Gestos infinitesimais
O cearense Carlos Augusto Lima conjuga discrição e radicalidade em seu novo livro
Por Eduardo Sterzi
Já se disse que Carlos Augusto Lima é um dos poetas "mais radicais" da atualidade. No entanto, ao concordar com tal juízo (que diz menos respeito à qualidade que ao funcionamento da obra), é preciso especificar a forma e o sentido dessa radicalidade, que não são previsíveis. Não se encontra na sua poética a ênfase que, por muito tempo, se confundiu com a ação artística programaticamente "radical". Pelo contrário: no lugar da fanfarra, Lima opta por um quase-silêncio, ou pela palavra balbuciada, arriscando-se, às vezes, à insignificância ou mesmo a algo próximo da inexistência. Essa atitude está sintetizada num dos versos de seu novo livro,
Vinte e sete de janeiro: "livros são um sem. um nada. um fim". Não por acaso, essa poética vai além da poesia, abrangendo seus modos de se fazer presente: suas táticas de divulgação, ou, mais exatamente, de recolhimento. Seu primeiro livro,
Objetos, publicado em 2002 numa edição artesanal de 200 exemplares, deixava claro, em cada página, a que vinha: oito poemas somente, cada um focado num objeto doméstico cuja familiaridade não cancelava uma estranheza ou inquietude ínsita, que se revela pelo olhar do poeta. Na "cômoda" que dá título a um daqueles poemas, agita-se o "redemoinho de / disputas íntimas"; ela pode ser "poço / profundo em segredos" ao mesmo tempo que "tumba de utensílios"; se é "caixa falante", a sua, porém, é uma "língua de gavetas", em alguma medida indecifrável aos habitantes da casa.
Naquele livro, freqüentemente era alguma forma sorrateira de morte que surpreendia o poeta pela casa: a cama, sobretudo, aparecia como cenário e testemunha de sua "morte diária", o sono. Contudo, se a mesa, como cemitério provisório do núcleo objetivo da intimidade, acumula "inutilidades em / resma", essa "mixórdia de / pequenos objetos / ínfimos susten- / ta uma discreta / coloração par- / ticular": o que não deixa de ser uma imagem de felicidade a contrapor-se à morte sempre à espreita, especialmente se confrontada com a "tintura encardida de / preto" que, noutro poema, era a cor da "sustentação" precária do "mundo" (mundo que se reduzia metonimicamente a uma "estante" de livros). Uma semelhante figuração cromática está presente no novo livro, no título da primeira de suas três breves seções: "Ao redor o mundo descolore". Aqui, no entanto, as janelas e a porta da casa se abrem para a rua, e passa-se dos objetos (mínimos) aos gestos (infinitesimais).
O belo poema de abertura do livro coloca-nos diante de uma paisagem aberta e solar, na qual uma experiência de prazer - o dia passado nas dunas, com pessoas queridas - transfigura-se por meio da imaginação numa seqüência de cenas entre infantis e surrealistas. Novamente, a positividade dos acontecimentos figurados só se mostra como tal em contraste com a negatividade que ronda o idílio e por vezes se infiltra pelas frestas das imagens: por exemplo, no insólito cardápio da noite ("para o / jantar teremos brocas, caniços, / óleo combustível, cinzeiros") ou no fatal adiamento do repouso ("para matar o sono usa-se um punhal"). E, sobretudo, na auto-apresentação dos companheiros antes de retornarem "à forma humana / às dezoito e trinta": "estamos dispostos e cegos / tão bichos em ambiente abissal". A felicidade possível, na poesia de Carlos Augusto Lima, parece ser essa mistura de disposição e cegueira, uma regressão do humano a uma animalidade - fingida, brincalhona, contígua à infância - que, porém, só é retorno ao paraíso ao custo de ser também experiência do abismo. Daí que, em outro poema, "dois ou três" meninos que acompanham uma procissão de Sexta-Feira da Paixão na praia achem graça do outro "menino" que "carrega uma cruz / e um sudário roto / amarrado nela". O poeta descobre, com "os meninos" que "brincam", que "a via-crúcis tem muito de circo, / de maravilhoso e rancor aos seis anos de idade". Ao dilema que tem entravado boa parte da poesia brasileira contemporânea - optar pela maravilha ou pelo rancor? pela livre imaginação ou pelo compromisso com o real? -, Carlos Augusto Lima parece responder com a solução antes dialética que salomônica, condizente com uma poética em que discrição e radicalidade são um só movimento: "cavar fundo" (como diz num poema) para encontrar no real os espaços em que a imaginação se faz necessária.
Vinte e sete de janeiro
Carlos Augusto Lima
São Paulo: Lumme, 2008
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