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ENTREVISTA
 
Estilingue na mão
 
Divulgação/Globosat
 
O colunista Diogo Mainardi fala mal de todo mundo - do governo, da imprensa e até de Gisele Bündchen. Aqui ele explica seu conceito sobre a função do cronista, conta os processos que venceu e perdeu e diz que o Brasil terá de se recuperar de um trauma: a impunidade consagrada no governo Lula
 
Thales Guaracy
 
O colunista Diogo Mainardi, 44 anos, considera-se uma espécie de nômade. Depois da Inglaterra, onde largou no meio o curso de Economia e Ciências Políticas na London School of Economics, pago pelos pais, morou 14 anos em Veneza. Lá, ele se casou com a historiadora de arte italiana Ana, especialista em arte bizantina, e cultivou a idéia de se tornar romancista. Virou crítico literário e depois colunista, após ver que os romances não lhe dariam o sustento. Há três anos e meio, aluga um apartamento diante do mar em Ipanema, no Rio de Janeiro (R$ 7 mil por mês), e agora cogita ir para Nova York onde poderia participar in loco do programa Manhattan Connection, no canal a cabo GNT, do qual é uma espécie de correspondente carioca.
 
Sua casa é mesmo de quem não cria raízes. A sala ofusca, tanta é a luz, porque a janela para o mar jamais recebeu cortinas. A mobília é escassa. Sob a janela, há uma chaise longue de couro branco. No canto direito, repousa um móvel com uma TV plana e um aparelho de DVD, mas diante dele fica apenas uma poltroninha de criança, indicando qual é o único habitante da casa a utilizá-los. Somente atrás da sala de jantar, com lugar para seis pessoas em uma mesa negra em forma elíptica, revela-se uma vida intensa. Num espaço com menos de quatro metros quadrados, empilham-se, numa estante baixa, os livros de Mainardi, sua papelada, um andador para o filho de seis anos, Tito, que é deficiente, um cadeirão do filho menor, Nico, de 1 ano e meio, além do computador preto da marca Dell em que ele exerce seu ofício. Mainardi não vai ao cinema, não lê literatura brasileira, diz não agüentar mais que dez minutos vendo TV. Sua vida se resume em boa parte àquele espaço, onde escreve a coluna que assina há sete anos na revista Veja, por meio da qual se transformou em uma das figuras mais controvertidas da imprensa.
 
Ali, Mainardi tornou-se um anjo para aqueles que admiram seu texto ferino, lhe mandam documentos apontando escândalos e o interpelam na rua como a uma espécie de justiceiro a quem nada pode calar. Para outros, incluindo aqueles que o fazem conviver com uma rotina de processos judiciais dos quais ele se gaba de vencer em grande parte, ele é o demônio: persegue o sensacionalismo, atacando sistematicamente o óbvio para chamar a atenção, é um moralista de direita, ou um dono da verdade que não respeita ninguém - menos pelo teor de suas denúncias que pelo seu estilo viperino.
 
Usando as palavras como um samurai renegado, habilidoso na espada, mas que se sente desobrigado
a cumprir todas as regras do código de conduta da sua arte marcial, Mainardi ataca de maneira contundente políticos, empresários e jornalistas, estes últimos acusados de apaniguamento. Dirige sua verve até contra personalidades as mais inocentes: por exemplo, já classificou Gisele Bündchen como um perigo contra a sanidade masculina. Como resultado, atraiu sobre si o patrulhamento geral e ataques pessoais que o obrigaram a colocar em público até questões íntimas, como a saúde de seu filho mais velho. Tito teve um parto traumático, segundo Mainardi devido a um erro médico. Sofreu a compressão do cordão umbilical na indução do nascimento e teve paralisia cerebral com seqüelas. Mainardi diz ter ido ao Rio de Janeiro por encontrar lá um atendimento fisioterápico mais adequado à criança, além de um salário extra (o Manhattan Connection). Hoje, move processo contra o hospital público veneziano onde o filho nasceu, de cuja sentença espera obter dinheiro para assegurar o futuro da prole. Preocupa-se com os filhos, sobretudo, por gastar tudo o que ganha, não ter casa própria, bens importantes ou herança. "Meu pai (o publicitário Enio Mainardi) fez sucesso na década de 1970, mas o dinheiro acaba", diz.
 
A sinceridade extrema e o flerte com a controvérsia que o fizeram famoso aplicam-se ao conceito que ele faz de si mesmo. "Eu sou apenas um cronista, como Rubem Braga, quando falava dos passarinhos na praça", diz. "É que, por falta de assunto, há quatro anos eu falo do presidente Lula e do seu governo. Lula e os outros, porém, não são diferentes dos passarinhos. Pousou na minha janela, eu pego o estilingue." É mais condescendente com o pai, que guardou em sua casa o jornalista Pimenta Neves quando era foragido da polícia, após assassinar sua namorada. E enamora-se dos juízes, especialmente os que lhe dão ganho de causa nos processos que toma em avalanche. "Há gente boa num sistema apodrecido", diz.
 
