As arquiteturas na escrita de Murilo Rubião

Em “Murilo Rubião e as arquiteturas do fantástico”, Ricardo Iannace analisa a poética do espaço na produção literário do autor mineiro
O jornalista e escritor mineiro Murilo Rubião (Foto: Divulgação)

O jornalista e escritor mineiro Murilo Rubião (Foto: Divulgação)

Paulo Henrique Pompermaier

Passagens bíblicas, histórias de Borges e H. G. Wells, filmes de Hitchcock, quadros de Bruegel, Doré e Hopper são alguns dos elementos que o professor de pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da USP, Ricardo Iannace, utiliza em Murilo Rubião e as arquiteturas do fantástico para tecer outras interpretações dos contos do escritor mineiro.

O edifício, O bloqueio, A armadilha, O homem do boné cinzento e A diáspora são as narrativas selecionadas por Iannace para mostrar como prédios e edifícios tornam-se metáforas da condição humana na obra de Rubião. Essa é uma das novas leituras apresentadas pelo professor, que também aponta, em dois contos, um resvalo de Murilo em procedimentos da literatura dita comercial como forma de criticar, com humor, a indústria cultural.

“Foi um modo de tirar um pouco essa aura do Murilo como apenas um contista de sobriedade, de rigidez e meticulosidade com a linguagem. Foi uma forma de mostrar esse Murilo que também estaria, a partir de uma fachada, rindo e acenando para esses caminhos da indústria cultural”, afirma.

O universo da arquitetura é percebido em contos como O edifício e O bloqueio como metáfora da solidão humana, da impotência, da vontade de se multiplicar e se expandir, o que acaba em desespero. Cópias de manuscritos de Rubião, presentes no livro, indicam glossários de termos da engenharia civil e imagens de plantas de construções que eram utilizados na criação de seus contos. Apesar de se assemelhar a Kafka em seu “absurdo obscuro”, o mineiro distancia-se do tcheco pelo seu “viés mais lírico em certos momentos”, segundo Iannace.

Rubião compensava o obscurantismo de sua narrativa com a clareza da redação, o que o levava a reescrever seus textos diversas vezes. O convidado, de 1974, por exemplo, levou 26 anos para ser finalizado e até inspirou Paulo Mendes Campos a escrever O conto de 26 anos.

“Ele tomava essa clareza como necessária para que o leitor penetrasse em seu universo através de uma sintaxe que não o levasse a vieses sinuosos. É uma de suas grandes obsessões”. Como passou mais tempo no processo de reescrita, o autor acabou publicando pouco em vida: sua obra completa apresenta 33 contos escritos ao longo de 40 anos.

A produção modesta, no entanto, não diminui a importância do escritor falecido no dia 16 de setembro de 1991, na opinião de Iannace. O professor coloca Rubião como o introdutor da literatura fantástica no Brasil, ressaltando como ele possui um tom único que o difere de outros escritores do realismo mágico latino-americano.

Outro aspecto importante é a contemporaneidade de temas como o problema da identidade em mundo globalizado, presente no último conto analisado por Iannace, A diáspora. “O fantástico de Murilo transborda em aproximações com problemas atuais, como questões de migrações, hostilidade à cultura do outro, hibridismo e outros assuntos mais discutidos pelas ciências sociais atualmente.”

O lançamento de Murilo Rubião e as arquiteturas do fantástico, que acontece nesta quarta (14), às 18:30h, na Livraria da Vila, em Pinheiros, vem complementar a bibliografia do escritor juntamente com outras publicações que marcam seu centenário de nascimento neste ano.

Sua correspondência recebeu destaque: a Autêntica, em parceria com a UFMG, anunciou a publicação das cartas trocadas com Otto Lara Resende e a Edusp planeja publicar, ainda, sua correspondência com Mário de Andrade. Para Ricardo Iannace, isso demonstra o movimento de revalorização e resgate de Murilo, que não é mais visto através de lentes restritivas como apenas um autor mineiro.

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Murilo Rubião e as arquiteturas do fantástico
Ricardo Iannace
Edusp
176 pág. – R$ 38

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