Arcas de Babel: Fabiana Macchi traduz Aglaja Veteranyi

Arcas de Babel: Fabiana Macchi traduz Aglaja Veteranyi
Fabiana Macchi traduz Aglaja Veteranyi, 'um dos expoentes de uma literatura jovem, irreverente e inovadora' (Foto: Michael Frauchiger/Ayse Yavas)

 

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe semanalmente traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Nesta vigésima-quinta edição, a poeta, tradutora e professora Fabiana Macchi apresenta e traduz uma série de poemas de Aglaja Veteranyi, instigante poeta e prosadora romena de expressão alemã. Ela prepara uma coletânea de poemas em prosa da autora, que sairá em breve pela Relicário edições.

Fabiana Macchi é professora no Departamento de Letras Anglo-Germânicas da UFRJ. Possui graduação e mestrado em Germanística Intercultural e Tradução pela Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, e doutorado em Estudos de Literatura pela UFF. Foi professora de Tradução Alemão-Português na Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, e na Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique, na Suíça. Traduziu contos, peças de teatro e poemas de vários autores, entre eles Kurt Schwitters, Ernst Jandl, Eugen Gomringer, Paul Klee, Hans Magnus Enzensberger, Pedro Lenz, Aglaja Veteranyi, Gino Chiellino. Publicou poemas próprios e traduções em jornais e revistas como O Globo, O Povo, Suplemento Pernambuco, Cult, Olympio, Inimigo Rumor, Coyote, Sibila, Gratuita, etc. De Aglaja Veteranyi, traduziu também o romance “Por que a criança cozinha na polenta” (DBA, 2004), que também foi adaptado para o teatro pela Cia Mungunzá de Teatro, com direção de Nelson Baskerville.

 

***

 

Sobre Aglaja Veteranyi, sua obra e os desafios da tradução de seus poemas

Aglaja Veteranyi (lê-se Agláia Veterâni) nasceu em 1962 em Bucareste, capital da Romênia, em uma família de artistas de circo. Seu pai era o palhaço Tandarica, e sua mãe era a “mulher dos cabelos de aço”, que fazia malabarismos pendurada pelos cabelos na cúpula do circo. Em 1967, a família consegue fugir da ditadura de Ceausescu, e Aglaja passa então a infância viajando com o circo pela Europa, África e América Latina, inclusive pelo Brasil. A partir de 1977 (as informações sobre esta data não são precisas), Aglaja e sua irmã passam a viver em um internato na Suíça, enquanto seus pais continuam trabalhando no circo. É na Suíça que Aglaja adquire a sua “língua-madrasta”: o alemão.

Naquele país, forma-se em teatro, trabalha como atriz, dramaturga, diretora de teatro e professora de artes dramáticas. Torna-se cofundadora do grupo de literatura experimental Die Wortpumpe e do grupo de teatro Die Engelmaschine. Publica seus poemas (ou mininarrativas, como ela chamava) em várias antologias e inúmeras revistas. Seu primeiro romance e único publicado em vida, em 1999, Warum das Kind in der Polenta kocht, escrito em alemão, foi um sucesso de público e crítica e recebeu vários prêmios na Suíça e na Alemanha. O livro foi adaptado para o teatro e traduzido para várias línguas, inclusive para o português (Por que a criança cozinha na polenta. São Paulo: DBA, 2004. Tradução: Fabiana Macchi.). Um segundo romance e uma coletânea de seus poemas em prosa foram publicados postumamente. As traduções que aqui apresento fazem parte desta coletânea dos poemas em prosa, que será publicada pela Relicário Edições.

Aglaja Veterany foi um dos expoentes de uma literatura jovem, irreverente e inovadora de língua alemã nos anos 1990. Ela foi vista inicialmente como uma representante da tradição de autores migrantes que, a partir dos anos 1960, passaram a escrever em alemão. Essa literatura foi chamada no início de Gastarbeiterliteratur, ou seja, a literatura feita pelos “trabalhadores convidados”, que foram para a Alemanha, Suíça e Áustria nos anos 1960 e 1970, oriundos de vários países, por meio de programas bilaterais de recrutamento. Seguiram-se outras denominações, na tentativa de descrever o fenômeno, que já não era mais restrito aos trabalhadores iniciais: Migrantenliteratur, literatura de imigrantes, passando por “literatura multicultural”, “literatura intercultural”, etc.

