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Enquadro
       
Uma cena de São Paulo no traço de David Lloyd, que veio ao Brasil lançar livro da
coleção Cidades Ilustradas, da editora Casa 21  
   
Por Filipe Luna
  
Acostumado a colocar em quadrinhos ilustrações de paisagens imaginárias, o inglês David Lloyd ficou intrigado quando o chamaram para retratar a capital paulista para a coleção Cidades Ilustradas, da editora Casa 21. Tudo bem que São Paulo é peculiar e excêntrica como um personagem de ficção, mas, para o anglo-saxão de 57 anos, responsável por dar forma ao revolucionário de V de Vingança, interpretar uma cidade latina tão múltipla era um desafio digno de um balão de pensamento. Que logo se transformou em ação no fim de 2006, quando veio passar duas semanas batendo perna pelas quatro zonas da metrópole. Isso sem saber onde fica o Borba Gato ou para onde aponta a Avenida Paulista. "Não quis me preparar, queria chegar aqui e deixar as coisas me atingirem, para ter um registro instantâneo como o de uma câmera", explica. De passagem pelo Brasil para lançar o livro em que enquadrou São Paulo - e aproveitando para começar a divulgar sua nova graphic novel, Kickback (a ser lançada pela editora Conrad, em 2008), com roteiro e ilustrações dele mesmo -, David dividiu com a CULT, entre um chocolate quente e outro no restaurante do hotel em que estava hospedado, suas impressões sobre a cidade que nunca pára - a não ser quando há congestionamento na 23 de Maio.
    
Cult - Como São Paulo te atingiu?
David Lloyd - Acho que é uma cidade bem verde e cinza. Como em outras cidades, tem aqueles blocos de cimento, mas, como é parte desse continente, da América do Sul, tem um mundo natural invadindo-a. É completamente diferente de qualquer cidade do hemisfério norte, como Nova York ou Londres. Elas são bem mais cinzas que São Paulo. E quando mencionava isso, todo mundo olhava para mim espantado e dizia: "Mas você acha mesmo que é verde?" [risos]. Acredite, se você observar outras cidades, esse lugar tem muito mais natureza circulando e a penetrando. E isso faz dela muito especial.
    
Cult - Existe algo que caracterize São Paulo, como existe em metrópoles como Londres, Paris ou Nova York?
D.L. - É verdade, acho que não existe nenhuma imagem que seja um cartão-postal para reconhecê-la imediatamente. Talvez, se você conseguisse colocar num postal as favelas e os arranha-céus juntos, poderia funcionar de um ponto de vista simbólico. Não que alguém queira comprar um cartão desses [risos]. Acho que São Paulo foi se construindo a partir de outras cidades, ela quer ser como esses outros lugares. É extraordinária a história da construção do edifício [do antigo] Banespa, que é uma cópia do Empire State. Quando se iniciou, a intenção não era que ficasse daquele jeito. No meio da construção foi que o responsável disse: "Ah, já sei, porque não fazemos igual ao Empire State Building?" [risos]. Acho que São Paulo tem uma grande necessidade de impressionar o mundo com suas façanhas - tipo, "a gente também consegue fazer isso aqui", sabe? É ótimo, ela tem orgulho de si mesma nesse sentido, mas adoraria que cuidasse mais dos seus problemas, especialmente com os pobres, e fizesse menos arranha-céus.
   
Cult - É possível ordenar o crescimento da cidade?
D.L. - Hum, não sei, talvez não dê para mudar por ser parte da natureza das pessoas que a construíram. Aqui elas são impulsivas, não parecem gostar muito de controle. Meio como os franceses [risos]. Se você for à França, verá que eles não gostam muito de organização. Gostam que as coisas saiam meio erradas.
    
Cult - Conseguiu sentir como é viver por aqui?
D.L. - É difícil, teria que ficar mais tempo. Mas acho que consegui ver muitas dimensões diferentes da cidade. A maioria das coisas no livro foi acidental, nem sempre tinham a ver com o lugar onde eu estava. Por exemplo, quando fui pra Cidade Tiradentes vi algo que inspirou uma outra seção do livro. Era um cavalo, não muito bem cuidado. Daí, lembrei da história dos carroceiros que andavam com cavalos, mas que a administração da cidade proibiu porque eles atrasariam o trânsito. O que é estúpido, porque um cavalo é mais rápido que um homem. E isso foi acidental; vi o cavalo e me lembrei disso. É o que você vê que define. Tiramos muitas fotos e quando cheguei em casa ainda não tinha certeza do que iria fazer. Só com todo o material fui pesquisar a fundo - queria saber da história para ligar tudo de alguma maneira, ter um começo, meio e fim.
    
