A vida mentirosa de Giovanna

A vida mentirosa de Giovanna
Representação da Beatriz, de "A divina comédia", por Salvatore Postiglione (Foto: Reprodução)

 

Giovanna é uma garota de doze anos que mora na parte alta e mais abastada da cidade de Nápoles, no sul da Itália. Filha de dois professores de classe média, desde muito cedo ela tem acesso aos livros, à boa educação, a discussões sobre sociedade e marxismo, entre outros debates do grupo de intelectuais do qual seu pai faz parte e que frequentam a sua casa. É em meio a esse ambiente cultural efervescente, e também cercada de afeto, que ela está prestes a completar treze anos. O que ela não sabe é que a realidade que conhece está prestes a ser rompida, assim como, na adolescência, a mulher irrompe na menina.

Essa é a premissa de A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante, lançado no Brasil pela editora Intrínseca, com tradução de Marcello Lino. Publicado no fim do ano passado na Itália, o romance foi aguardado com muita expectativa e, mal havia saído, a Netflix já anunciou a compra dos direitos para adaptação. É o primeiro livro da autora desde a celebrada tetralogia napolitana — composta pelos volumes A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida —, fenômeno de recepção mundial.

A obra foi adaptada para o teatro e para a televisão (a série My brilliant friend). Em português, também estão disponíveis os seus três primeiros romances — Um amor incômodo, Dias de abandono e A filha perdida —, bem como o livro infantil Uma noite na praia e a antologia Frantumaglia, os caminhos de uma escritora  (entrevistas, ensaios e outros textos).

Tanto na tetralogia quanto nos romances anteriores, as narradoras de Ferrante são mulheres que, com esforço, constroem um caminho de ascensão social. Essa é a primeira vez, nesse aspecto, que temos uma protagonista que se distingue das demais. Ainda assim, Giovana guarda algumas semelhanças importantes com as outras personagens. A mais notável é a da perspectiva: a voz que narra A vida mentirosa dos adultos em muito se aproxima a dos demais livros, assim como os principais eixos temáticos continuam presentes na obra.

Essa consonância reforçaria a coesão do projeto literário da autora, que encontra em cada enredo novas formas de elaborar as mesmas tensões principais. Mas, nesse romance, também encontramos elementos novos, ou que ressurgem sob uma nova luz e com novos contornos, como a sexualidade e a religião.

Quando Giovanna rememora esse período de sua vida, inferimos que tem cerca de quarenta anos (em determinado momento, ela diz que é nascida em 1979 e, como o livro foi publicado em 2019, a estimativa considera essas informações) e passa a narrar as experiências vividas entre os doze e os dezesseis anos. A vida mentirosa dos adultos é, portanto, um romance de formação: acompanhamos a jornada da narradora rumo à vida adulta.

Mas, ao contrário de romances de formação tradicionais — como Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, considerado a pedra angular do gênero —, o percurso da protagonista não se dá em torno de uma jornada de ascensão de classe.

 

É na descida que Giovanna tenta
compreender melhor a sua família,
os seus pais, a si mesma e o mundo
em que vive: “Eu só tinha uma
certeza: para ir até eles, era necessário
descer, descer, descer cada vez mais,
até a mais funda das profundezas de
Nápoles, e a viagem era tão longa que
eu achava, naquelas ocasiões, que nós
e os parentes do meu pai morávamos
em duas cidades diferentes”.

 

 

O processo tem início quando ela passa por dificuldades na escola e escuta uma conversa dos pais, Andrea e Nella, em que ele, sempre amoroso e bem disposto com a filha, compara a menina com a tia Vittoria, irmã com quem rompeu há anos. De temperamento difícil, Vittoria vive em um bairro localizado na Zona Industrial de Nápoles. Nem se casou, nem tem filhos, e, na versão do irmão, surge como uma figura quase mítica de tão odiosa: “Foi assim que, aos doze anos, soube pela voz do meu pai, sufocada pelo esforço de mantê-la baixa, que eu estava ficando igual à sua irmã, uma mulher na qual — eu o ouvira dizer desde sempre — feiura e maldade coincidiam perfeitamente”. O pai escapou do bairro e da vida pobre através da educação, enquanto a tia não apenas permaneceu como passou a personificar o lugar.

Magoadíssima com a conversa entreouvida, Giovanna se torna obcecada pela tia e pelo temor de se parecer com ela. Começa revirando fotografias antigas, termina frequentando sua casa. Os pais aceitam, ainda que a contragosto, o contato da menina com Vittoria. Os encontros rendem relatos cativantes e exagerados para suas melhores amigas, as irmãs Angela e Ida. Acostumadas a uma vida protegida e abonada, as meninas ficam fascinadas com a figura sombria, pobre e rancorosa da tia, que também é tão poderosa e surge nos relatos da menina como uma espécie de bruxa.

Vittoria também compartilha características emblemáticas com outras personagens de Ferrante. Enquanto os pais da narradora e os pais de suas amigas são retratados como pessoas muito civilizadas, Vittoria é violenta nas palavras e nos modos, vai se impondo sobre as pessoas com quem convive e estrilando por onde passa. Mas, conforme a sobrinha a observa de perto, também encontra uma mulher frágil. Instigada pela desconfiança da tia, a protagonista passa a observar também os pais sob uma nova lente, descobrindo outras fraquezas e contradições.

O título do romance, A vida mentirosa dos adultos, é provocativo como os demais títulos da autora, pois se é verdade que os adultos mentem, também a menina, em sua adolescência, passa a encadear uma série de mentiras. O aprendizado de Giovanna parece ser também uma iniciação no rito da mentira, talvez até mesmo da ficção. Quem sabe tenha sido através dessas lições que agora, na idade adulta, ela se proponha a narrar a própria história, anunciando desde o início que há uma verdade impossível de se resgatar: “na verdade, não sou nada, nada de meu, nada que tenha de fato começado ou se concretizado: só um emaranhado que ninguém, nem mesmo quem neste momento escreve, sabe se contém o fio certo de uma história ou se é apenas uma dor embaralhada, sem redenção”.

Fabiane Secches é psicanalista e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

A vida mentirosa dos adultos, Elena Ferrante, Intrínseca, 432, R$ 59,90


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