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O arauto da desmaterialização
 
Contra as instituições historicamente mediadoras entre artista e público,
Fred Forest apresenta sua Bienal do Ano 3000 no MAC e na internet
Fotografia: Rodrigo Manzano
 
Enquanto as massas, os jornais e o público se mobilizam em torno da 27ª Bienal, um solitário artista brada contra o mercado da arte, a curadoria e os espaços museológicos, entidades arcaicas segundo Fred Forest

Rodrigo Manzano

Ele foi convocado em 1973 a dar explicações sobre uma inusitada passeata no centro de São Paulo. Munidos de cartazes em branco, manifestantes invadiram as ruas da capital e seu líder, convidado a depor no extinto DOPS. Ganhou o Prêmio Comunicação da 12ª Bienal de São Paulo. Hoje, Fred Forest aparenta ser um homem só. Dependendo do posicionamento de quem o observa, ele parece uma espécie de pregador de uma seita estranha.
- Parlez-vous Français?, pergunta, ao abordar jornalistas e público da 27ª Bienal de São Paulo.
Tal qual um arauto do apocalipse, Forest travou uma guerrilha inusitada: com sua arte e sua fala, convencer que a Bienal é uma instituição arcaica. Seu evangelho tem uma só página, uma carta-release-manifesto convidando a expor na Bienal do Ano 3000. Se o convite parece inusitado - ainda faltam então 994 anos para a referida Bienal - o evangelho de uma página só explica: "uma Bienal que se diferencia da Bienal oficial na medida em que se trata de uma bienal numérica, planetária, participativa, uma bienal sem seleção e, por conseqüência, verdadeiramente democrática! Faça sua escolha: uma bienal do passado ou uma bienal do futuro?".
 

"A arte não deve ser um espetáculo,
deve existir para refletir"
Fred Forest
 
Dois dias depois, encontro-me com Fred Forest no Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, metros acima do prédio da Fundação, onde se realiza e acabava de abrir as portas a 27ª Bienal. Abaixo, a mega-estrutura do ruidoso evento que custou R$ 16,5 milhões, reuniu 118 artistas e pretende receber um milhão de visitantes, batendo a marca da última edição. Acima, depois de uma rampa de alguns lances, o silencioso MAC recebe um público quase inexistente que se depara com Fred Forest na porta - como um recepcionista do ano 3000 - ladeado por sua obra: um buraco na parede de onde se vêem imagens exibidas em um monitor de computador. Evocando Lyotard, Forest vai logo explicando que se trata da "desmaterialização" da arte, falando de pixels como uma novidade de ontem e sob a experiência de quem vem trabalhando com tecnologia desde os anos 70. A idéia de Fred Forest é simples: um servidor na internet e um sistema de publicação de imagens, textos e vídeos aberto a quem quiser colaborar na sua Bienal do Ano 3000. Esboçando um olhar que aponta para baixo - onde acontece a Bienal - traça um risco desdenhoso àquilo que se passa abaixo de seus pés.
- A arte não deve ser um espetáculo, deve existir para refletir. É importante fazer algo mais minimalista para que se alcance uma amplitude maior, afirma, olhando para o buraco de 10 cm de circunferência.
Daquele orifício, é possível contemplar imagens que se alternam em cerca de 10 segundos, mosaicos, fotografias, pictogramas e reproduções de obras e esculturas. À mão, lê-se o texto em vermelho, escrito às pressas na parede branca,
www.biennale3000saopaulo.org . É nesse endereço o espaço museológico - se é que a palavra nos serve - de Fred Forest e de sua Bienal alternativa.
- A 27ª Bienal é fechada e elitista. Os curadores dependem do mercado e dos colecionadores, critica Forest, citando seus conterrâneos franceses selecionados para a mostra oficial, que, segundo ele, são artistas que já pertencem ao mercado.
A questão fundamental a que Forest nos obriga a pensar, quando em contato com suas idéias é, minimamente, qual é a função da arte e de que maneira a Indústria Cultural capitalizou a produção, seja da própria arte, seja da crítica especializada. Chamados por ele de "empregados do mercado", o tom irônico - que Forest não esconde, porque sorri maliciosamente quando o utiliza - lembra um pouco a fala de Heloísa Helena, com as devidas ressalvas. Inclusive porque seu discurso (e o discurso de sua obra) pode ser até mesmo acusado de ressentimento, por alguma razão que ainda é desconhecida. É preciso perguntar:
- O senhor não teme que essa abordagem possa ser interpretada, por exemplo, como uma ponta de ressentimento ou de frustração?
- Quem pensa isso, responde Forest, não entendeu o trabalho. Eu me recuso a entrar no mercado. Os artistas que vivem exclusivamente da arte, dependem desse mercado e, para ser independente, o artista precisa ter outra função. Fred Forest é professor do Departamento de Arte, Linguagens e Comunicação da Universidade de Nice, na França.
Desde o surgimento da internet, vem se ocupando de pensar na web-art como forma de democratizar não só apenas o acesso a arte por parte daqueles que não podem ou não se interessam pelos museus, como também na internet como via de democratização do acesso à produção de arte. Evidência disso é que qualquer um - qualquer um mesmo, acentua Forest - pode incluir em seu currículo a participação na Bienal do Ano 3000.
- A arte precisa descobrir a web, afirma Forest. Usam bem a internet apenas os bancos, os militares e o comércio, alerta.
Fred Forest não poupa Lisete Lagnado, a curadora da 27ª Bienal de São Paulo.
- Lisete está 30 anos atrasada. Na próxima Bienal vou fazer uma exposição de críticos de arte. Talvez ela seja selecionada.
Então Forest avisa que na terça-feira (dia 10) volta à Paris. Como arauto da desmaterialização da arte, já cumpriu seu papel nessa Bienal. Como artista, a Bienal do Ano 3000 não precisa de sua presença.
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Bienal do Ano 3000
Fred Forest
MAC-USP - Ibirapuera (SP)
www.biennale3000saopaulo.org
 

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COMENTÁRIOS (2) ENVIE SEU COMENTÁRIO
23/11/2006 18:00:37   Nao considero essa atitude (bienal 3000) de ruptur Otavio Monteiro
16/11/2006 19:19:09   Prezados leitores, não consegui captar nada de Prof. Dr. Sílvio Medeiros
 
 

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