Cult - O processo de criação teve alguma relação com fazer uma HQ?
D.L. - De um certo modo, pelo texto que acompanha. As duas coisas trabalham juntas. De fato, a maneira correta de se fazer uma HQ é quando as ilustrações não funcionam sem o roteiro e o roteiro não funciona sem as ilustrações. Isso é perfeito, quando um depende completamente do outro.
    
Cult - É possível haver um personagem como V (protagonista de V de Vingança) nos tempos de hoje?
D.L. - Bem, o lance sobre V é que ele não tinha responsabilidade com ninguém, exceto com si mesmo. Podia ver que todo mundo estava ruim do juízo e ele era o único que tinha um plano de como sair daquilo, uma sociedade baseada na anarquia. Naquele tempo, Alan [Moore] achava que era a maneira de se conduzir uma sociedade. Eu nunca achei. V era um utópico, com um plano que faria as pessoas pararem de fazer tanta bobagem o tempo todo porque, basicamente, todos os problemas dos humanos são com sua própria natureza. Mas era só um sonho porque você não pode movimentar a máquina para uma anarquia. O máximo que pode fazer é que as pessoas rejeitem a tirania. É um personagem muito interessante, mas pessoas assim não existem na vida real.
    
Cult - O protesto violento é uma maneira de mudar o mundo?
D.L. - Infelizmente é. Para mudar a maioria das sociedades, em algum momento você tem que se envolver em alguma revolução, e com ela vem a violência. Ninguém vai te dar nada se você não lutar por isso. E temos pouquíssimos exemplos de pacifismo que deram resultado. Gandhi talvez seja o único que se destaca. Sempre haverá terrorismo. Mas é como aquele ditado: "O terrorista de um é o revolucionário de outro". É como o mundo é.
   
Cult - Você tem crenças políticas?
D.L. - Acho que posso me descrever como um cínico idealista [risos]. Consigo ver uma maneira da sociedade se tornar boa, mas não consigo imaginar ninguém realmente fazendo isso. Sempre voto no Partido Trabalhista, e gostaria que todos votassem assim também, porque o mundo seria um lugar melhor. Mesmo nos Estados Unidos, se todos votassem nos Democratas, e não nos Republicanos, mesmo não havendo uma grande diferença entre os partidos, ainda assim seria uma sociedade melhor. Mas as pessoas são facilmente seduzidas. Em toda eleição existem apenas dois candidatos: um que você sabe que é melhor para a sociedade como um todo; e outro que vai colocar 10 dólares no seu bolso. Bem, pessoas demais vão votar no cara que coloca 10 dólares nos bolsos delas, porque elas têm famílias, contas a pagar, crianças, carros... E se justificam dizendo: "Estou apenas sendo prático, preciso daqueles 10 dólares". É isso que elas vão dizer! E não irão se ver como criminosos ou pecadores. É assim que a sociedade vai pro inferno. Quando pessoas demais param de perceber o que estão fazendo. A corrupção está em nós, não apenas nos políticos.
   
Cult - O Brasil é um país famoso pela corrupção...
D.L. - Você que está dizendo isso... [risos]
   
Cult - Mas é!
D.L. - Sim, vocês têm essa reputação, é claro [risos].
   
Cult - Você chegou a ver exemplos de corrupção no dia-a-dia de São Paulo?
D.L. - Infelizmente, quando você chega no nível das ruas é a lei do mais forte, sabe? A lei da selva. Aí é muito difícil de mudar. O que tem de mudar é o processo democrático. As pessoas têm que respeitar mais esse sistema. Quanto mais pessoas lutarem por justiça, maior a chance de ela existir. Se você é parte de uma sociedade em que a corrupção é a norma, é difícil pra diabo lutar contra isso. É aquele velho clichê: "Para o mal triunfar, só basta que os homens bons fiquem parados e não façam nada".
   
Cult - Acredita que seus quadrinhos podem mudar alguma coisa?
D.L. - Quero contar histórias sobre coisas que importam, acho que se você é um artista e vai dizer algo, é bom que valha alguma coisa. Quantas pessoas serão afetadas por isso não dá pra saber. Muitos responderam bem ao meu trabalho. V de Vingança, especialmente. Conheci pessoas incrivelmente tocadas pela história e que mudaram suas vidas, suas atitudes. É ótimo ter esse efeito.

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COMENTÁRIOS (7) ENVIE SEU COMENTÁRIO
12/02/2008 01:08:41   Boa entrevista! Alexandre
12/02/2008 00:07:48   todo quadrinista é chato Caio
 
 

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