O grande romance americano

Ao relatar histórias de um dono de motel que espionava seus clientes, O voyeur, mais recente livro de Gay Talese, escancara a ruína da América
O escritor americano Gay Talese (Foto: Divulgação)

O escritor norte-americano Gay Talese (Foto: Divulgação)

Tiago Ferro

O positivismo já é um velho defunto. Ao menos a sua crença de que um objeto “fala por si só” é inaceitável para análises sociais. Mas o fato é que aqui e ali fragmentos desse pensamento surgem no debate cultural.

Algumas categorias que aceitamos como naturais reafirmam essa ingenuidade epistemológica. Assiste-se a um documentário no cinema como o que “de fato aconteceu”. E a divisão principal dos livros entre ficção e não ficção deixa implícita a ideia de que na segunda categoria está a realidade (seria interessante nos perguntarmos o que estaria então na primeira).

Na capa do mais recente livro do norte-americano Gay Talese, O voyeur (Companhia das Letras), está escrito que o autor é “o inventor do jornalismo literário”. Esse deslizamento confirma a insuficiência das categorias principais e o desejo de avisar (prevenir?) o leitor sobre como a realidade é tratada naquela obra. Jornalismo literário aproxima, portanto, o campo da não ficção do da ficção.

Em 1980, Gerald Foos entrou em contato com Talese oferecendo seus registros sobre comportamento sexual para ajudá-lo com o livro A mulher do próximo, que estava para ser publicado. Foos vinha fazendo essas anotações desde 1965 quando comprou um motel em Denver para satisfazer seus desejos voyeurísticos. No sótão do motel ele instalou falsos respiradores para observar os clientes na (falsa) privacidade de seus quartos. E tudo era metodicamente registrado. Talese foi a Denver, entrou no sótão e observou alguns casais. Mas só aceitou publicar a história se pudesse citar o nome de Foos. Este recusou. Mesmo assim, Talese topou receber as anotações de Foos e seguiu em contato com ele por telefone e cartas. Trinta e três anos depois Foos concordou com a publicação do material usando seu nome verdadeiro. Talese não procurou ex-hóspedes do motel, parentes de Foos, não conversou com seus amigos ou funcionários. Apenas reproduziu longos trechos dos registros de Foos, batizados pelo próprio como Diário do voyeur.

O livro se viu cercado por polêmica quando o jornal Washington Post afirmou que alguns fatos descritos no livro eram falsos. Se toda a obra se apoiava nos relatos de Foos, e ele havia mentido sobre um ou outro assunto, como saber se tudo não passava de uma mentira? Talese assumiu que não deveria ter confiado em Foos e que não promoveria o livro. O voyeur foi lançado e mesmo assim alcançou grande sucesso.

Como podemos ler então um livro que promete a verdade dos fatos, mas que pode ser uma grande mentira? Não ficção ou ficção?

Sugiro deixarmos de lado, por enquanto, o lastro da realidade e tentarmos uma análise estrutural do livro. Entendê-lo em seus próprios termos.

O livro tem a princípio dois narradores: Gay Talese, que narra O voyeur em primeira pessoa, e Gerald Foos, dono do motel em Denver, que tem longos trechos transcritos de seu Diário do voyeur, no qual conta sobre um personagem que ora é ele próprio falando na primeira pessoa sobre sua infância e relações familiares, ora é um terceiro, o Voyeur.

Talese se comporta como o narrador confiável e distante que vai capítulo por capítulo apresentando ao leitor o assunto que será tratado no Diário. A narrativa de Foos é mais complexa. Ele procura não julgar os hábitos bisbilhoteiros e invasivos do Voyeur, envolvendo a narrativa com certo jargão científico. O aparato de observação dos clientes do motel é batizado como “laboratório de observação”. E a maioria dos relatos se estrutura nas seguintes partes: data, objeto de estudo número x, descrição, atividade, conclusão. Os relatos variam da primeira para a terceira pessoa quando surge o personagem Voyeur.

Passamos 223 páginas e cerca de trinta anos da história norte-americana no sótão acarpetado do Manor House Motel.

