A evolução da literatura brasileira
Edição do mês
A romancista Paulliny Tort, autora de Os imortais (Renato Parada/Fósforo/Divulgação)
O que entregamos ao entregar um livro escrito é o mistério do próprio livro. Nenhum autor sabe desvendar toda a sua criação. Lispector, por exemplo, nos deixou espectros de si. Machado, um grande enigma póstumo. Carolina, uma perpétua questão.
Fiquei batendo com a cabeça assim, sobre isso, quando dei por lido Os imortais, segundo romance de Paulliny Tort (Fósforo, 2026). Ave nossa! Quanta pré-história carrega essa história? Saberá a autora de qual fim de começo de mundo foi buscar os vestígios de pura (e dura) linguagem? De qual civilização, dentro de sua imaginação, trouxe de volta javalis e tacapes e pedras argilosas? Não importam as respostas.
Uu, uu!
O fato é que vibrei quando fui entrando no livro. E saí vibrando depois que terminei. Sei, aliás, de muita gente que tem reverberado a obra por aí. Minha amiga pernambucana Katiane me ligou, espantada. Em Lisboa, recentemente, pobres mortais (eu incluído) paramos para comentar e exclamar, sonoros.
Uau, uau!
Quem me acompanha sabe de minha paixão por temáticas sobre sabedoria ancestral: desde as múmias encontradas na capa de meu livro de contos BaléRalé, passando pelo funéreo Nossos ossos. Digo sempre que qualquer texto escrito (inscrito) pela “humanidade” (capturei essa palavra de propósito) é de natureza arqueológica. Escrevemos para restaurar palavras. Para fazer soprar, outra vez, ventos primitivos. Paulliny mexe em fogo muito antigo. E, com isso, aquece ferozmente a literatura brasileira contemporânea. Ferocidade é o que alicerça o tipo de criação literária que mais me instiga e me interessa.
Aproximando-se dos mundos sapiens e neandertal, e colada osso a osso com o corpo de nossos antepassados e de nossas antepassadas (desde a antiguidade – este livro nos prova – mulheres estão à frente das batalhas físicas e psicológicas), Paulliny inova, arrisca, escapa das armadilhas do clichê, do lugar-comum. Quais verbos usar, por exemplo, quando a narrativa se passa no tempo das cavernas? Qual som têm as frases? Quais sombras carregam os adjetivos? Como respirar entre os parágrafos e as paisagens? Em que chão baterá o coração desértico da linguagem?
Costumo dizer que a técnica usada para o ato de escrever é a “técnica da sobrevivência”. A escritora soube enfrentar, e muito bem, os desafios lançados pelo livro. O mundo ficcional de Os imortais é dividido em blocos, cujo primeiro capítulo, intitulado “mu” (sucedido por outros títulos minúsculos e monossilábicos, ao que parece formando uma frase, ao final, em latim “rupestre” – de propósito denominei assim), se abre com um grupo de hominídeos migrando, famintos, muito cansados, sob um “céu pálido, os galhos das árvores apontando para o alto lembram mãos escuras, queimadas”. Um borrão de gente, ascendente, a meu ver, de Fabiano e Sinhá Vitória e seus dois meninos miúdos e magriços em Vidas secas (obra soerguida por Graciliano Ramos no longínquo 1938). Uma paisagem igual e sempiternamente apocalíptica. Geografia calejada com obsessão (a literatura é luta obsessiva) por quem, antes, deu vida aos contos matadores de Erva brava (obra também publicada pela Fósforo, em 2021).
Paulliny é agora uma autora em plena madureza, manipulando à unha uma estrutura hiperbólica, epopeica. Criadoura de tinhosos grunhidos para nos dizer de uma guerra entre clãs na era paleolítica. Não tem como não pensarmos nos conflitos de nosso tempo ao acompanharmos uma Velha, um Homem, uma Mulher e uma Criança (inimiga) surgida entre eles, batalhando para sobreviver a perseguições e massacres. E, em algum momento, lutando contra o próprio pensamento (razão intuitiva) que se quer coletivo em vez de ofensivo, amoroso (nenhum coração é totalmente de pedra) em vez de odioso, preservador em vez de franco atirador de bolotas de bosta.
Os imortais chega, de fato, para sacudir as estruturas de nossa modernosa literatura, muitas vezes viciada em uma linguagem mole e preguiçosa. Foi preciso buscar outros recursos para “ferir” a própria prosa. Fez-se necessário cavar uma embocadura afiada, cheia de caninos, dos humanos personagens. Vitoriosa é a missão de ir às bordas da Pedra Lascada para nos dar a ver traços como “os sobrecenhos crispados” em vez de expressões feito “franzir o cenho”, ora. Outrora distante, não há sobrancelhas levantadas. Tudo lá no abismo primevo eram só pelos, penugens, corpos escalavrados de botar medo.
Sim, é possível que neste livro monumental, aqui e ali, entre mastodontes e seixos, apareçam um “coração acelerado”, um “menear a cabeça”, um quase leve “bocejo”. Nada que a poética defendida por Paulliny Tort não enterre de vez essa minha mania, há milênios grosseira, que se chateia com tudo o que não é matéria-prima sanguinária. Paulliny, creio, acaba de escrever um clássico que mata a pauladas um modelo de sapiência elitista e ultrapassada.
Os imortais, longe das academias de letras (ironia minha, de propósito), é profundamente original. Celebremos o tamanho a que chegou a nossa literatura nacional. Avancemos em bando. Não ouvem, por sinal, o povo vibrando?
Uu, uu!
Uau, uau!
MARCELINO FREIRE escreveu, entre outros livros, Escalavra. Publicada pela Amarcord, a obra foi uma das cinco finalistas do Prêmio Jabuti 2025 e um dos livros vencedores do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional




