A comédia das letras de Silviano Santiago

Em "Machado", escritor e crítico mineiro desloca a história oficial da modernização do Rio de Janeiro enquanto constrói uma narrativa "sob medida" para Machado de Assis; veja entrevista
O escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago (Foto: Cláudio Nadalim/UFMG)

O escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago (Foto: Cláudio Nadalim/UFMG)

Paulo Henrique Pompermaier

Palimpsesto: palavra grega que indica um suporte de papel, normalmente um pergaminho ou papiro, no qual o texto primitivo foi raspado para receber um novo escrito. É essa palavra que o professor, crítico literário, escritor e pesquisador Silviano Santiago elege para representar seu recém-publicado romance, Machado (Companhia das Letras). Pois é a partir de uma profusão de vozes distintas, que incluem crônicas do século 20, jornais da época, história da medicina, da arquitetura, poemas e citações de Manuel Bandeira, Drummond, Breton, entre outros, que o romancista nascido em Minas Gerais retrata os últimos anos de vida do autor de Dom Casmurro.

Professor de literatura francesa por muitos anos nos Estados Unidos e doutor pela Sorbonne, Santiago usa como pano de fundo o último volume de Correspondência de Machado de Assis, que encerra suas cartas de 1905 até 1908, ano de sua morte, para erguer um grande panorama histórico e cultural do Rio de Janeiro no início do século 20. Entre as vozes que perpassam essa construção está a do escritor francês Gustave Flaubert. Santiago conecta o autor de Madame Bovary a Machado de Assis por meio de um traço particular aos dois: os ataques de epilepsia que ambos sofriam.

A doença é uma das causas que Santiago encontra para explicar a relação do autor de Quincas Borba e Mário de Alencar, filho do consagrado autor de Iracema. Sua relação íntima, explorada em Machado, é um dentre diversos elementos que Santiago ilumina para compreender as facetas complexas de Machado de Assis. Assim, compõe uma “comédia das letras”, que se desenrola bem longe das narrativas oficias do período: “Seria muito mais fácil seguir tudo o que está nos compêndios da história, todo mundo entenderia e iria ler. Mas nada disso está aí [no livro].” Em entrevista por telefone ao site da CULT, Santiago falou sobre detalhes da obra, seu processo de escrita e sua relação com Machado de Assis.

CULT – Você já escreveu outros romances com fundo histórico sobre Graciliano Ramos e Antonin Artaud. Por que escrever um romance sobre a vida de Machado de Assis entre 1904 e 1908?

Silviano Santiago –
A rubrica do romance não é tão importante. Por exemplo, eu chamei de ficção o livro Em liberdade [1981], que é um romance sobre o momento em que Graciliano Ramos sai da prisão. Esse conceito de biografia é muito estreito, fico com receio de utilizar. Por tratar de figuras de alto porte, neste romance eu misturo o lado biográfico ou ensaístico – porque quero dar conta também do tipo de trabalho que eles fazem -, com uma dose do que eu chamaria de ficção, que significa liberdade. São esses três elementos que compõe o tipo de livro que eu faço, obviamente um tipo de escrita híbrida. Tenho uma visão de biografia por meio dessa escrita híbrida.

Talvez por isso, em certos momentos, seu estilo se aproxime ao de Machado. Quando você invoca o acaso como um motor da sua narrativa, por exemplo, ou nas suas brincadeiras com datas e nomes semelhantes.

Eu não sei se a palavra estilo seria boa, porque cada livro que escrevo tem um estilo. Em liberdade, por exemplo, é um diário falso de Graciliano Ramos, eu imito o escritor, a escrita dele. O que é importante, ao meu ver, é a epígrafe de Machado, que possui a ideia do palimpsesto. A citação de Thomas de Quincey. Você está com o livro em mãos? Incomoda-se de lê-la?

“O que é o cérebro humano senão um palimpsesto natural e poderoso.”

