As dinâmicas da adesão e da desafeição em política

As dinâmicas da adesão e da desafeição em política
(Adriano Machado/Reuters)

 

Meus amigos cientistas políticos passaram esta semana tentando detectar se houve avarias importantes no bolsonarismo depois da saída de Moro e de uma parte do lavajatismo da base de apoio social a Bolsonaro. Para os que esperavam constatar alguma espécie de debandada imediata, os resultados da pesquisa de opinião do Datafolha divulgada na segunda-feira, dia 27, não confirmaram as suas expectativas, pelo menos em um nível significante. Por volta de 1/3 (33%) dos brasileiros continua aprovando o governo; um pouco menos que isto (27%) aprova o comportamento de Bolsonaro durante a crise do novo coronavírus. 45% apoiam a abertura de um processo de impeachment contra o presidente, 48% não o apoiam. Ou seja, o tamanho registrado do bolsonarismo está estacionado entre 20 e 30% dos que respondem às enquetes. Não cresce, mas também não parece que esteja diminuindo, não importa o que aconteça do mundo.

Na verdade, não é bem assim. Eu trabalho com uma hipótese segundo a qual o vínculo político é criado por meio de um circuito de adesão e de um circuito, em sentido contrário, de desafeição, que em vez de ser binário é gradativo. Quero dizer que a relação de aproximação e distanciamento entre uma pessoa e um partido, ator político ou governo não é como um interruptor com duas possibilidades apenas, ligar ou desligar. 

A minha hipótese é que se trate de um gradiente e não de uma contraposição binária. O ciclo da adesão começa pela posição número 1, que é a curiosidade. Um candidato, um partido, um discurso me parece interessante e eu começo a prestar atenção. A posição número 2 é o interesse. Interesse não é uma forma de atenção cognitiva, mas já um grau de envolvimento entre a mensagem e aquele que a acompanha. Para muita gente, o interesse por Bolsonaro começou em 2016, depois que a vitória de Trump mostrou que um extremista podia ser eleito presidente de uma grande democracia. 

O passo seguinte é a adesão. Primeiro, na forma de adesão parcial, isto é, na assimilação da maior parte da mensagem emitida e na vinculação ao ator pessoal ou institucional que a emite. Você já tem preferência por alguém, mesmo que ainda não tenha decidido entrar no time. Nesta posição o sujeito é um bolsonarista light, por exemplo, que, por alguma razão, não comprou ainda o pacote inteiro, mas possivelmente prefere Bolsonaro a todos os outros. 

Em seguida vem a adesão integral, quando você assimila o candidato ou o partido. Literalmente assimilar quer dizer assumir como semelhante a você, vestir a camisa, engajar-se, comprometer-se, dedicar consideráveis esforços e sentimentos ao candidato ou ao partido. Quando a adesão integral perdura, dá-se o fenômeno psicológico da identificação. Você e o seu ator político não simplesmente compartilham ideias, valores e afetos; ele e você são um só. Você é Bolsonaro, é Lula, é Moro. A sua posição existencial se define em grande parte por este vínculo, a tal ponto que outros elementos da sua vida perdem importância em face da sua relação com o objeto de identificação. Você se define em relação a um ator político como alguns se definem, por exemplo, em relação a um time, a uma religião ou a uma etnia, que não são apenas mais uma dimensão da sua vida, mas a que você considera essencial. Aqui se completa o ciclo de adesão política, mas também religiosa, nacionalista etc. 

Mas há também o ciclo com vetor inverso, o circuito da desafeição, isto é, do distanciamento intelectual, moral e psicológico. Cujo primeiro passo consiste em um procedimento de saída, de descontentamento, numa espécie de desafeição parcial. Frustrações levam ao aumento de estados ou sentimentos de insatisfação com o ator político, o movimento ou o partido, mas podem não levar imediatamente a uma ruptura, nem transformar amor em ódio. Por outro lado, enfraquecem os afetos positivos (amor, encantamento) e aumentam os negativos (decepção, frustração). Entretanto, ainda há vínculos suficientemente fortes entre a pessoa e o sujeito a quem aderia para que a relação seja repensada e se torne mais distante e crítica, mas ainda se pode preferi-lo a todos os outros concorrentes.

A fase seguinte, mais radical é o distanciamento relutante. É o momento de uma espécie de revelação negativa, em que a pessoa considera que perdeu a cegueira e começou a ver as rachaduras do ídolo. A pessoa aqui se encontra em uma posição intermediária para o passo em seguida e definitivo que é a ruptura. Que pode ser pacífica e bem resolvida, com a pessoa encontrando um outro caminho para reconstruir as suas esperanças políticas ou simplesmente abandonando a arena da política e perdendo o interesse por ela. Ou pode trazer consigo o rancor do ressentimento e alimentar o ódio pelo ex-amor, como bem se conhece dos boleros e da história recente do antipetismo, por exemplo, cujos exemplares mais cruéis e persistentes foram fornecidos pelos ex-petistas. 

Pois bem, para quem adota uma perspectiva binária, ou os moristas rompem com o bolsonarismo, com quem estão em uma relação simbiótica desde 2016, ou então nenhuma mudança ocorreu na base popular de Bolsonaro. Pois eu acho que não. Muitos moristas, de fato, professaram dramaticamente a sua desafeição e ruptura, ali mesmo no calor da hora, depois de ouvir o pronunciamento de Sergio Moro. Mas muitos outros estão ainda se movendo pelas várias fases do ciclo da desafeição. Alguns se deslocaram para a fase da adesão parcial a Bolsonaro, outros deslizaram para um distanciamento relutante já em rota de saída, mas ainda cultivando liames afetivos e compartilhando crenças da antiga posição, mesmo que praticamente prontos para a ruptura, a depender das circunstâncias. E as circunstâncias podem ser a continuação dos choques entre Moro e Bolsonaro, os escândalos políticos em sentido anti-lavajatista dos atos e ditos do presidente e dos seus filhos, o aumento do antibolsonarismo nos ambientes sociais, dentre outras coisas. O fato de a saída de Moro não ter produzido um estrago detectável de maior grandeza na base de Bolsonaro não significa que um vírus de incerteza, de desconfiança e desafeição não tenha sido inoculado no sistema linfático do bolsonarismo. Pronto para liquidá-lo a qualquer baixa no seu sistema imunológico. Já vimos esta história com o antipetismo, não seria surpresa vê-la repetir-se. 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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