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Mistério da permanência
 
Com dois anos e cinco meses em cartaz, "Medos Privados em Lugares Públicos" alcança uma marca surpreendente no circuito de cinema
 

05/11/2009
   
    Eduardo Fonseca
    
Se permanecer durante alguns meses em cartaz pode ser considerado um enorme feito para qualquer filme, o que dizer de dois anos e cinco meses? É o que acontece com o filme francês "Medos Privados em Lugares Públicos", de Alain Resnais, em exibição diariamente desde o dia 13 de julho de 2007, no HSBC Belas Artes, em São Paulo, e sem previsão para sair de cena. A explicação para isso abrange desde aspectos comerciais, levando em conta que o público continua indo às sessões, principalmente aos fins de semana - quando, não raro, a sala chega a lotar -, até outras razões menos evidentes, como a atitude persistente do exibidor que, com "paciência" e "sabedoria", deixou o filme ganhar fôlego de exibição. 
 
   
Cena de "Medos Privados em Lugares Públicos" (2006), de Alain Resnais
 
Para os críticos de cinema Luiz Zanin e Sérgio Rizzo, a explicação passa pelo tratamento que se dá ao filme que, segundo as palavras de Zanin, não é tratado como "salsicha" nem "sabonete". A história sensível, humana e atemporal do enredo também é tida como fator preponderante para o sucesso do filme. "Parece que existe um nicho de público que se liga nesse tipo de filme, que não é exatamente comercial", complementa Zanin. Já Rizzo procura desvendar o mistério lembrando que a dobradinha (vista com bons olhos pelo crítico) entre a distribuidora de filmes "Pandora" e o HSBC Belas Artes, é articulada, na verdade, pela mesma pessoa, André Sturm. Apesar dos percalços de manter o filme por tanto tempo, Sturm (sócio da "Pandora" e diretor de programação do HSBC) descobriu até mesmo uma nova maneira de divulgar seu produto. "Acho que o fato de estar tanto tempo em cartaz acaba gerando até um interesse adicional", comenta satisfeito. 
     
O filme conta a história aparentemente banal de três homens e três mulheres parisienses solitários que buscam, no amor, a felicidade, mas fracassam mesmo assim. Já é de longe o recordista de permanência nesse cinema, ultrapassando filmes bem mais badalados como "2046" (de Wong Kar Wai), "As Bicicletas de Belleville" (de Sylvain Chomet) e "O filho da noiva" (de Juan José Campanella), que ficaram em cartaz não mais que um ano.
 
 
Confira os depoimentos abaixo sobre a permanência do filme:
 
"A resposta para a longevidade passa obrigatoriamente por um aspecto de distribuição e exibição: o filme é distribuído pela Pandora, cujo proprietário é sócio do cine HSBC Belas Artes e responsável por sua programação. Ou seja: diante da boa resposta do público a um filme como esse, há a sabedoria, a paciência e o modelo de negócios necessários para mantê-lo em cartaz, ainda que em apenas uma ou duas sessões por dia (prática habitual de programação em cidades como Paris e Nova York, e saudavelmente adotada aqui pelo Belas Artes). Outros filmes teriam o mesmo potencial, mas saem de cartaz para dar lugar a títulos da extensa fila que se forma em busca de salas de exibição no Brasil. Não por acaso, o fenômeno dos filmes que passam mais de uma temporada em cartaz se tornou exclusividade, nos últimos anos, da dobradinha Belas Artes/Pandora."
Sérgio Rizzo, crítico de cinema
    
"Por mais que esteja feliz com esse sucesso, é difícil dizer de onde ele vem. De um lado, com certeza contou o fato de nós termos acreditado no filme e, quando ele diminuiu um pouco seu público, termos deixado em cartaz. Aos poucos ele voltou a crescer e a lotar sessões. Acho que é um filme diferente, muito humano e que mexe com as pessoas. Acho que o fato de estar tanto tempo em cartaz acaba gerando até um interesse adicional."
 
André Sturm, sócio da distribuidora "Pandora" e diretor de programação
 
 
"Essas permanências são sempre um tanto misteriosas. É mais fácil explicar depois que acontece do que prever antes. Em todo caso, esse filme do Resnais fala sobre questões humanas e de relacionamentos de maneira bem criativa. Parece que existe um nicho de público que se liga nesse tipo de filme, que não é exatamente comercial. Ele vem embalado pelo nome Resnais, que é uma grife do cinema chamado de arte. Além disso, foi muito bem lançado. Está no Belas Artes que, sob direção do André Sturm, tem um diferencial: lá eles dão tempo para o filme acontecer e encontrar seu público. Se tivesse entrado em qualquer outro cinema, o "Medos Privados" já teria sido varrido do circuito há muito tempo. O Sturm não trata filmes como se fossem sabonetes ou salsichas. Respeita os filmes como arte."
 
Luiz Zanin, crítico de cinema
  
 
filme: Medos Privados em Lugares Públicos ( Coeurs, 2006), de Alain Resnais
onde: HSBC Belas Artes (Rua da Consolação, 2423, São Paulo)
quando: todos os dias, às 14:30
 

 
 
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