Intelectual público, Antonio Candido não se omitiu das discussões mais importantes do país

Intelectual público, Antonio Candido não se omitiu das discussões mais importantes do país Antonio Candido em 1984 (Foto: Mary Lafer)

Atividade crítica jamais se separou da atividade militante de Candido; crítico morreu na madrugada desta sexta (12), em São Paulo, aos 98 anos

 

Morreu na madrugada desta sexta (12), aos 98 anos, o professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido. Um dos pensadores mais importantes do Brasil, Candido é autor de obras fundamentais como Formação da literatura brasileira (1959), Literatura e sociedade (1965) e O romantismo no Brasil (2002), além de artigos e ensaios publicados na imprensa.

Para Ana Paula Pacheco, professora do Departamento de Teoria Literária da USP, a morte do intelectual traz um “travo amargo”, “como se uma época inteira de horizontes otimistas tivesse terminado”.

“O professor foi um entusiasta da revolução de 1930, da possibilidade de derrota das oligarquias brasileiras e de integração do país, isto é, das populações historicamente espoliadas. Ele se faz ainda mais presente como figura exemplar neste momento de inacreditável avanço da barbárie social”, diz.

O poeta, crítico literário e professor na UnB, Alexandre Pilati afirma que o “humanismo radical” que se encontra na obra de Candido tem como base uma ideia de democracia que só se completa quando atacadas as diferenças culturais. Uma democracia de “luta e diversidade constantes”, segundo ele.

“Antonio Candido era um intelectual público, que não se omitia de participar das questões políticas mais difíceis do país, um homem que ficou por várias vezes do lado ‘mais fraco’ da história: esteve junto do MST, lutou ao lado dos trabalhadores do campo e da cidade e se manifestou até o fim da vida contra o impeachment”, diz Pilati.

Militante e assumidamente socialista, Antonio Candido integrou a Frente de Resistência contra a ditadura do Estado Novo, participou da fundação da União Democrática Socialista, em 1945, e do Partido dos Trabalhadores, em 1980. Assinou o Manifesto dos Intelectuais, em 1977, que pedia o fim da censura.

No ano passado, Candido se posicionou abertamente contra o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, afirmando que “o impedimento provavelmente só agravaria a dificílima situação política e econômica do país”.

“Candido definia a si próprio como um ‘radical de classe média’. Num país em que a classe média apoia ditaduras e não se lixa para os pobres, essa radicalidade é uma verdadeira traição de classe, além de ser um exemplo de autoconsciência”, afirma Pacheco, ressaltando que sua atividade crítica jamais se separou da atividade militante.

Prova disso são os rodapés que publicou nos jornais Folha de S.Paulo e Diário de S. Paulo entre 1943 e 1947, além de ensaios como “De cortiço a cortiço” (1973), em que se volta para o estudo de um dos primeiros romances a representar a acumulação primitiva do capital no Brasil, O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo. Enquanto a ditadura militar falava em “milagre econômico”, diz Pacheco, Candido chamava a atenção para a violência social presente no desenvolvimento econômico que se deu às custas dos trabalhadores.

Para Pilati, a obra do intelectual é “impressionantemente atual” e pode ser usada para falar de igualdade: “Quando perdemos um grande professor como Antonio Candido, ficamos tristes, claro, mas logo de cara sentimos que a nossa responsabilidade enquanto intelectuais e professores aumenta, porque neste momento precisamos estar à altura das lições que ele deu”, afirma. “Pessoas que estão no campo progressista têm uma carência de unidade e obras como a dele podem nos orientar na luta que temos a travar.”

Antonio Candido deixa três filhas, Laura de Mello e Souza, Ana Luisa Escorel e Marina de Mello e Souza. O corpo do intelectual será cremado neste sábado (13), em uma cerimônia apenas para familiares. Suas cinzas serão misturadas às da mulher, a filósofa e ensaísta Gilda de Mello e Souza Candido.

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