Annita Costa Malufe: na sala vazia o mundo vazio não entra

Annita Costa Malufe: na sala vazia o mundo vazio não entra
Pode-se ler o trabalho da autora como uma tomada de posição frente a um esgotamento da história

 

 Damos importância aos recibos de lavanderia desse ou daquele grande poeta. Se a política é, como creio, e como pode ser a poesia, um procedimento de verdade, então sacralizar os criadores políticos não é nem mais nem menos do que sacralizar os criadores artísticos. Talvez menos, no final de contas, pois a criação política é provavelmente mais rara, com certeza mais arriscada, e se dirige mais imediatamente a todos, em especial àqueles que o poder em geral considera inexistentes.
Alain Badiou

Por volta dos séculos 4 e 5, Tao Yuanming, chinês, dedica-se a escrever a partir de uma vida reclusa na aldeia de Tsai Sang, em Xunyang, no monte Lu. Este monte é uma espécie de lugar sagrado para quem cultiva o tao, um acordo silencioso entre o tempo e as coisas. Diz-se que Lu Shan é a capital dos habitantes do céu: eremitas e monges “empoleirados nas montanhas”. Manuel Afonso Costa, o tradutor português de Yuanming, lembra que Lu Shan – “a montanha das cabanas” – é cheia de cavernas, nascentes, cascatas, correntes de água, lagos e rochas. Depois, falésias e flancos íngremes com pinheiros em forma de dragão com suas copas voltadas para o abismo. Esta imagem do abismo é a mais visceral e selvagem do pensamento e da poesia de Yuanming e, muito por causa dela, remenda o gesto em linhas de força, pobreza e vinho: “viver retirado é que sou feliz”, “uma amizade sincera não se esgota”, “quando o coração se ausenta / até os lugares se afastam também”, “continuar inteiro mesmo na pobreza”, “se tens por aí um bom vinho, / não o recuses assim sem mais nem menos” ou “raros são os que estão vivos”.

Um apontamento que vem do traço politicamente forte do poeta chinês – romper o mundo, romper com o mundo – , até o pensamento de Annita Costa Malufe gira em torno, por exemplo, do quanto “estar vivo simplesmente já nos torna tristes e tontos” e de que “na sala vazia o mundo vazio não entra”. Annita não é, nem de longe, apenas uma poeta singular ou de seu tempo ou quaisquer outra anotação nessa direção, mas sim e muito mais, alguém que se coloca – ou seja, dispõe-se ao lado – e se lança com uma verticalidade, sem triunfo, num trabalho fracassado: escrever acompanhada. O livro que publica agora, Alguém que dorme na plateia vazia (editora 7Letras), é impressionante, desde a imagem que se amplia no título, e cumpre uma seriação de sentidos abertos que é, a todos os lados, a tarefa inespecífica daquilo que tem feito há alguns anos. Leia-se aí o livro publicado em 2008, por exemplo, Como se caísse devagar (PAC/editora 34), também desde o título, para perceber e tocar o quanto ela estica a linha da frase até um limite impossível: uma desnaturação da ideia de poema, nem terminar nem começar; nem negação nem não-negação, apenas uma perspectiva impensada de um negativo da e com a linguagem.

 

 

Trabalhos assim, como os de Annita,
que perseguem a impotência do
“pensamento pensante”, não cabem,
não comportam, nem se estabelecem
em círculos que existem ou que devem
/deveriam existir.

 

 

A opção por uma inexistência ou uma confrontação figurante em meio ao rodopio de mesmices concêntricas (estas, muito próprias do que se costuma chamar de “poesia contemporânea”, principalmente nos usos de um vocabulário sem diferimento e sem alteridade, logo, sem alteração, dicção simplória e identitária, ritmo repetido, enfadonho e autocentrado), aparece também no trabalho de Annita como se constituísse uma aprendizagem díspar no que traça como recolhimento, observação e expansão de um espaço até tocar a sua anterioridade, e nunca apenas interioridade ou, de mais longe ainda, uma intimidade. Há uma perversidade nos livros de Annita e, neste, isto avança como uma espada beduína, desértica e no deserto da linguagem, entre um ser humano que indomina e um animal que rumina. Nenhuma distinção, porque terrivelmente inteligente e arejada, entre ter e não ter cabeça, ter e não ter corpo, ser e não ser uma indivídua, mas sempre numa tentativa forte de dirigir-se até o ponto de um outro.

