Um ano sem o homem que caiu na Terra

No dia 10 de janeiro de 2016 morria David Bowie, vítima de um câncer no fígado. Ficaram suas personas, do rockstar alienígena ao astronauta perdido no espaço
David Bowie como Ziggy Stardust (Foto: Divulgação)

David Bowie como Ziggy Stardust (Foto: Divulgação)

Laura Lewer

Há um ano, em 10 de janeiro, o mundo se despediu de David Jones, mas inúmeras pessoas ficaram. Como todo caso de figuras que transcendem sua própria mortalidade, um dos artistas mais versáteis e influentes do mundo não poderia partir sem deixar um legado imensurável.

O rockstar alienígena e andrógino de cabelos vermelhos Ziggy Stardust, o perturbador Thin White Duke, o astronauta Major Tom, Aladdin Sane e seu clássico raio, o morador de Hunger City Halloween Jack, o pierrô que abriu os anos 1980 e todas as outras personas conhecidas nas últimas cinco décadas ainda respiram cada vez que David Bowie é lembrado.

Dois dias após completar 69 anos e lançar seu último álbum Blackstar, o cantor, ator, produtor, compositor e multi-instrumentista morreu de um câncer de fígado diagnosticado em 2014 e mantido em segredo do grande público. Ele descobriu que a doença estava em estado terminal apenas três meses antes de morrer.

No início das gravações do que viria a ser seu último álbum, Bowie chegou sem sobrancelhas e cabelos por efeito da quimioterapia e pediu que sua banda mantivesse segredo sobre sua doença, segundo seu produtor e amigo de longa data Tony Visconti. A história nunca vazou para a imprensa.

Em seus últimos anos, o enérgico artista, que lançou quase 30 álbuns de estúdio em sua carreira, trabalhava no musical off-Broadway Lazarus ao mesmo em que criava seu derradeiro álbum. Nas últimas semanas, gravou demos para cinco novas músicas. Dias antes de morrer, mesmo sabendo de seu estado terminal, convidou Visconti para mais um disco. Os momentos aparecem no documentário David Bowie: the last five years, lançado pela BBC no último domingo (8), dia em que o ele completaria 70 anos.

Também em seu aniversário, o EP de quatro músicas – três inéditas – No Plan foi lançado. Na faixa que dá nome ao álbum, Bowie fala de um lugar onde não há música, em que todas as coisas que formam sua vida estão presentes: humor, crenças, desejos, ele mesmo e nada do que se arrepender. “Esse não é lugar nenhum, mas cá estou eu. Isso ainda não é o bastante”, encerra.

À CULT, músicos e produtores brasileiros relatam a influência musical de Bowie em suas trajetórias e a maneira como foram marcados por suas canções.

André Frateschi, ator e músico

André Frastechi (Foto: Divulgação)

André Frasteschi (Foto: Divulgação)

David Bowie entrou na minha vida aos meus oito anos de idade. O LP de Alladin Sane veio da Inglaterra trazido pelo meu ex-padrasto. Fiquei olhando aquele super herói de que eu nunca tinha ouvido falar. O raio pintado na cara sugeria um super poder elétrico, pensei. Ouvi e descobri seu verdadeiro super poder.  Depois veio Labirinto – A magia do tempo [filme de 1986], e eu fiquei confuso porque me apaixonei pela Jennifer Conelly e pelo Bowie. Em 1985, vi pela televisão o show Live Aid, e um desfile de lendas tocou naquele dia. E Bowie lá, pop e lindo. Assisti ele tocando no Parque Antártica em 1990, eu tinha 16. Aos vinte e poucos, ouvindo Lodger (1979), descobri dentro de mim um ímpeto de me abrir para as aventuras dessa vida. Até hoje é só ouvir os primeiros compassos de Fantastic Voyage e essa sensação volta imediatamente.

