Ricardo Piglia encontrou refúgio para doença no trabalho e na leitura

Diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o escritor morreu nesta sexta (6), em Buenos Aires, após uma parada cardíaca
O escritor argentino Ricardo Piglia, que morreu nesta sexta (6), em Buenos Aires

O escritor argentino Ricardo Piglia, que morreu nesta sexta (6), em Buenos Aires

Redação

Aos 75 anos, morreu nesta sexta (6), em Buenos Aires, Ricardo Piglia, um dos mais importantes escritores argentinos contemporâneos. Autor de Respiração artificial – apontado por 50 escritores argentinos como um dos dez melhores romances da história da literatura do país -, Piglia trabalhou incessantemente para finalizar sua trilogia biográfica mesmo depois de ser diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), em setembro de 2013.

“Ele trabalha o tempo inteiro, e está sempre sorridente. É… olha… é um herói. É um herói. Porque essa doença é terrível”, disse Bebe Eguía, mulher de Piglia, ao El País, em janeiro de 2016. Ela contou ainda que o marido havia contratado sete pessoas para ajudá-lo. À Luisa, uma de suas assistentes, Piglia chegou a ditar trechos de seu diário quando não conseguia mais transcrevê-lo de próprio punho.

Os dois primeiros volumes dos Diários de Emilio Renzi, Años de formación e Los años felices, foram publicados em 2015 e 2016. O último, Un día en la vida, pode ser lançado em setembro deste ano, segundo o jornal argentino Clarín.

Piglia publicou ainda, em 2014, Antologia personal, uma reunião de ensaios, relatos autobiográficos e ficcções produzidas ao longo de 50 anos; e La forma inicial, apanhado de conferências e conversas, em 2015. Nesse ano, o documentário 327 cuadernos, de Andrés Di Tella, mostrou o argentino narrando a experiência de abrir os diários que manteve por cinco décadas enquanto relembrava momentos importantes de sua vida e da história de seu país.

O autor escolheu a leitura e o trabalho como refúgio para a doença. “Continuei trabalhando, com ajuda. Há muitas coisas que não posso mais fazer, mas posso continuar a ler e escrever como sempre, sem que isso seja um juízo de valor. Estou com bom ânimo porque continuo dando pouca atenção à realidade”, disse ao El País no final de 2015. “Bem, a experiência da doença é a da injustiça em estado puro: ‘Por que eu?’, você se pergunta, e qualquer explicação é ridícula e sem sentido. O sentimento de injustiça convida à rebelião e à luta, então você não se queixa e isso é um alívio.”

Gênio de Adrogué

Nascido em 1940 em Adrogué, Ricardo Piglia é considerado referência na literatura contemporânea argentina por ter escrito obras como Dinheiro queimado e Respiração artificial, lançados no Brasil pela Companhia das Letras. Além de escritor, trabalhou como professor de literatura na Argentina e na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Piglia também era editor, crítico de literatura, roteirista de cinema e grande estudioso da literatura de seu país. Sua obra foi traduzida para mais de quinze línguas.

Nas redes sociais, leitores, colegas de profissão e admiradores lamentaram a sua morte. “Adeus, Renzi. Adeus, Piglia. Tudo o que foi escrito, a lucidez e a paixão do escritor e leitor onívoro ficam para nós. Vamos sentir a sua falta”, publicou em seu Twitter o jornalista e ministro da cultura argentino Pablo Avelluto.

O ator mexicano Gael García Bernal também lamentou a morte, desejando “todos os abraços e melhores pensamentos à família do gênio de Adrogué”. A Editora Anagrama, que publicou os cinco romances do argentino, afirmou que “não existe consolo maior que sua escrita”. Escritora e dramaturga, a argentina Claudia Piñeiro escreveu que Piglia “ensinava a pensar, um grande legado que se somou à sua obra”.