Diálogos com a literatura
Por Daniel Marques
Avesso a feiras de livros, o escritor Milton Hatoum se prepara para discutir sua produção literária longe desses lugares barulhentos que prezam apenas o sentido mercadológico da arte de publicar livros. A partir desta sexta, a charmosa cidade de São Francisco Xavier abriga o escritor amazonense, além de outros grandes nomes do circuito, como Fernando Morais, Nelson Motta e Moacyr Scliar, para a primeira edição do Festival da Mantiqueira.
Sucesso de público, o autor de descendência libanesa aceitou o convite feito pela direção do festival de propor novos diálogos com a literatura. Para ele, a tendência de se politizar acontecimentos como esse tira o brilho de outros assuntos tão pertinentes em seus romances. De acordo com o amazonense radicado em São Paulo, problemas sociais da região do Amazonas são preteridos em razão da questão ecológica.
Em entrevista concedida o site da
Revista Cult, o escritor com dois Prêmios Jabuti no currículo pelos livros
Dois irmãos e
Relato de um certo Oriente explica por que abandonou a Bienal, porque considera sua herança árabe um fator determinante para entender melhor o Brasil e como reviveu o mito do Eldorado em seu último romance, intitulado
Órfãos do Eldorado.
Cult - Qual é o papel desses festivais de literatura?
Milton Hatoum: Acredito que tudo que se fizer pela literatura é válido nesse país que ainda lê pouco. É um evento menos grandioso que a FLIP, mas a pretensão é ser mais intimista. Eu acho a iniciativa muito boa. Estamos acostumados a feiras de livro e o que acontece? Feiras como a Bienal deixam a discussão sobre literatura muito rala, parece que o ambiente é um pouco difuso, sempre utilizadas com uma função mercadológica. Por isso que eu não participo desses acontecimentos desde 2001. Sempre tem muita gente e muito barulho. A literatura não convive bem com isso.
Cult - Alguns de seus romances como
Cinzas do Norte e
Dois Irmãos foram analisados como obras políticas. Você se considera um escritor político?
Milton Hatoum: Não. Mas, não há literatura sem política. Sempre tem histórias: alguns jornalistas criticaram as últimas edições da FLIP por considerarem que ela é essencialmente política e isso é besteira. Leia qualquer livro e sempre haverá uma crítica sobre poder e opressão. As pessoas entendem a política de forma muito limitada. Existe política até mesmo em uma briga conjugal, pois é uma batalha em busca do poder. Como dizia Drummond: "não são dois amantes, são dois inimigos". Por isso, acho que existe política em tudo. Não escondo minhas convicções e também não tenho nenhuma tendência ao cinismo e à alienação.
Cult - A
proposta do Festival da Mantiqueira é "dialogar com a literatura". Além da política, a literatura permite quais diálogos?
Milton Hatoum: A linguagem, o estilo, o fazer literário, a dimensão simbólica de alguns assuntos. Essas são as múltiplas leituras que o leitor encontra em uma obra. O romance, como é um gênero tão aberto, dá espaço essa multiplicidade. Já vi tantos ensaios e teses de análises diferentes sobre
Dois irmãos. Há estudos sobre a dimensão bíblica da história dos dois irmãos, estudos comparativos com o livro
Esaú e Jacó, do Machado de Assis, existe também a perspectiva histórica e política do livro. Eu gostaria que todos esses tópicos pudessem surgir em uma discussão sobre literatura.
Cult - Alguma vez você percebeu que alguma análise fugiu do tema ou você não faz esse tipo de distinção?
Milton Hatoum: Não. Senti algumas vezes que eu realmente não sabia sobre o que eu estava escrevendo, porque existem muitas interpretações psicanalíticas sobre meus livros. Já fiquei muito surpreso com algumas análises e acho que tem muita loucura nos dois lados: o meu lado de escritor e o lado de quem lê a obra. Isso é importante na literatura: não ler o livro de uma única maneira, pois sempre há disparidades. Tanto melhor será o livro se houver diferentes leituras sobre ele. Por exemplo, um livro de auto-ajuda não gera nenhuma discussão. Ele está pronto para você viver melhor.
Cult - Você sente um crescimento do público leitor no Brasil ou ele caminha para o lado errado, como, por exemplo, o da auto-ajuda?
Milton Hatoum: Na quantidade há qualidade. Eu acho que existe um crescimento sim e isso acontece primeiro em setores que são considerados de leitura mais fácil, como a auto-ajuda e os best-sellers. Isso não é só no Brasil, mas sim em todos os lugares do mundo. Eu não posso mais reclamar que as pessoas não lêem por causa do sucesso de
Dois irmãos.