Foos observa e relata as principais mudanças comportamentais pelas quais passou a sociedade norte-americana. A invenção da pílula anticoncepcional e a mudança na postura das mulheres em relação ao sexo, casais inter-raciais, swingers, orgias, homossexuais, bizarrices, toda uma experimentação no campo sexual começa a despontar e se normalizar por meio dos falsos respiradouros do Motel-Laboratório.

Gerald Foos conta da sua infância em uma área rural dos Estados Unidos, a relação com os pais e o irmão, o bom desempenho nos esportes e a experiência na Marinha. Um norte-americano classe média típico. Ou a imagem que fazemos desse tipo. Mas Foos rejeita a rígida moralidade americana, via de regra baseada na hipocrisia, e resolve levar a cabo a realização de seu grande prazer: observar. Abandona o lugar reservado a ele no sonho americano e segue os próprios impulsos.

O que vai sendo revelado no Diário, paradoxalmente, não é o mundo encantado do prazer, mas um lado amargo daquela sociedade que se apresentou como opção à falência da experiência europeia do pós-guerra. A vida administrada do capitalismo mostra ali sua jaula invisível de angústia, ressentimento e infelicidade nos mínimos detalhes da vida privada. Casais lindos e jovens sem desejo sexual, discutindo apenas como ganhar mais dinheiro. Jantares na cama com comida fast-food engordurada enquanto assiste-se televisão. Muita TV! A maioria das relações sexuais é monótona, mecânica, com as luzes apagadas ou completamente coberta por lençóis. Foos se desespera com a infelicidade conjugal.

Manor House Motel, em 1960 (Foto: Reprodução)

Manor House Motel, em 1960 (Foto: Reprodução)

As jogadas mais baixas ele observa de seu sótão: prostitutas enganando clientes, padres se masturbando com revistas eróticas para em seguida se mostrarem revoltados que uma publicação daquelas estivesse na gaveta do criado-mudo, traficantes vendendo drogas a garotos de doze anos e ameaçando suas companheiras. Estupros, pedofilia e até mesmo um assassinato são testemunhados por Foos. Nesta passagem, Talese, muito discreto até então, voyeur do voyeur, dá as caras: diz ter verificado registros policiais e não encontrado menção alguma ao crime. Parece mais preocupado em provar que não fora cúmplice, já que não houve crime, do que questionar a veracidade de Foos.

O processo empático de se aproximar das pessoas vai transformando o Voyeur, já que de longe ninguém é normal (contradizendo Caetano Veloso). Como ex-militar, ao observar veteranos da Guerra do Vietnã, que ou estão mutilados ou se vangloriando dos crimes cometidos naquele país, ele se torna crítico à guerra. Também passa a achar que qualquer que seja a forma que uma pessoa encontre prazer com o sexo, desde que haja consentimento mútuo, não há motivo para escândalo. Após observar dois homens trajando e se comportando como cabras durante o sexo, conclui: “Essa situação talvez pudesse ser classificada como perversidade, mas não deveria ser condenada porque ambos os indivíduos são participantes voluntários e, portanto, o Voyeur permanecerá não discriminatório em sua interpretação”.

Esse quadro de prazer misturado com desencanto, de Império com miséria, nos lembra a obra de outro grande escritor norte-americano: Philip Roth. E de fato há algo do velho Sabbath, do livro O teatro de Sabbath, em Foos. Há muita masturbação, felação, esperma, violência e humor na narrativa. Uma passagem rothiana por excelência descreve o momento em que o Voyeur atinge o orgasmo ao mesmo tempo que o homem que está recebendo sexo oral no quarto abaixo. A mulher da cena se espanta com o esperma na grade de ventilação e conclui que o amante havia mesmo acertado o teto porque o sabor era o mesmo! Há uma nota nesse trecho que diz: “Será que alguém vai acreditar que isso realmente aconteceu?” Talese afirma que sim porque ele viu a plataforma de observação.

Mas Sabbath é único. Ele vê o mesmo que Foos e dá um passo à frente. Mergulha naquilo tudo sem terceira pessoa para protegê-lo. Ele atravessa a hipocrisia não para denunciá-la, mas em busca de viver o que há de mais verdadeiro na experiência americana: o prazer lambuzado com a culpa imposta pela moral religiosa rígida e pelos deveres da vida burguesa. Uma culpa duríssima. Foos e Sabbath vivem a América como ela é. Mas Foos a vive como espectador. O mundo é muito ruim para que eu saia do observatório, ele parece nos falar. Mas é irresistível espiá-lo.