O que estes autores tinham em comum, porém, era a experiência de vida em duas culturas e duas línguas diferentes, muitas vezes situações de vida bem adversas e uma consequente liberdade das tradições sócio-culturais e literárias das duas culturas envolvidas. Nem é possível afirmar que tivessem em comum o fato de não serem falantes de língua materna alemã ou de não terem nascido nos territórios dos países de língua alemã uma vez que alguns já nasceram na Alemanha, Suíça e Áustria, filhos de imigrantes.

Os temas, que a princípio foram um critério, juntamente com a origem dos escritores, para definir essa vertente, eram basicamente a distância de casa, as diferenças culturais, as dificuldades de adaptação à nova cultura, a busca da própria identidade. Infelizmente, Aglaja não viveu para ver que ela foi um degrau importante na consolidação dessa literatura no cânone das literaturas de expressão alemã. Ela decidiu precocemente pôr fim à própria vida, em 3 de fevereiro de 2002, aos 39 anos de idade, durante uma crise emocional, provavelmente causada por um grave problema de saúde.

As personagens apresentadas em seus poemas raramente têm nome: aparecem simplesmente como “a mãe”, “a avó”, “a mulher”, etc. e, apesar de uma certa convivência e interação entre elas, permanecem solitárias e confinadas à própria condição. Existe uma melancolia e uma certa morbidez nos temas e cenas dos textos, mesmo que ainda persistam também os laços familiares, desgastados e adoentados, mas ainda existentes. Seus poemas são às vezes como micropeças de teatro, com diálogos marcados e instruções cênicas da autora. Entre a proximidade e o estranhamento dos personagens entre si, existe um cotidiano que concede uma certa estrutura à vida, define as identidades e as legitima. O olhar da autora para as suas personagens é de empatia e solidariedade, mesmo que a linguagem pareça, por vezes,  apontar para alguma ironia.

Aliás a linguagem de Aglaja Veteranyi é aparentemente simples, com frases curtas, que prescindem das longas e complexas estruturas sintáticas possíveis no idioma alemão. Mas a pluralidade de perspectivas dentro de um mesmo texto, a alternância sutil entre elas, o jogo de estranhamento semântico, escolhendo verbos distintos dos que normalmente são combinados em colocações linguísticas, e a singularidade de suas metáforas são os grandes desafios destas traduções. A questão fundamental da transposição destas combinações linguísticas incomuns é encontrar uma dosagem equilibrada de estranhamento em português que não dê a impressão de aleatoriedade, para que o efeito estético do original seja mantido, como recomenda a boa prática funcionalista da tradução.

Os textos de Aglaja podem ter esses toques de literatura do absurdo que o uso que ela faz da linguagem imprime (ela afinal se dizia influenciada por Samuel Beckett e por seu conterrâneo Eugène Ionesco, além de reconhecer também ter sido inspirada por outra conterrânea: Herta Müller), seus textos nunca perdem, porém, a densidade, a empatia e o acolhimento de tudo o que é humano. – Fabiana Macchi

 

Deus & o voo

 

1

Quando o clima da Rússia aconteceu em Veneza, o Rei Internacional, que se esbaldava em um jogo amoroso na banheira, decidiu ficar com tanta raiva que colocou todos os seus 4321 navios de guerra em um saco e entregou-os ao caminhão do lixo.

Depois, concedeu uma entrevista coletiva dizendo que estava de saco cheio da natureza e que, se continuasse assim, ele também a jogaria no lixo!

Naquele momento, o bom Deus estava num voo para a América.

Ele enviou um recado ao Rei Internacional: “Perdão, eu mesmo mandei transferir o clima da Rússia para Veneza; mero passatempo, mas vou parar com isso futuramente.”

O Rei Internacional, que era conhecido por suas crueldades, deu uma segunda entrevista coletiva: “Também vou abolir os voos para a América!”

Desconhece-se o que Deus teria respondido.

É possível que ele tenha eliminado o Rei Internacional.

Ou que tenha mandado enviar a ele uma placa indicativa que aponta sempre para a direção errada.

 

2

Na América, Deus visitou a academia.
Ele bradou: “Se tudo é tudo, o que é então o nada?”
Para acalmar-se, ele provocou um golpe de vento na própria cabeça.

Poucos dias depois, Deus quis voltar para a sua avó.

 

3

Nesta frase Deus está a caminho da casa que tinha uma janela triste.

 

4

Deus chegou.

Bateu à porta.
Nada.
Entrou.
Enxergava-se apenas claridade. A avó tinha cozinhado luz.
Coma!
Deus torceu o nariz. Não seria a primeira vez
que teria uma indigestão com luz.
Coma!
Hum, disse Deus.
O quê?