Cult - Você acredita que a cultura do Norte, especificamente a de Manaus, ainda é pouco difundida?
Milton Hatoum: Eu acho que o Brasil desconhece o Brasil. Se você perguntar para uma amazonense sobre a história do Rio Grande do Sul ele também não vai saber, mas eu aprendi muita coisa desse estado lendo Érico Veríssimo. Eu acho que a Amazônia é muito comentada, mas ela é pouco estudada: é uma região que ainda é um mito, um mito que está sendo destruído. Aliás, esse é um dos assuntos do meu último livro,
Órfãos do Eldorado. Esse mito será destruído antes de muita gente ter a chance de conhecê-lo. Eu acho que as pessoas não conhecem porque não querem.
Cult - Muito se fala sobre a Amazônia como um símbolo de diversidade biológica, mas também existe a parte urbana dessa região que é pouco discutida.
Milton Hatoum: A minha Amazônia é urbana. Sou filho da cidade, não sou filho do rio ou da floresta. Para ser sincero, para mim é mais dramática a miséria de Manaus e de Belém do que as histórias sobre a destruição da Amazônia, pois é o ser humano que está sendo destruído.
Cult - Esse mito do Eldorado é uma constante na literatura. Como você dirigiu seu olhar para retomar esse mito e situá-lo nesse contexto urbano de Manaus.
Milton Hatoum: Esse livro já tinha sido vendido para 16 países antes de ser publicado no Brasil, mas eu não queria fazer um livro para um chinês ler ou para um escocês ler como se fosse algo exótico. O mito do Eldorado é universal, porque é próprio do mito ser viajante. Como Edward Said dizia: "não existem culturas cristalizadas, elas sempre serão vasos comunicantes".
Cult - A sua descendência libanesa, nesse sentido, lhe dá um olhar de estrangeiro. Essa questão é essencial para o seu trabalho?
Milton Hatoum: Eu acho que eu consegui entender melhor o Brasil. Eu consegui aprender bastante sobre a cultura árabe, também aprendi a falar francês na minha infância, e isso tudo isso foi importante para a minha vida cultural. A herança da imigração enriquece o olhar do ser humano. Os nordestinos, por exemplo, enriquecem espiritualmente a cidade de São Paulo. Esse olhar diferenciado sobre a cultura do outro define o que é a literatura.
Cult - Você acha difícil traduzir os seus romances em função desse olhar próprio que você possui?
Milton Hatoum: Eu gosto muito das traduções. Saiu agora uma tradução francesa para o livro
Cinzas do Norte e eu achei o trabalho poderoso. Acho que nada irá se comparar à dificuldade de se traduzir um livro do Guimarães Rosa, pois ele reinventou a linguagem e seus livros são de uma complexidade muito grande. Quando hoje se fala em vanguarda, em inovação, tudo parece uma piada. Inovação depois de Rosa... Vamos com calma para não sermos patéticos.
Cult - Você já comentou em outras entrevistas que o sucesso já havia lhe deixado deslumbrado e que isso era patético. Como você lida com o sucesso hoje?
Milton Hatoum: Quando disse isso me referia ao meu primeiro livro
Relato de um certo Oriente, que foi logo traduzido para várias línguas e ganhou o Prêmio Jabuti. Eu confesso que fiquei bastante deslumbrado na época. As viagens, as entrevistas, artigos no Le Monde... Depois (e não demorou muito não) eu vi que isso não vale nada, não presta para nada. Hoje eu acho que com a maturidade você dá mais importância ao orgulho do que à vaidade. Enfim, o melhor mesmo é o leitor, pois é ele quem justifica a boa literatura.
Cult - Qual é o seu próximo projeto?
Milton Hatoum: Eu estou reunindo e reescrevendo alguns contos que eu já havia publicado no Brasil e em alguns outros países. Eu quero juntar isso e publicar. Alguns se passam em Paris, outro se passa em Manaus, um outro na Califórnia... São minhas viagens (risos).
Cult - Como você trabalha? Você prefere se desligar do mundo, fugir de São Paulo...
Milton Hatoum: Não, agora eu sou um pouco mais disciplinado. Sento no meu canto, trabalho algumas horas... Existem várias maneiras de você se dispersar e geralmente você atribui essa falta de disciplina a alguém. A minha única falha é que eu sou lento, isso é minha essência e esse é o meu modo de ser.
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