Foos não é um narrador confiável. Em determinado ponto do diário ele afirma que muitas vezes quem realizou as anotações descritas por ele fora sua esposa. Aqui entra um terceiro narrador. Mas um narrador invisível. Em quais partes a narrativa é de sua esposa, Donna? Ela teria, por pudor ou vingança, alterado partes da história? Quanto da subjetividade e do ressentimento de Donna, daquela que observou o marido observando outras mulheres por tantos anos, está presente ali?

Em uma carta enviada a Talese, já aposentado do motel e de sua atividade voyeurística, Foos afirma: “E agora o Voyeur e Gerald [Foos] são entidades separadas, totalmente desconectadas desde que seu mandato na plataforma de observação acabou”. Mas quem é o autor dessa carta que se refere na terceira pessoa a Foos e ao Voyeur? Deixar de ser o Voyeur não é deixar de existir?

A questão central desse livro repleto de vozes é procurar entender o que está escondido entre tantas camadas narrativas. Qual é o segredinho sujo da América que não poderia ser dito diretamente numa reportagem jornalística? Talese já havia aberto os detalhes mais picantes dos norte-americanos em A mulher do próximo. A questão não é o sexo.

O voyeur é um dos grandes romances americanos do século 21 porque em sua forma complexa escancara a ruína da sociedade que se apresentou como exemplar da modernidade a partir da década de 1950, ao mesmo tempo que nos coloca envolvidos nessa trama como observadores passivos da vida. A questão da ética do leitor está aqui em momentos decisivos: da violência ao crime, da corrupção de menores ao desencanto com todos os aspectos da vida contemporânea. Não há mais a estrada dos beatniks, as drogas dos hippies ou o consumo desenfreado de Wall Street. Ou seja, em um momento de profundo esgotamento ideológico, onde você se esconde? Em frente à TV? Parece ser essa a grande questão da América pós-crise de 2008 anunciada por Talese e seus narradores.

Voltemos ao problema da verdade naquilo que está dito por Foos e endossado por Talese. Se os pensadores contemporâneos nos levaram até a beira do precipício ao afirmarem que a realidade nem sequer existe, o fato é que não podemos viver sem a ideia da verdade. Esta anedota ilustra a questão: quando você estiver em um tribunal sendo acusado de algum crime que não cometeu, vai preferir um advogado empirista a um pós-modernista.

Não sabemos captar a realidade, mas sabemos (precisamos?) distinguir verdade de mentira. Alguns fatos são mais simples de serem verificados. Um ponto aparentemente muito básico dessa discussão nos foi ensinado com maestria por Antonioni em Blow-up: o testemunho único não tem valor. Como um dos jornalistas mais brilhantes do século 20 (e do 21?) aceitou sem questionar o testemunho único de Foos?

Parece-me que, do alto de seus 84 anos, Talese já atravessou muitas fronteiras para se preocupar com as taxas alfandegárias dos vigilantes empíricos. E que a autoidentificação com os dilemas de Foos era grande demais para ser deixada de lado.

No final do livro há, na forma de apêndice, uma entrevista com Talese para a Paris Review de 2009 na qual ele afirma que “Tudo o que tenho é uma curiosidade intensa. Tenho um grande interesse por outras pessoas”. Em A mulher do próximo, Talese também usou a terceira pessoa para se referir a si próprio: “Também queria enfatizar minha distância dos acontecimentos ao meu redor, mesmo quando estava dentro deles. […] Sou um observador em todos os momentos”.

E, fechando o livro, assim como Foos topou que seus diários fossem publicados com seu verdadeiro nome, Talese, sobre possíveis reações ao seu novo livro, afirma: “Eu não me importo mais. Isso é a melhor coisa da velhice. Quer dizer, o que eles podem fazer a mim? Quem são eles? Quem são eles?”.

Aqui, Foos, o Voyeur, Donna, Sabbath, Roth e Talese se encontram no desejo irresistível de mergulhar nas profundezas da América, custe o que custar.

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Tiago Ferro é editor da e-galáxia e da revista ensaios Peixe elétrico