À base de estilingadas, Diogo atraiu a atenção até para sua literatura, que diz ter abandonado - no ano passado, teve republicados seus quatro romances, além de crônicas coletadas em um volume apropriadamente intitulado A tapas e pontapés. Inspira-se em Montaigne ("meu exemplo de ensaísta"), em Ivan Lessa ("foi meu tutor") e Paulo Francis, cuja cadeira ocupa no Manhattan Connection. Foram amigos e se visitavam em Veneza e Nova York até a morte de Francis, em 1997, quando Mainardi ainda não pensava em entrar para o colunismo. "Francis nos ensinou a olhar as coisas de um jeito menos convencional, é o seu legado", diz. "Nossa amizade, um demérito para ele, é uma medalha que eu carrego no peito."
 
Os romances de Mainardi têm muito em comum com a sua crônica: são parábolas satíricas, nas quais o Brasil é vilipendiado e a filosofia vira um discurso vazio. Seus personagens são filósofos por falta de opção, cuja aventura termina em nada. Por isso, os romances de Mainardi podem ser vistos tanto como uma divertida reflexão niilista quanto como peças simbólicas da inutilidade tediosa que atribuem ao mundo. Não se trata, como ele sabe, de uma literatura para muitos. "Escrevi quatro romances e acho que fiz o meu melhor", diz ele. "Agora, tenho de ganhar a vida." Ganhar a vida, no caso, significa exercer por escrito sua obsessão masoquista com o Brasil. Num país com tantas mazelas, ele achou seu maior prato.

CULT - Diferentemente da maioria dos cronistas e escritores, em vez de procurar valor na vida, você parece fazer o contrário: procura a falta de valor em tudo. Concorda?
Diogo Mainardi - Meu impulso é ridicularizar as veleidades intelectuais todas. Só fiz isso, só sei fazer isso. Tenho esse olho doente.

CULT - Isso seria resultado de uma personalidade também "doente"?
D.M. - Doente, nesse caso, significa torto, que vê o aspecto mais deletério da vida. Não tem nada da minha personalidade. É somente fruto de minha formação intelectual, dos livros que eu li, que me divertiram. Eu trato de idéias de maneira debochada. Sempre tratei, com instrumentos diferentes. Não fiz nenhum mudança quando passei da minha literatura para o jornalismo.

CULT - Só que, quando você aplica seu deboche à realidade, começa a confrontar pessoas também reais, não?
D.M. - Sempre fiz isso. Nos romances, embora fantasiosos, eu tratei de situações reais, ou idéias manifestadas por autores existentes. Nunca fugi da realidade. No jornalismo, ela é apenas mais contingente. Falo de coisas que estão acontecendo neste momento. Sou um humorista, e um humorista que trata da realidade. Eu posso ser um bom ou mau satirista, mas é a única maneira de definir o meu trabalho.

CULT - Nos últimos tempos, porém, você se aproximou um pouco mais da reportagem, no sentido de buscar informações mais concretas para embasar suas afirmações na coluna.
D.M. - No último ano, fiz muitíssimo isso porque tenho horror à retórica. No começo, a minha oposição ao Governo era uma diversão só. Eu era bastante solitário nessa atividade e a exercia de maneira muito debochada. Tudo começou na posse de Lula, quando vi, pela festa do Bumba-Meu-Boi na qual ele comemorou sua vitória, um retrato do que seria sua gestão. Quando ficou evidente que esse governo tinha de ser tratado como todos os outros e mudou o clima na imprensa, percebi que a oposição era muito palavrosa, adjetivada. Então tentei buscar fatos. Isso não partiu só de mim. Muita gente me identificou como oposição e passou a me mandar notícias. Muitas delas levei para repórteres da Veja. Outras tentei desenvolver na minha coluna. Eu tinha uma responsabilidade.

CULT - Você acha que seu método de franqueza radical passa mais a idéia de que você está falando a verdade ou de partidarismo?
D.M. - Eu tenho certeza absoluta de que as pessoas acham que eu não tomei partido. Ou que eu tomei o partido da oposição. Não oposição entendida como o PSDB, mas sim como fiscal do governo.

Leia entrevista completa na CULT 110



 
COMENTÁRIOS (31) ENVIE SEU COMENTÁRIO
13/07/2008 19:21:23   Esse Enio é um porcaria. É hereditário, seu pai Antonio Alvaro Guedes
18/02/2008 21:16:01   O ódio é cégo.Deixem o Mainard se esvair.Basta que sergio Césário da Silva
 
 

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