Montei minha primeira banda com 17, nossas maiores influências foram  Zappa e Bowie. Quando a banda acabou, montei a Heroes que só toca Bowie há onze anos. Mike Garson, mítico pianista daquele Alladin Sane, gravou seis faixas no meu disco autoral Maximalista e compôs uma que fecha o CD. Na turnê Legião Urbana XXX anos, nossa entrada no palco era na contagem regressiva de Space Oddity. Eu ainda choro quando escuto Heroes, Lady Grinning Soul, Bring Me the Disco King. Sinto fisicamente sua música dentro de mim. Muito provavelmente você tem em algum momento da sua vida Bowie como trilha. Ele está no meio de nós. Bowie mostrou que a arte é o que o ser humano pode fazer de melhor. Até o último suspiro, surpreendendo, arrebatando. Sempre dez anos à frente. Eu sigo.

Alexandre Kassin, produtor, multi-instrumentista, cantor e compositor

Alexandre Kassin (Foto: Divulgação)

Alexandre Kassin (Foto: Divulgação)

Eu não ouvia muito Bowie, tinha alguns LPs mas não era algo em que eu prestava muita atenção. Até que um dia, tomando um suco no Leblon, encontrei meu amigo Sergio Mekler indo para o show do Bowie com um ingresso sobrando. Era aquele show de 1997. Sergio me convenceu a ir – devo essa e muitas outras a ele.

Bowie começou e tocou basicamente músicas novas com elegância, banda impecável, futurista. Virei fã dele assim, pelo que havia de novo nele, não por saudosismo. Depois fui ouvir o que ele havia feito antes. Isso, para mim, é o que define um artista: não um espasmo comercial, mas a necessidade de longevidade.

Mahmundi, cantora, produtora e compositora

Mahmundi (Foto: Divulgação)

Mahmundi (Foto: Divulgação)

A minha experiência com Bowie começou muito tardiamente. Meus pais, por causa da religião, não nos deixavam ouvir músicas que não fossem cristãs, o que também foi ótimo, já que depois de muita musicalidade fui ouvir outras novidades entendendo melhor sobre aquele universo musical. E Bowie sempre me cativou pelo mistério. Tenho uma memória de ouvir as primeiras coisas, solos de sax, guitarra e, de repente, uma balada dançante com sintetizador e teclado. Achava aquilo muito versátil.

Heroes é minha música preferida porque o universo dela é arrepiante. Eu realmente me sinto livre quando a ouço. Minha aproximação com ele não é nada fanático, mas sempre me tocou a comoção de uma criação, visualmente, de como ele era múltiplo na forma de mudar acordes, melodias, roupas, maquiagem, banda. O Tony Visconti, produtor que trabalhou com ele durante muito tempo, diz que ele era um ser iluminado e isso passava por todas as composições. Isso me emociona muito e me deixa feliz em ter vivido em um momento em que esse cara existiu.

Filipe Catto, cantor e compositor

Filipe Catto (Foto: Divulgação)

Filipe Catto (Foto: Divulgação)

O que mais me influenciou no trabalho do Bowie foi o fato de ele utilizar todos os espaços da sua arte para se expressar. Seja no palco, no cinema, na moda, todos os aspectos do comportamento e da estética sempre andaram de mãos dadas com sua música. E isso enriquecia muito o resultado final, transformou-o em um ícone além da música. Um símbolo. Eu me identifico muito com a fase Berlim e também com a explosão pop dos anos 1980. É incrível como toda a trajetória do Bowie se torna tão urgente e atual, especialmente pensando no mundo em que estamos vivendo hoje, de tanto retrocesso. Sua obra é um grito de esperança.

Jose Celso Guida, produtor musical

Jose Celso Guida (Foto: Divulgação)

Jose Celso Guida (Foto: Divulgação)

O Bowie era mesmo um camaleão cheio de talento e atitude. Excelente cantor, ator, autor e artista completo que influenciou uma legião de pessoas e artistas de sua geração e ainda continuará a influenciar e inspirar muita gente, por muito tempo. Nem na cor dos olhos ele era convencional. Tinha atitude de lorde, de roqueiro, de artista clássico, provocador e anjo, tudo ao mesmo tempo. This Is Not America é uma das músicas mais completas e bem feitas, no meu ponto de vista, e uma das que mais marcaram na interpretação de David Bowie.

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