As agências de checagem na guerra epistêmica da extrema-direita

As agências de checagem na guerra epistêmica da extrema-direita
Um juiz de São Paulo determinou, na última sexta, que a agência Aos Fatos não poderá tachar de fake news as reportagens de uma revista que se orgulha de ser parcial (Arte: Revista Cult)  

 

Há alguns meses foi lançada no Brasil uma revista autodeclarada conservadora e pró-capitalismo (acho que é “liberal” que se diz em tupiniquim). Até aí, tudo bem, o que não falta no Brasil são conservadores, ultraconservadores e antiestatista, que, inclusive, estão mandando no governo neste momento. Pois que tenham mais um veículo de informação para chamar de seu. E se os veículos de linha conservadora que já existem, discordam eventualmente do governo, dado que uma coisa é serem conservadores e outra é serem aliados de um projeto de barbárie, pois que exista uma revista que além de ultraconservadora, é também governista. 

Acontece que, já de saída, a revista declara que não pretende ser imparcial. Razão? A realidade, segundo eles, é uma só e tem lado, e a revista estará do lado da realidade. Raciocínio interessante, considerando-se que a imparcialidade tem a ver com o modo como um veículo se coloca entre as diversas partes e partidos políticos que separam, como linhas de força, qualquer sociedade pluralista. A realidade pode ser uma só, mas como se chega à realidade apenas através de pontos de vista, a ideia de que apenas uma das perspectivas que tentam dar conta da realidade é capaz de apreendê-la e de descrevê-la é só um truque malandrinho de quem quer vender a própria parcialidade como a verdade. A revista não está automaticamente do lado da realidade, e sim do lado dos conservadores e dos ultraliberais, negando qualquer outra dimensão da realidade que lhes escape ao ponto de vista adotado. 

A este ponto, as coisas já estão complicadas, uma vez que o veículo não se vende como imprensa de opinião, mas como um “quality paper”, jornalismo de referência, em cujo contrato com o leitor a ideia de imparcialidade faz parte, assim como as obrigações com a relevância, a atualidade, a honestidade e com o respeito aos fatos. 

Os “fact checkers” e agências de checagem, por outro lado, baseiam-se na deontologia clássica de que notícia de verdade é notícia que, em vez de criar ou falsificar fatos, simplesmente os relata. Parece-me, pois, razoável que quem acredita que a apuração dos fatos é o único método seguro de se acercar da verdade tenha essas agências do seu lado. Quem, por outro lado, não acredita que apuração seja um procedimento essencial ao jornalismo, que é do seu direito, recorra ao jornalismo hiperpartidário ou a sites de fake news, e todo mundo vive em paz. 

A questão é que este mês de abril a revista anunciou uma ação judicial contra uma agência de verificação de fatos. Uma agência de checagem de fatos é instituição do jornalismo de referência, e se agora há muitas delas é porque quando a extrema-direita avança no mundo, a partir de 2016, a informação política se desvalorizou mais que o real no governo Bolsonaro. Estamos, por assim dizer, mergulhados em fake news e nos afogando em narrativas de complôs, gêneros em que a aderência a fatos não desempenha qualquer papel. 

Neste contexto, por óbvio, uma agência de verificação de fatos, que é auditada por organismos independentes, não pode se dar ao conforto de adotar um apriori político (o conservadorismo ou o stalinismo, por exemplo), limitando-se a fazer estritamente o seu trabalho de verificar empiricamente se os fatos correspondem aos relatos e discursos, de acordo com a nossa compreensão comum de verdade. Quando não detectam um grau adequado de correspondência entre o relato e os fatos, o que lhe cabe é dizer que a reportagem ou o discurso distorceu e adulterou os fatos ou que simplesmente inventou tudo. 

Mas a revista que acredita que “a verdade é uma só”, contudo, não aceitou jogar o tradicional jogo do jornalismo de apuração. E foi a primeira vez na história brasileira que uma revista que garante fazer jornalismo de qualidade, mas é confessadamente parcial, recorreu à justiça – por sua vez, confessadamente imparcial – para garantir que agências independentes de verificação de fatos fossem proibidas de checar matérias que veicula e que assegura que são aderentes aos fatos. Repito, uma vez que é espantoso mesmo: uma empresa de jornalismo foi à justiça para que as suas matérias não sejam verificadas, checadas, examinadas para ver se correspondem ou não aos fatos. 

Entenderam? É como se a indústria alimentícia fosse à justiça para que se proibissem inspeções sanitárias nos seus produtos. É como se a indústria automobilística fossem à justiça para se desobrigar de se submeter a testes rigorosos e independentes de segurança dos veículos. 

A revista declarou que não é democrático dar aos leitores que acreditam em apuração o direito de saber que uma determinada matéria ou declaração que distorce e falsifica fatos é fake news, mente. E demandou na justiça “as devidas” retratações e reparações. Gaba-se, além disso, do trabalho democrático de denunciar as agências de checagem como “uma espécie de STF” da imprensa. A revista diz que as agências simplesmente não gostam das “verdades incômodas” que ela oferece, mas o faz enquanto esperneia contra a incômoda verdade de ver suas “reportagens” taxadas como fake news toda vez em que ela publica fake news. 