Entende? O cérebro humano para mim é isso. Quer dizer, o cérebro do criador é um palimpsesto, ou seja, ele é feito de várias camadas que se referem ao vivido, ao lido, ao visto, e assim por diante. É isso o que é importante no tipo de livro que eu escrevo. É tentar apreender a biografia como palimpsesto de um protagonista. Porque são personagens que têm uma vida íntima riquíssima, uma vida pessoal extraordinária, uma vida profissional que se destaca, e além do mais, uma vida criativa que os coloca praticamente como gênios da literatura brasileira. É isso que eu tento apreender, essas várias camadas, do vivido, do lido, do visto, do profissional; a camada do criador.

O seu livro, nesse sentido, é quase uma história cultural do Rio de Janeiro, resvalando por tópicos como crônicas da época, a história de palacetes, peças de teatro, a evolução da medicina, a modernização do Rio. Com quantos documentos, e quão variados, você teve que lidar para escrever esse livro?

A grande novidade do livro não é apenas um detalhe emblemático da vida de Machado de Assis. O mais importante é que as narrativas feitas por cientistas sociais desse período muito importante da capital federal – conhecido como “bota abaixo” – são canônicas. No Brasil existe isso, as pessoas ficam repetindo sempre as mesmas coisas. O cânone do período é a Revolta da Vacina, Oswaldo Cruz, encilhamento, e assim por diante. E, neste livro, eu o desloco: no lugar de Revolta da Vacina falo sobre o Hospital dos Alienados, em lugar da febre amarela menciono a epilepsia; em lugar de Oswaldo Cruz aparece Miguel Couto e assim por diante. É outra narrativa que construo sob medida para Machado de Assis. Em lugar de julgar o que se conhece em história em Machado, em sua compreensão, tento mostrar como é que Machado de Assis interagia com essa cidade.

E nisso você traz outros personagens e traça a história deles também.

Claro, são os personagens secundários. Se você abrir a história da literatura brasileira, não vai encontrar Carlos de Laet [jornalista, professor e poeta], Mário de Alencar [filho de José de Alencar], que são pessoas importantíssimas no universo de Machado. Esse é o jogo do livro. Faço um esforço de conhecimento de um protagonista, de uma época, da modernização. A meu ver, o interessante de Machado é uma certa ironia. É que Machado morre no momento em que a cidade em que ele nasceu está se modernizando. Ele diz: “Eu morro no exílio”, e essas são palavras verdadeiras que eu coloco no livro, porque ele achava que estava morrendo no exílio naquela cidade elogiada por todos, a nova Paris dos trópicos.

Isso já é apontado na crítica machadiana, essa modernização que chega aos trópicos às avessas, abrasileirada. Você, de certo modo, historiciza isso, relaciona a vida de Machado às passagens de livros e anotações dele.

Todos os grandes leitores de Machado já falaram sobre isso, mas do ponto de vista que eu estou chamando de canônico. Ou da história das ideologias, ou da história do Brasil. A novidade, por assim dizer, é que eu estou tratando da relação entre vida e obra. A primeira coisa que se ensina hoje em Letras é para esquecer o autor e ler apenas o texto. Esse tipo de trabalho que eu faço é para tentar ver a relação estreita entre vida e obra.

É muito interessante a relação que você estabelece entre Memorial de Aires e Esaú e Jacó para fazer aquela brincadeira com a simetria, o ideal republicano fragmentado nas obras de Machado.

Exatamente. Toda a fala oficial da modernização insiste no equilíbrio, na ascensão, nos valores iluministas, a instrução, a educação, o saber, a biblioteca. E Machado de Assis, como tento mostrar, tem uma visão convulsiva de tudo isso. Essa convulsão não é gratuita, é a própria doença que ele tem, a epilepsia. Essa é uma das graças do livro também. Mas eu estou explicando muito meu livro, isso é perigoso [risos].

Desde o início você já joga com a epilepsia ao colocar o Gustave Flaubert, a doença dele.

Claro, é uma das graças do livro. E Machado sabia, ele fala de Flaubert, da doença dele. E, obviamente, como eu fiz doutorado em literatura francesa, conheço razoavelmente essa bibliografia, que me ajudou muito. Na literatura brasileira há pouquíssima coisa sobre a epilepsia de Machado. Então, Flaubert serve como uma espécie de muleta para eu entender melhor Machado de Assis.

Você também faz essa relação aquilo que Carlos de Laet escreve sobre a ligação entre a arte e a doença.

