A quarta onda do feminismo

Se não representa toda a força dos feminismos, o Dossiê tem a capacidade de ampliar a nossa compreensão sobre a força dos movimentos de mulheres
(Arte: Andreia Freire)

(Arte: Andreia Freire)

Carla Rodrigues

Este Dossiê reúne um conjunto de textos que, se não pode representar toda a força dos feminismos, tem a capacidade de ampliar a nossa compreensão sobre a força dos movimentos de mulheres. O primeiro artigo é de Magda Guadalupe dos Santos (PUC-MG) e tem a força de trazer a história das ondas feministas. A autora nos conduz não apenas pelo tempo, mas também pelos roteiros nos quais os feminismos se desenvolveram como um “projeto crítico” que, ao lutar contra a opressão às mulheres, acaba por reivindicar uma sociedade mais justa em diferentes aspectos.

De onde vem a importância do conceito de gênero trabalhado no artigo de Maria Luiza Heilborn (UERJ)? Forjado em um certo momento do século 20, a fim de enfrentar as consequências da hierarquia social e econômica entre homens e mulheres, o conceito de gênero tem uma história que cresce com a segunda onda feminista e uma fortuna crítica que emerge a partir do final dos anos 1990 com a necessidade de ampliar as reivindicações políticas para além dos binarismos, como masculino/feminino, sexo/gênero. Era preciso desestabilizar os pares que nos configuravam sempre ao número dois. Se a segunda onda feminista foi marcada pela construção do conceito de gênero, a terceira se pautou por questionar e tensionar o conceito até o limite da suas possibilidades de desconstrução, abrindo espaço para a configuração de outros gêneros, de outros sujeitos de direitos e de novos modos de fazer política.

Uma das estratégias dessa emergência foi dar novos significados a termos que pretendiam ser pejorativos. Foi assim que, em 2011, um grupo de mulheres em Toronto, no Canadá, organizou a primeira Marcha das Vadias, como conta Carla Gomes (UFRJ) em seu artigo. Diferentes reivindicações de diversas gerações de mulheres se encontraram nas ruas, recuperando a irreverência que havia marcado a segunda onda feminista e retomando palavras de ordem como “nosso corpo nos pertence” ou “meu corpo, minhas regras”, fazendo ecoar no presente as duras batalhas dos anos 1970.

O direito a ter um corpo não violável é um tema que mobiliza os feminismos negros, aqui apresentados pelo artigo de Djamila Ribeiro (Unifesp). Seu texto nos coloca diante do tema da interseccionalidade, passo fundamental para ir além dos discursos identitários. São as mulheres negras que, pontua Djamila, perturbam seriamente qualquer noção de “mulher” como categoria unitária. Perturbação necessária e potente dentro dos feminismos que, no caso brasileiro, vão começar a sentir o impacto político do movimento de mulheres negras a partir dos anos 1980, embora, como lembra a autora, desde os tempos da escravidão as mulheres negras já atuassem na reivindicação de direitos, na liderança dos quilombos, na luta cotidiana contra a opressão de raça, gênero e classe que até hoje infelizmente ainda se misturam.

Os textos na íntegra você encontra na Revista CULT de dezembro, que traz também o Especial ‘O desmanche neoliberal’, uma homenagem ao centenário do poeta mato-grossense Manoel de Barros e mais:

ENTREVISTA
– O pensador francês Christian Laval questiona: “Que grau de democracia tolera a ordem neoliberal do mundo?”, por Nilton Ken Ota

TEATRO
– As bacantes, do Oficina, rito e dionisismo no país da ordem e progresso, por Welington Andrade

LIVROS
O voyeur, a mais recente obra de Gay Talese, já pode ser considerada um dos grandes romances americanos do século 21, por Tiago Ferro

POESIA
– Três poemas de Meu semelhante, novo livro de Heitor Ferraz Mello