouco mais civilizada do que a “monstruocidade” que é São Paulo, por exemplo. Que parece mais civilizada que Porto Alegre que também está em vias de destruição pela especulação imobiliária e pelos interesses empresariais e antipolíticos de seu governo. Esses interesses são anti-civilizados, são, portanto, bárbaros, impedem que a cidade se realize de maneira excelente, ou seja, como ela deveria ser enquanto lugar onde vivem os cidadãos (que é aquele que habita a civitas, ou seja a cidade). Civilizado, a propósito, quer dizer aquilo que foi moldado pela civitas, o que se diz daquele que pode viver junto com outros num plano de convivência não bárbara.

Bom, esse não seria o espaço para comparar cientificamente essas cidades, mas dá para imaginar, com a experiência que se tem, que todas as grandes cidades sofrem do mesmo mal, a racional irracionalidade do capitalismo que invadiu o Estado há muito tempo. Mas que invadiu também as relações humanas, fazendo de todos seres competitivos e consumistas, cínicos e avarentos. Em todas as grandes cidades os habitantes – e a materialdiade arquitetônica em geral – que não combinam com o projeto do capital estão em vias de aniquilação. Luís Pellanda em seu livro salva, por meio da crônica, justamente esses personagens que os destruidores das cidades querem ver aniquilados.  Esses personagens que nascem no meio do vasto projeto de destruição das cidades que, como construção, sempre já foi ruína. Ele salva as praças destruídas, as bancas de flores, as ruas, as tipuanas em vias de extinção. Ele salva o insalvável, o belo e o feio, em uma palavras: a poesia urbana.

O  autor explica na última – e escatológica – crônica do livro chamada “Sabiá enterrado vivo”que o cronista é um inocente. Mas direi também que, na mão do Luís Pellanda, a crônica é evidente efeito de sua generosidade. Essa generosidade que não combina com o capitalismo, modelo avarento por excelência e que encanta apenas àqueles que são animados pelo ódio ao outro. Esse ódio é garantia apenas de mais ódio. E ele se opõe à poesia.

Tempos atrás um jovem me perguntou “como escrever crônicas?” hoje eu posso responder a ele dizendo que devia pensar no caso de Pellanda. Pellanda não é um escritor que aprendeu a escrever crônicas, ele vive a experiência da cidade e dá-lhe uma forma que é do tamanho do seu olhar. Por isso, Curitiba, sobretudo o seu incrível centro, se aprofunda nesse olhar que constitui a obra de Pellanda. Com ele a gente consegue sentir o frio e a chuva curitibanos, mas, sobretudo, a estranheza inquietante desses personagens que ficariam bem num filme de Fellini se não estivessem melhor numa crônica de Pellanda. Sejam os transeuntes esperando o ônibus, seja Danúbio dançando entre lojas, sejam os homens que se beijam na boca, seja a travesti que joga uma flor da janela, a prostituta que sugere qualquer coisa, os pleiboizinhos em seus carros, o mendigo cheio de amor, toda essa gente que está marcada pra morrer na miséria oferecida pela cidade, é salva nas palavras de Pellanda.

Mas como ele consegue, eu penso, como ele consegue escrever tão bonito, sobre uma vida que todos consideram tão feia e se esforçam por fingir que não existe? É que Pellanda, o grande cronista contemporâneo, não tem medo do que escreve sobre o mundo em que vive. O cronista é, além de um inocente e um corajoso, alguém que permanece vivo num mundo de zumbis.

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