Aquilo é verdadeiro. Laet é a única pessoa que viu literalmente um ataque de Machado de Assis no meio da [rua]Gonçalves Dias, naquela época a mais importante do Rio de Janeiro. Ele viu e descreveu. Eu uso a descrição que ele fez, publicada no Jornal do Brasil depois da morte de Machado, e a sigo, mais ou menos, ao pé da letra.

Você disse que nenhuma história da literatura iria abranger Mário de Alencar, e nesse romance ele adquire um peso fundamental em relação a Machado de Assis. Foi com ele que Machado deixou cair sua máscara para ter uma relação mais íntima? 

Essa coisa da adoção de Mário por Machado como pai espiritual é uma interpretação minha. Mas é inegável que são amigos íntimos. A pessoa que mais amparou Machado afetuosamente foi Mário de Alencar. A correspondência dos dois é enorme, os depoimentos e tudo mais. Agora, infelizmente, Mário é um vitorioso às reversas. Ele entra para a Academia Brasileira de Letras graças ao apoio de Machado, mas os jornais acabam com ele porque Mário vai para o lugar de Domingos Olímpio, um grande romancista. Tudo isto está lá [no livro] e tudo isso é verdade. Eu tento apreender uma camada muito pessoal, que se mistura com a camada profissional, que se mistura também com a camada da criação. Mário de Alencar tenta enlouquecidamente escrever algo de valor naquele período e infelizmente não consegue. O livro é um pouco a comédia das letras, é isso que eu gostaria de passar. Ele tem certa complexidade de estrutura, de organização e de narração. Perdão pela falta de modéstia, mas eu quis ser bem ambicioso.

No livro, você descreve de forma bem poética seu contato com a correspondência de Machado. Como foi o contato essas cartas?

O problema desse livro é que não foi simplesmente sentar e escrever. Ele corresponde a, possivelmente, 60 anos de leitura de Machado de Assis. Eu não li todo esse material de um mês para o outro, de um ano para o outro. Isso aí são mil e uma anotações, artigos, aulas sobre Machado. Eu tenho uma profusão de ideias, observações, críticas que me possibilitaram escrever esse romance em dois anos e meio. Eu tinha tudo isso guardado em papeis, anotações de livros, na memória. E, por outro lado, associei esse material a novas pesquisas. Eu li, por exemplo, muitos jornais da época, e, sobretudo, a parte de medicina, os grandes dicionários médicos do século 19, o tratado de homeopatia escrito pelo avô de Mário de Alencar, que foram muito úteis para essa parte de descrição de doenças, remédios, e somo ainda um semanário que era publicado no Rio, de altíssimo nível, chamado O brasil médico. Tudo isso foi novidade para mim, eu não tinha essas leituras, e isso me deu certa garantia para poder escrever de maneira respeitosa e, ao mesmo tempo, eu espero, com conhecimento de causa, sobre uma coisa tão complexa como a epilepsia.

Você não se restringe apenas a uma história.

Voltamos ao palimpsesto [risos]. Minha intenção é exatamente que o palimpsesto percorra todo livro e, principalmente, sob medida para compreender a obra de Machado de Assis, sua personalidade, sua importância, as posturas políticas, a reflexão sobre a economia brasileira daquele período. Tudo isso foi minha intenção. A própria questão religiosa, que eu tive coragem de abordar também, é uma novidade. Eu comecei a pensar que não era gratuita essa constante alusão de Machado de Assis à Bíblia, que é um suporte magnífico em sua obra, e, no entanto, ninguém toca nisso. Uma das hipóteses que levanto é a recorrência da epilepsia nos textos bíblicos, como naquele quadro “Transfiguração de Rafael” [impressa na primeira página do romance]: em cima, Cristo sendo reconhecido por Deus e, embaixo, os discípulos diante de um epiléptico, trazido à presença deles pelo pai. Uma tela estranhíssima, dividida em dois, bem como a obra de Machado [risos]. E isso é constante. Minha própria tese é de que o Mário é dado como epiléptico, e aí corre uma história – que eu acho de quinta categoria – de que Mário seria filho de Machado de Assis pois ambos eram epilépticos, mas tudo indica que Mário de Alencar nem era epiléptico e tampouco filho de Machado, a não ser no sentido espiritual. Ele foi uma pessoa muito bondosa e muito generosa com Machado nos últimos anos, um grande amigo e, possivelmente, a pessoa que o reconfortou moralmente, fisicamente e até medicinalmente. Eu não sei qual era o teor dos diálogos, mas houve muito entre eles. Nesses diálogos, há outra parte muito importante sobre a história da medicina no Brasil, que é o momento em que homeopatia e alopatia começam a brigar entre si. O momento em que Machado começa a ter essas crises epilépticas coincide com o momento do meu interesse, mas a narrativa da época é sobre a Revolta da Vacina, não se fala do Hospital dos Alienados, das pesquisas em epilepsia. Esses deslocamentos são muito importantes no livro. É um livro que pretende ter não apenas leitores de literatura, mas historiadores, sociólogos, médicos, e assim por diante.

