Arte Contemporânea: sobre nossa dificuldade de pensar e fazer

Arte Contemporânea: sobre nossa dificuldade de pensar e fazer

O seguinte texto foi publicado no número 7 da Revista As Partes do Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre a propósito de meu minicurso no Festival de Artes deste ano. O link para acessar a revista toda que tem belos textos é http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/smc/usu_doc/as_partes_7_dez_2012.pdf

(As imagens são de meus artistas favoritos)

Arte Contemporânea: sobre nossa dificuldade de pensar e fazer

Nossa experiência com a arte, seja como artistas ou como seus apreciadores depende de nossa compreensão da arte. A compreensão que é um campo amplo e aberto depende, por sua vez, de algo bem mais estreito: um conceito. O conceito é o eixo em torno do qual se situa nossa compreensão. É com conceitos que nos entendemos, que elaboramos nossa visão de mundo, das coisas, de nós mesmos. A compreensão da arte acontece, por exemplo, quando vemos um quadro, uma peça de teatro e, desde a delimitação do objeto que já temos previamente estabelecida em nosso contexto cultural, pensamos “isso é arte”. Aí podemos gostar dela ou não. O gosto não nasce sozinho, sem um conceito prévio que nos indica que podemos compreender, e que logo podemos aceitar o que vemos, ouvimos ou sentimos. Por outro lado, chamamos de arte contemporânea aquilo que vemos e que, todavia, não conseguimos delimitar muito bem. Se não a entendemos é que não temos um conceito preciso do que ela seja. Ela escapa aos nossos conceitos prévios e, por isso, nos perturba.

Daí que diante de uma obra contemporânea em vez de afirmar “isso é arte”, cabe muito mais perguntar “isso é arte?” A obra contemporânea quebra com nossa ideia habitual de arte e é por isso que tantos se sentem incomodados ou, pelo menos, desacomodados, diante de suas obras. A desacomodação é o que de melhor uma obra pode nos dar. Mas vejamos como isso tudo é questão de conceito.

Os conceitos de arte, como quaisquer conceitos, se dão no tempo. São formulados na história em função de muitos aspectos, tais como poderes econômicos, teorias de filósofos e críticos e, é claro, os trabalhos dos artistas. Mudam os tempos, mudam as perspectivas teóricas e práticas, mudam os pensamentos e as sensibilidades. Por isso, o que se entendia por arte há séculos é diferente do que se entende por arte hoje em dia.

As obras de arte em quaisquer tempos dependem sempre das teorias que são agregados de conceitos. Por isso, costumamos perguntar “o que é arte?” ou perguntar “isso é arte?”, porque não experimentamos a arte sem a teoria que a acompanha. Arte é, portanto, também uma questão de teoria, ou seja, do que pensamos dela.

Lucian Freud: Benefits Supervisor Sleeping (1995)

Nosso entendimento atual das artes deriva de uma compreensão da arte como objeto histórico. Mas este é apenas um lado da questão. Já sabemos a esta altura da vida que tudo muda, que tudo é histórico. O que não sabemos é que nosso conceito de arte deriva da delimitação da obra definida pela história da arte. Pode ser que não saibamos também que aquilo que chamamos de “história da arte” implica uma teoria sobre a arte que classifica objetos, obras, artistas, rituais ou performances segundo critérios teóricos. Pode parecer óbvio, mas é preciso dizer que não percebemos que estamos pensando a partir de ideias prontas quando não estamos pensando por conta própria. Há conceitos prévios que vem do mundo, dos outros, e não de nós e que, no entanto, nos orientam a ter opiniões e ações sobre arte.

Acreditamos ao perguntar “isso é arte?” que esta pergunta é totalmente nossa, que ela define uma dúvida legítima e natural, inevitável e sincera. Porém, mesmo esta pergunta já faz parte de uma teoria, aquela que vem administrar o lugar da arte, reconduzindo toda a expressão e as perspectivas soltas e espontâneas a uma ideia fixa de arte que, a sua maneira, faz o sistema das artes como um sistema de poder, continuar funcionando. O problema do sistema é que ele exclui da diferença enquanto sustenta a identidade como um princípio devorador do pensamento. E, neste caso, também da expressividade artística que resulta de uma reflexão, de uma compreensão de mundo…

Tomaselli no carro

Assim como há quem diga que filosofia é “história da filosofia”, que história é “teoria da história”, há quem pense que arte é algo que diz respeito a, ou tem a ver com, “história da arte”. Daí que muitos vejam a arte como um selo de distinção dado pela “história”, pelos historiadores que confundem facilmente com críticos. Como se o que possa ser arte dependesse de ter estado na história passada, ou de sua chance de “entrar” na história futura. Daí a importância dos artistas iludidos de aparecerem em cadernos de jornal, livros e textos de teóricos em geral. Há certo desespero nisso, como se a história salvasse da morte da arte, dando consistência ao que facilmente se perderia no fluxo do efêmero a que corresponde a vida. Esta teoria da arte separa expressões criativas, as invenções que compõem as obras, em coisas que podem ser arte e outras que podem não ser arte segundo critérios sempre relativos a um tempo, a necessidades e interesses de grupos e instituições. A própria arte deixa de ser experiência das pessoas e se torna, nestes casos, mera instituição que administra a sensibilidade estética das massas – assemelhando-se em seus procedimentos com a publicidade – ou dos pequenos grupos de especialistas – ficando restrita a problema de galeristas, críticos, curadores, enfim, o sistema em que a obra surge como fator de poder e distinção.

Não descobri o título, mas olhando aqui vcs veem muitas http://to.plugin.com.br/pinturas-atuais.htm

“Arte contemporânea?”

A confusão de muitos em relação à arte contemporânea deriva do hábito de pensar a partir da ideia de arte definida segundo a história da arte. Ora,  a arte contemporânea não está na história, porque ela está acontecendo hoje, no tempo vivido e não no tempo que podemos experimentar como histórico. Somos extemporâneos do tempo histórico enquanto vivemos no “hoje em dia” construindo, paradoxalmente, o tempo histórico do qual somos estranhamente separados. Verdade é que muito do que chamamos de arte contemporânea esteja já “consagrada” pela teoria e, assim, pelo sistema. Mas a consagração não é a verdade da arte. Ela é pouco para definir a arte, pois que, neste ponto, faz votlar à ideia de arte como um objeto simplesmente “distinto” no sentido de ser um objeto não diferente (como são quaisquer uns em relação a quaisquer outros), mas melhor do que os outros. Em outras palavras,  com este tipo de ideia a arte fica reduzida àquilo que as pessoas tem falado em um sentido vulgar como o “diferenciado”, referindo-se ao “melhor”.

Arte, por sorte, sabem outros, não é selo de distinção, é experiência pessoal e coletiva capaz de criticar e debochar da “distinção” a que tantos reduzem a arte. Por isso é que não importa selar a arte contemporânea com o selo de arte, mas antes experimentá-la em sua estranheza como objeto que não se deixa definir. Quem sabe ela nos mostre algo que ainda não sabemos enquanto acreditamos que a arte cabe em nossas pequenas cabecinhas muitas vezes ocas de tantas ideias alheias. Arte é também libertar-se do pensamento pronto e ousar pensar, e fazê-lo de um jeito diferente. A verdade da obra está nesse lugar onde ela jamais está pronta. Nós, podemos ser artistas quando não estamos mais preocupados com nossos processos do que com definições e classificações.

Instalação Louise Bourgeois 2008
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