Na verdade, sabemos que aqui não se trata de defender a democracia, a liberdade ou o pluralismo, mas de mais um ato da guerra epistêmica da extrema-direita reinante contra qualquer instância que se atreva a arbitrar sobre a verdade. Ciência, universidade, intelectuais, a Suprema Corte, o jornalismo e, enfim, fact-checkers e agências de checagem de fatos, fazem parte dos inimigos a serem atacados. 

E como, no Brasil atual, não há absurdo que não encontre um juiz de primeira instância que o consagre, um juiz de São Paulo determinou, na sexta-feira, dia 23, que a agência de checagem Aos Fatos não poderá mais tachar de fake news as reportagens de uma revista que se orgulha de ser parcial. 

Alguma coisa aqui, contudo, não se encaixa. O juiz está misturando dois campeonatos. No mundo da extrema-direta, como, aliás da extrema-esquerda ou de qualquer extremo, há veículos hiperpartidários, que promovem explicitamente pontos de vista ao ponto de a eles sacrificarem os fatos e a honestidade. Sem mencionar aqueles veículos que, já sem sombra de escrúpulos, vivem de oferecer teorias da conspiração, fake news e fantasias. E há, naturalmente e por outro lado, veículos com um viés partidário mínimo ou meios com uma inclinação liberal ou conservadora, mas ainda assim respeitáveis, posto que neles a apuração e o respeito aos fatos cumprem ainda papel decisivo na decisão editorial. De lado, portanto, veículos de fakes e veículos hiperpartidários, do outro, o jornalismo de referência. 

No caso do jornalismo hiperpartidário, as reportagens são seletivas ou incompletas, a opinião é baseada em formas não muito bentas de persuasão. Descendo um pouco mais, os veículos em que as matérias são propagandas ou contém fatos enganosos, informações inexatas ou fabricadas. No modelo padrão do jornalismo de referência, por sua vez, o que se espera são relatos originais e consistente, análises de qualidade e uma opinião ou inclinação editorial baseada em persuasão honesta. 

 

Há, portanto, muitos padrões
do que se chama jornalismo,
e tudo vai depender do que
esses veículos dizem aos
leitores que são e o que deles
devem esperar.

 

 

Nos últimos anos, temos cada vez mais leitores que se satisfazem, desejam e até buscam ativamente veículos hiperpartidários e suas matérias parciais, mistura de relatos e propaganda, e as informações fabricadas, que na era digital conhecemos pelos nomes de fake news e teorias da conspiração. Preferem esse tipo de material por questão de identificação política, por compartilharem a ideia de que política é sectarismo e proselitismo e/ou para evitar a dissonância cognitiva com um sistema dogmático de convicções já instaladas na própria mente e no próprio coração. 

Mas temos também os eleitores que buscam informações exatas, extensas, complexas, aderentes aos fatos e honestas. E que precisam exatamente deste tipo de informação para tomar as suas decisões políticas. Aliás, todo o consenso social em que se baseia a democracia liberal supõe esse tipo de leitor ou consumidor de informação e que exista um jornalismo que se ocupe de oferecer informações com este padrão de qualidade.

Uma agência independente de verificação de fatos trabalha para esse tipo de leitor e de cidadão, não para o sujeito cuja dieta de informação é baseada em propaganda, fake news e complôs. Nem para os que preferem consumir apenas pontos de vista, mesmo que a partir de reportagens seletivas e incompletas ou de opinião parcial e subjetiva. O que uma agência de checagem faz é oferecer ao cidadão que deseja um jornalismo baseado em fatos e em apuração uma orientação sobre que tipo de veículo oferece a informação com a qualidade que ele deseja. 

Uma agência de verificação não viola qualquer direito de um veículo hiperpartidário. Não diz que os veículos que oferecem informação do tipo C, D ou E devam ser fechados ou impedidos de executar o seu modelo de negócios. Sequer diz que não há distinção entre um veículo hiperpartidário, como esse que foi à justiça, e as empresas que entregam mentiras e falsificações todos os dias para a guerrilha política. Uma agência de verificação sequer tira leitores de um veículo hiperpartidário, pois estes decidem que informação consumir com base em afinidades ideológicas. Um sujeito ultraconservador radicalmente pró-capitalista nunca deixaria de ler uma revista com esse perfil apenas porque uma agência de checagem que não compartilha do seu apriori político tachou a reportagem x ou a matéria y como fake news. 

Na verdade, uma agência de checagem é um sinalizador apenas para nós, a parte da sociedade que prefere o jornalismo de referência, de que aquela matéria específica não atende ao padrão de aderência aos fatos que esperamos de um jornalismo de qualidade. A democracia agradece. 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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