E você pensou em escrever esse livro daquela forma que descreve no início, quando viu o quinto volume das correspondências de Machado?

Não. Já o meu livro anterior, Rosas roubadas [2015] é o que eu estou chamando de romance da sobrevida, da sobrevivência. Na literatura, tradicionalmente, há o romance de formação e eu comecei a me interessar, nos últimos anos, por esse romance da sobrevida, sobre essas pessoas que vivem um pouco mais que o normal. Nesse caso, Machado de Assis. Isso tem muito a ver com a minha vida, eu estou fazendo 80 anos. É isso o que me interessa, essa relação entre vida e arte. Eu não poderia ter escrito esse livro aos 30 anos. Aos 40 eu escrevi Em liberdade, Stella Manhattan [1985], que são explosões de alegria, de vida, de esbanjamento de energia. Agora cabe a mim escrever outras coisas.

Há aquela passagem em que você diz prolongar o relato para que auto represente a “lenta destruição do corpo deste que escreve”. Isso é muito forte.

Toda minha literatura é muito forte, até meio escandalosa. Eu não escrevo livros didáticos. A literatura brasileira só gosta de livros didáticos. Eu não escrevo isso. Sabe aquela coisa, você vai ler um livro de 1964 e, de antemão, já sabe o que vai ler, a narrativa oficial do que aconteceu em 1964. Eu não faço isso, meu livro não é uma narrativa oficial. Se é boa ou mal eu já não sei, mas a minha intenção não foi seguir um cânone. Seria muito mais fácil seguir tudo o que está nos compêndios da história, todo mundo entenderia e iria ler. Mas nada disso está ai. O livro vai apresentando tudo isso como novidade e como uma narrativa alternativa sobre o período, uma narrativa sob medida para a personalidade de Machado de Assis.

Como aquela citação que você faz sobre o Beckett, a fábula do costureiro que demora seis meses para fazer uma calça sob medida.

Exatamente, são anos de pesquisa para fazer sob medida. É a ironia beckettiana, machadiana, flaubertiana, que é o universo do livro e que, certamente, é o meu universo. Isso também não é gratuito, a gente escolhe e escreve sobre aquilo que ama.

Você deixa isso explícito no livro, nos diversos paralelos que traça entre a sua vida e a de Machado.

Exatamente, isso é importantíssimo. Há uma coincidência realmente dele morrer no dia em que eu nasço, ou eu nasço no dia em que ele morre [risos]. Essas coisas são engraçadas, eu acredito nisso, nesse acaso. Desde jovem eu soube que havia essa coincidência e é gozado. Isso acaba tendo significado. De uma maneira muito aleatória, mas acaba tendo certo sentido. Da mesma maneira que se você tiver o mesmo nome de outra pessoa acaba havendo uma reflexão sua sobre aquela outra pessoa. São essas coisas que me interessam, mas aí são muito mais os jogos do acaso.

São essas relações, bem sutis, que tecem o livro.