A escolha que ela faz passa pelas preparação e composição de uma paisagem lacerada que vem do mundo, sempre pleno, porém destroçado, até os extremos de uma ideia de lugar. E aí, tanto faz se casa, como partição arquitetônica doméstica, ou se, numa ausência de nome, essa ideia de lugar se comprime entre uma ontologia irrefreável: alguém, um sono e vazio. Ou seja, abismo. Assim, Annita escreve contornos, espectros, tanto faz se uma mãe ou um gato, não há entulho, seu trabalho é apenas com “a roupa do corpo”, porque perto de Charles Baudelaire ou de Charles Peguy, Samuel Beckett ou Christophe Tarkos, “tato áspero”, “oco do tempo”, “campo aberto entre as palavras”, “é a velocidade as imagens velozes”. Daí que tudo esteja muito pouco visível, nenhuma visualidade ou fixidez, e desesperadamente simultâneo: “o cavalo enorme de / patas de polvo o corpo / do homem fundido no / lombo e uma lança / feita de carvão e linhas / paralelas cortadas por / um triângulo preto um / instante em que suspensos / os corpos dançam e / esperam no ar e quase em / flutuação / não caem” e “a noção da distância era / a própria margem seca margem do / rio margem da boca seca margem / dos olhos do solo arenoso as peles / nem sentindo mais os dentes da mata / rasteira a terra feita de linhas / paralelas e a planície ampla / a visão que perdia o senso da metragem era / a própria beira a margem seca / do rio margem da boca seca” etc.

O impasse está no jogo com a filosofia, que nunca é disciplinar, e muito com a verdade, que é sempre um falseamento, por isso pode-se ler o trabalho de Annita Costa Malufe, agora mais do que nunca a partir desse livro recente, numa outra volta da vida, no meio do caminho, como uma tomada de posição decisiva frente a um esgotamento da história e na interfície, nos confins, da filosofia. Neste Alguém que dorme na plateia vazia está o trabalho impossível de uma filósofa da linguagem, entre amor e revolta, acontecimento e vazio, pontos de inexistência e, ao mesmo tempo, a pontualidade essencial do que está dentro do mundo e, principalmente, do que ainda pode/poderia preencher o mundo para desfazer o entulho daquilo que ele é. Quando o acontecimento, lembra Alain Badiou, é o que apreende o nada, dando-lhe a possibilidade de ser mais que nada. E isto, quem sabe, vá saber, quem saberia, pode ser ainda o poema, a poesia, esta, que nunca se escreve sozinha, mas em companhia: ao lado. Daí que a cada livro de Annita retome-se o encontro descabido e a companhia imaterial e impertinente desse desacordo suspeito e silencioso entre os tempos “cósmico e geológico” e a ilusão do movimento, algum lugar, algumas coisas. Um exercício errante da mão “que arrasta seu peso e / se desloca milímetro por / milímetro como se / mudando o eixo da terra”.

Manoel Ricardo de Lima é professor de literatura, UNIRIO. Publicou O método da exaustão (Garupa, 2020), Avião de alumínio (Quelônio, 2018, com Júlia Studart e Mayra Redin), Falas Inacabadas (Tomo, 2000, com Elida Tessler), entre outros. Organizou recentemente Uma pausa na luta (Mórula, 2020) com a participação de 70 poetas.


[não-ficção] 

Por Redação

Depois de uma configuração de certa estabilidade democrática nos países latino-americanos, na virada do milênio, o vínculo de confiança entre governantes e governados entrou em colapso em consequência das crises de legitimidade política e da economia neoliberal: a região continua sendo a mais desigual do mundo. Os sociólogos Calderón (boliviano) e Castells (espanhol) analisam a situação atual baseados em pesquisa empírica que conduziram durante uma década.