Hum.

Com essa conversa a avó ficou com a língua fissurada.
Foi até a cozinha a preparou arroz doce com amêndoas
e nata batida, a comida preferida de Deus.
Deus comeu a iguaria vários dias e noites; estava
com muita fome por causa da tristeza.
A avó não comeu nada, ela ficou transparente e um pouco quebradiça.
Ele então pegou uma folha de papel, fez um traço
e disse: Então!
Você é Deus, disse a avó. Entende?

Hum, disse Deus.
Então Deus mandou dizer que não crê mais, que faz viagens ao redor do mundo.

 

O intrometido

 

Ela tem um buraco no peito onde ele pode
enfiar a mão quando ela está dormindo.
Durmo a contragosto com meu marido, diz ela, pois ele
sempre enfia a mão no meu peito, que
tem um buraco. Desse jeito o buraco não tem como ficar menor.

 

Língua materna

 

Era uma vez uma mulher, conta a mãe de Mara, que não podia ter filhos porque tinha uma boca dentro da barriga. Se você ficar andando de pés descalços, também vai crescer uma boca na sua barriga.

A mãe corta o cabelo de Mara.

Cabelos longos penetram na terra como raízes e te puxam para junto dos mortos

Mara tem a mesma idade que a sua boneca de pedra. Pai e mãe estão mortos, estão dentro da caixa de fósforos debaixo do travesseiro dela.

Mara não se chama Mara, também não se chama diferente ou parecido, ela simplesmente não se chama.

Você é a mãe agora?, pergunta a mãe.

Mara coloca os olhos da mãe e a olha.

O rosto da mãe é um relógio, o ponteiro encrava-se na pele e vai cortando pequenas fatias.

 

Residencial Belvedere

 

A Dra Neumann de repente recusa-se a rir. No terceiro andar mora a Dona Branca, que tem 98 anos. Nanni tem que ficar com a porta sempre aberta, senão ela tem ataques de gritos. No 4o andar morreu semana passada o Sr. Plácido. A estrangeira é daqui. A Sra. sabe onde é o meu quarto? Sobre a morte não se fala. O Sr. Liberto sempre foi um gigolô! Enterros também podem ser realizados nos feriados. O 4o andar está em reforma. Eu prefiro outra coisa, o Sr. Plácido chegou a dizer. A cafeteria está fechada para obras. A Sra. sabe onde é o meu quarto? O coral dos ferroviários aposentados e o seu presidente fazem uma serenata para os nossos queridos. O Sr. Walter Linsi e seus 30 homens. O treinamento semanal de risadas é opcional. Todos os visitantes queiram, por gentileza, se anunciar na secretaria! A Dra. Neumann perde as palavras pela boca. Derrame. Cuidado, piso recém-encerado! Ontem chegou o carregamento de ioiôs. Esta casa geriátrica é como um lar. Ou como um hotel. Quem ainda consegue, consegue ainda sair. No andar de baixo, o Dr. Neumann bota fogo no quarto deles. A Sra. sabe onde é o meu quarto? Como a Sra. está? Na luta. Obrigada.

 

A Fuga

 

A criança põe a boneca na mala.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.

O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.

Escondem-se na floresta:

1 boneca

1 criança

1 mãe

1 pai

1 casa

2 malas

1 fuga

 

***

 

Gott & das Fliegen

1

Als das Wetter von Rußland in Venedig stattfand, beschloß der König International, der sich in der Badewanne dem Liebesspiel hingab, eine solche Wut zu kriegen, daß er alle seine 4321 Kriegsschiffe in einen Sack steckte und der Müllabfuhr übergab.

Dann gab er eine Pressekonferenz und sagte, er habe genug von der Natur, wenn das so weiterginge, werde er auch sie in den Müll werfen!

Zu dem Zeitpunkt saß der liebe Gott in einem Flugzeug nach Amerika

Er ließ dem König International ausrichten: Pardon, ich selbst habe das Wetter von Rußland nach Venedig verlegen lassen, ein Zeitvertrieb, ich werde das in Zukunft unterlassen.

Der König International, der für seine Grausamkeit bekannt war, gab eine zweite Pressekonferenz: Ich werde auch die Flüge nach Amerika abschaffen!

Was Gott darauf sagte, ist unbekannt.

Es ist möglich, daß er den König International abschaffte.

Oder vielleicht ließ er ihm einen Wegweiser schicken, der immer in die falsche Richtung zeigt.

