Após seis anos de controvérsias, suposto caso de plágio de obra de Borges vai a julgamento

Poeta e novelista argentino que quis ‘engordar’ o conto 'O aleph' pode ser punido com até seis anos de prisão
O escritor argentino Jorge Luis Borges (Foto: Eduardo Di Baia/AP)

O escritor argentino Jorge Luis Borges (Foto: Eduardo Di Baia/AP)

Redação

“Engordar” o livro O aleph (1949), do escritor Jorge Luis Borges, 60 anos depois da sua publicação, foi o objetivo do poeta e novelista argentino Pablo Katchadjian em seu livro El aleph engordado, lançado em 2009. Com o dobro de páginas, o projeto de Katchadjian consistiu em adicionar 5.600 palavras, em sua maioria adjetivos e descrições, ao conto de Borges, originalmente publicado com quatro mil palavras.

O “remix” experimental, no entanto, foi encarado como plágio por María Kodama, viúva do consagrado autor argentino e detentora de seus direitos autorais. Em 2011, ela processou o poeta por fraude de propriedade intelectual argumentando que a história havia sido utilizada sem permissão.

Após seis anos de controvérsias, o caso vai a julgamento no dia 14 de fevereiro, na Argentina. Se declarado culpado, Katchadjian pode ser condenado a até seis anos de prisão. “El aleph engordado não é um plágio, porque nenhum caso de plágio é aberto sobre a sua origem [como o meu livro é]”, ele disse. “Não é nem uma piada que deu errado, ou que deu certo. É apenas um livro que escrevi baseado em um texto já existente.”

Nascido em 1977, em Buenos Aires, Katchadjian já havia realizado experimentos semelhantes. Em El Martín Fierro ordenado alfabeticamente (2007), por exemplo, ele reescreve um clássico poema épico argentino realocando os versos em ordem alfabética. Pelo seu caráter experimental e de pouca tiragem, que segundo o autor não visa lucros financeiros, El Aleph engordado recebeu apoio de escritores como Ricardo Piglia, César Aira, Claudia Piñero, Jorge Panesi e Carlos Gamerro.

A defesa do poeta argentino vem apontando, na própria obra de Borges, características como falsas citações, paráfrases e jogos de ironia com outros escritores para levantar questões sobre a escrita e a autoria. Um exemplo seria o conto Pierre Menard, autor do Quixote, do livro Ficções (1944), em que Borges inventa um autor francês que gostaria de reescrever Dom Quixote sem mudar nenhuma palavra do original.

O advogado de Kodama, no entanto, alega que o nome de Borges praticamente não é mencionado em El aleph engordado, dando a entender que se trata de uma obra original. No clássico conto borgiano, um porão de um casarão argentino, prestes a ser demolido, carrega o ponto que encerra toda a realidade do universo. A história é a última narrativa do livro homônimo.

Esse não é o primeiro processo judicial envolvendo a obra de Borges. Em 2011, a viúva também entrou com uma ação contra o escritor Agustín Fernández-Mallo por uso de material protegido por direitos autorais, obrigando a Editora Alfaguara a tirar de circulação o livro El hacedor (de Borges). Remake (2011). Os biógrafos Juan Juan Gasparini e Alejandro Vaccaro, e o tradutor de sua obra para o inglês, Norman Thomas di Giovanni, também já foram intimados a pedido de Kodama.

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