A falta que um olhar faz

A falta que um olhar faz
(Arte Revista CULT)

 

Por Beatriz Barreto Santos

Para buscar empatia em um sistema como o nosso – predominantemente individualista -, é preciso compreender como enxergamos o nosso entorno nos dias de hoje. Entre as variadas definições de empatia, temos que esta é a “capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela”. Sendo assim, podemos dizer que a grande representação contemporânea desse conceito é nossa relação íntima com os smartphones. Não existe desastre ambiental, opressão de minoria ou discurso do papa que atice tanto nossa atenção quanto a tela de um celular.

Os olhos vidrados já ocupam os mais diversos ambientes. Nos jantares românticos sempre rola uma intensa troca de olhares entre o casal e seus respectivos telefones. Em amigáveis encontros, o copo de cerveja acaba ficando de lado, pois nossas mãos frenéticas se ocupam com o touch-screen na mesa do bar. Até mesmo no cinema, a tela em foco já não é a mesma. Essas cenas se repetem com mais frequência e intensidade, se sobressaindo aos diálogos, aos toques e aos sorrisos, que compõem as relações.

Como criar empatia nesse cenário em que não percebemos uns aos outros? Enxergamos o mundo, as pessoas e os ocorridos através da luz do celular. Selecionamos quem queremos ver, seguimos apenas o que nos interessa e nossos comentários se restringem ao ofertado pelas redes sociais. Esse conhecimento raso sobre sentimentos e emoções restringe nossa empatia a situações igualmente rasas e fatalmente ocas. Tanto o exercício de praticar quanto o de receber são afetados nessa logística.

O isolamento digital é uma barreira para a percepção; progressivamente o “se colocar no lugar do outro” é substituído por “curtidas” e retweets. Ao imergirmos no mundo da internet, ficamos offline do convívio, essencial para o desenvolvimento da empatia. É com ele que aprendemos que olhares, trejeitos, tons de voz e tato são a luz dos sentimentos. Se não soubermos interpretá-los, jamais poderemos exercer nossa empatia.

O primeiro passo para compreender o outro é percebê-lo. Empatia nos dias de hoje é deixar o telefone um pouco de lado e prestar atenção nos que te cercam. É escutar o que não quer ouvir, enxergar o que nem todos veem e ter no tato a percepção do entorno. Só assim podemos aprender sobre empatia, sobre em que realmente podemos ser úteis para aqueles que precisam. No fim, o que a gente precisa hoje em dia é mais “olho no olho” e menos “olho na tela”.

Beatriz Barreto Santos, 23, aracajuana, estudante da Universidade Federal de Sergipe

 

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