 

2

In Amerika besuchte Gott die Akademie.
Er rief: Wenn alles alles ist, was ist dann nichts!
Zur Beruhigung machte er sich einen Luftzug im Kopf.

Nach wenigen Tagen wollte Gott zurück zu seiner Großmutter.

 

3

In diesem Satz ist Gott unterwegs zum Haus mit dem traurigen Fenster.

 

4

Gott ist angekommen.

Er klopfte an.
Nichts.
Er trat ein.
Zu sehen war nur hell. Die Großmutter hatte Licht gekocht.
Iß!
Gott rümpfte die Nase. Es wäre nicht das erste Mal, daß er sich mit Licht den Magen verderben würde.
Iß!
Hmm, sagte Gott.
Was?
Hmm.

Von diesem Gespräch bekam die Großmutter eine faltige Zunge. Sie ging in die Küche und kochte Milchreis mit Mandeln und Schlagsahne, die Lieblingsspeise Gottes.

Davon aß Gott mehrere Tage und Nächte, denn er war sehr hungrig von der Traurigkeit.

Die Großmutter aß nichts, sie wurde durchsichtig und ein wenig zerbrechlich.

Dann nahm er ein Blatt Papier, machte einen Strich und sagte: So!

Du bist Gott, sagte die Großmutter. Verstehst du das?

Hmm, sagte Gott.

Dann ließ Gott mitteilen, er glaube nicht mehr, er mache Weltreisen.

 

Der Mitteiler

 

Sie hat ein Loch in ihrer Brust, da kann er seine
Hand hineinstecken, wenn sie schläft.
Ich schlafe ungern mit meinem Mann, sagt sie, er
Steckt immer seine Hand in meine Brust, die ein
Loch hat. Das Loch wird auch nicht kleiner so.

 

Muttersprache

 

Es war einmal eine Frau, erzählt die Mutter von Mara, die konnte keine Kinder kriegen, weil sie einen Mund im Bauch hatte. Wenn du immer mit nackten Füßen herumläufst, wächst dir auch ein Mund im Bauch.

Die Mutter schneidet Mara die Haare.

Lange Haare graben sich in die Erde ein und ziehen dich zu den Toten.

Mara ist so alt wie ihre Steinpuppe. Vater und Mutter sind tot, sie liegen in Streichholzschachteln unter ihrem Kopfkissen.

Mara heißt nicht Mara, auch nicht anders oder ähnlich, sie heißt überhaupt nicht.

Bist du jetzt die Mutter? Fragt die Mutter.

Mara setzt sich die Augen der Mutter ein und schaut sie an.

Das Gesicht der Mutter ist eine Uhr, der Zeiger gräbt sich in die Haut ein und schneidet kleine Scheiben ab.

 

Residenz Belvedere

 

Frau Dr. Neumann verweigert plötzlich das Lachen. Im 3. Stock wohnt die 98jährige Frau Weiss. Nanni muß die Tür immer offenhaben, sonst kriegt sie einen Schreikrampf. Im 4. Stock starb letzte Woche Herr Fried. Von hier ist die Fremde. Wissen Sie, wo mein Zimmer ist? Über den Tod spricht man nicht. Herr Frei war schon immer ein Gigolo! Begräbnisse finden auch an Feiertagen statt. Der 4. Stock wird gerade renoviert. Ich will lieber was anderes, hatte Herr Fried noch gesagt. Die Cafeteria bleibt wegen Umbau geschlossen. Wissen Sie, wo mein Zimmer ist? Der Chor der pensionierten Eisenbahner und dessen Präsident bringen unseren Lieben ein Ständchen. Herr Walter Linsi und seine 30 Männer. Das wöchentliche Lachtraining ist freiwillig. Alle Besucher mögen sich bitte im Büro melden! Fr. Dr. Neumann verliert die Wörter aus dem Mund. Hirnschlag. Achtung, der Boden ist frisch gewachst! Gestern kam der Lieferwagen mit den Jojos. Dieses Heim ist wie ein Zuhause. Oder ein Hotel. Wer noch kann, kann noch hinausgehen. Herr Dr. Neumann zündet einen Stock tiefer das gemeinsame Zimmer an. Wissen Sie, wo mein Zimmer ist? Wie geht es Ihnen? Es muß. Danke.

 

Die Flucht

 

Das Kind packt die Puppe in den Koffer.
Die Mutter packt das Kind in den Koffer
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.

Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurück.

Es verstecken sich in den Wald:

1 Puppe

1 Kind

1 Mutter

1 Vater

1 Haus

2 Koffer

1 Flucht


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