Os dois textos foram apresentados na forma de aula magna na Universidade Federal da Bahia, transmitida virtualmente em setembro de 2020, e editados ao lado da conversa que se seguiu entre os palestrantes. O objetivo foi mirar o futuro diante da urgência de “restituir o espaço da política como arena de disputas e conflitos legítimos que interessem a todas as pessoas”. A primeira edição foi lançada em novembro de 2020. A segunda, que sai agora, foi acrescida do texto “Maiorias minorizadas”, de Lilia Moritz Schwarcz.

O livro se baseia no depoimento da autora às comissões Nacional e Estadual da Verdade, destinadas a apurar os crimes da ditadura militar brasileira, e inspirado em sua tese de doutorado, publicada em livro sob o título de Guardiães de ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “Milagre”. Coimbra se apresenta como “filha de Oxum e Iansã, psicóloga, professora aposentada de psicologia da Universidade Federal Fluminense”, além de uma das fundadoras da Diretoria Colegiada do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.

Publicado em 1948, o estudo do filósofo estadunidense Stroud (1935-2019) é considerado um clássico da epistemologia contemporânea. Nele, o autor investiga o significado do ceticismo filosófico em diálogo com pensadores dos séculos 17 ao 20, como René Descartes, Immanuel Kant e G.E. Moore. O volume traz um guia de estudos elaborado por Plínio Junqueira Smith, coordenador do programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade São Judas Tadeu (SP).


[ficção]

Em seu segundo livro, o autor carioca entremeia experiências e memórias familiares em contos curtos e poéticos. Como o protagonista de uma das histórias relata, “nasci na magia de um ventre e, agora alojado na ossada do estômago de um boi, reflito a vida à beira da favela”. E é dessa ossada, que perpassa todas as narrativas, que os narradores vão afirmar a vida e resistência do corpo jovem negro periférico LGBTQI+. Como escreve Simone Ricco na apresentação, trata-se de um “ato estético-político de tomar posse da adversidade e, a partir dela, criar”.

Marcando a inédita empreitada de verter toda a obra do escritor renascentista para o português, o livro traz a íntegra das aventuras burlescas dos gigantes Gargântua e Pantagruel na França medieval. Como escreve o tradutor Guilherme Gontijo Flores, o objetivo foi tentar apreender todas as dimensões da linguagem carnavalizada de Rabelais, que navega entre formas eruditas, neologismos, trocadilhos e um vocabulário ágil e sujo das ruas. Para tornar o texto compreensível em todas essas dimensões, a “filologia precisa ceder lugar ao desbunde também tradutório”, escreve. Completam a edição introdução e notas introdutórias de Gontijo para cada capítulo, além de 120 ilustrações de Gustave Doré publicadas nas edições do século 19 da obra de Rabelais.

Considerado um dos pioneiros da literatura gay no país, o romance acompanha a relação turbulenta de Elvis, motoboy lésbica, e a travesti Madona. Ambientada em uma onírica e violenta Copacabana, a obra mistura o relato afetivo das personagens a uma trama policial, colocando-se ao “nível de mestres nacionais como Luiz Alfredo Garcia-Roza e Patrícia Melo”, nas palavras de Raphael Montes, que assina o posfácio. Lançado originalmente em 2010, o livro foi revisto e atualizado segundo novas terminologias e debates LGBTQIA+.

Marcando a estreia do escritor senegalês no Brasil, o romance aborda o genocídio dos tútsis pelos hútus em 1994 em Ruanda. À narrativa de Cornelius Uvimana – professor de história que vai a Ruanda para tentar entender o extermínio de sua família, de origem tútsi e hútu -, entremeiam-se histórias relacionadas aos fatídicos dias do genocídio. A escritora norte-americana Toni Morrison declarou que o livro é um “milagre” e “confirma minha convicção de que só a arte pode lidar com as consequências da destruição humana e traduzi-las em significado”.


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