Bem, por um lado é muita arrogância da minha parte [risos]. Mas eu acho que todo criador é arrogante. Se não for, voltamos à história do didata, e eu não sou um narrador-professor. Não vou explicar nada, vou acabar com isso. Os acontecimentos têm que ser vistos de maneira crítica, não há como acreditar que aquilo que ocorria no início do século 20, a modernização do Brasil naquela mesma época em que começam as favelas no Rio de Janeiro, seja o progresso. É isso o que o livro tenta mostrar com fatos muito concretos. Eu não gosto de discursos políticos muito abertos. Em um determinado momento eu dou o salário das pessoas que fizeram a avenida Central e o preço de aluguel de um cortiço, e mostro isso de maneira muito evidente, que o que eles ganhavam por mês não dava para pagar o aluguel de um quarto em um cortiço. É por isso que eles passam a morar nas favelas. Machado vive esse mesmo absurdo: é um senhor doente que vê o preço do chalé que alugava aumentar absurdamente. Isso está no livro de uma maneira dramática, não conceitual.

Você se sentiu mais íntimo de Machado após escrever esse livro?

Acho que não. Nossa intimidade é muito antiga, desde a juventude eu leio Machado. Não que eu lesse o tempo todo, eu sou muito infiel nas minhas leituras. O livro já é expressão de uma intimidade, mas eu não me tornei mais íntimo. Da mesma forma como Em liberdade já é uma expressão de intimidade com Graciliano Ramos, Viagem ao México é uma intimidade com Antonin Artaud, e assim por diante. São autores que eu prezo, admiro, e que estão na minha formação. E como, no Brasil, o intelectual raramente é personagem de romance, achei que era um buraco vazio que eu podia, em virtude da minha formação, dos meus interesses, da minha própria vida, preencher, de certa maneira.

Em certo momento você cita uma passagem de um livro de Machado dizendo “não sei se copio da história ou do romance”, indicando a sincronia e mistura entre os acontecimentos históricos e a ficção de Machado de Assis. Pode-se dizer o mesmo da construção de seu livro?

Sim, claro. Meu livro é convulsivo, vai pra frente, pra trás, para o lado. Se não me engano, foi Roberto Schwarz quem disse que o narrador de Machado de Assis era um bêbado. O que eu tento mostrar é que ele não era um bêbado, mas um convulsivo. Por isso ele vai pra frente, pra trás, tem uma digressão aqui para depois retomar, comentar, não comentar. A atualidade de Machado não é gratuita. Por que ele é atual e Aluízio de Azevedo ou até José de Alencar não são? Eu acho que é um pouco isso, é um indivíduo que conseguiu elaborar esteticamente, de maneira muito mais atrevida, corajosa, a sua proposta de criação literária. Breton costuma dizer que todas as grandes figuras do passado, Homero, etc, foram surrealistas. Poderia acrescentar naquela lista Machado de Assis. E por isso vem uma coisa extremamente fascinante: Breton era um psicanalista, tinha um conhecimento muito profundo das novas ideias desenvolvidas por Freud. E tudo indica que Machado não sabia muito de Freud, mas chega a ele por meio da própria doença, para tentar apreender a própria estrutura do romance a partir da visão de que ele tem, uma visão muito especial, muito particular. É isso o que fascina em Machado de Assis, e que não fascina em quase nenhum outro escritor.

Você coloca bastante a figura de Machado como esse homem que realmente entendia a complexidade do ser humano.

Pois é. Em um país ou de grande otimismo ou de grande pessimismo – agora na época do pessimismo [risos] -, Machado de Assis não vai para nenhum dos dois lados. Ele é niilista. Que é uma atitude rara no Brasil. O niilista é uma figura muito destrutiva, é a destruição pela destruição, a crítica pela crítica. Não tem uma finalidade, por assim dizer. As narrativas dele não tem um sentido, são complexas, esculhambam nossa cabeça.

E seu romance segue esse aspecto machadiano do niilismo?

Claro. Não é à toa que a capa é um rinoceronte. Eu aprovei aquela capa porque gostei dessa ideia. É um livro feroz, não é um livro que acalma. Exatamente o oposto de Paulo Coelho [risos]. Nenhuma frase ali foi pensada para acalmar o espírito, é feroz. E eu acho que é uma maneira de poder descrever essa concepção que eu tenho, essa leitura que eu tenho de Machado de Assis, da obra dele, da importância dele, e da garantia de imortalidade dele. A garantia de imortalidade dele não é por ter fundado a Academia Brasileira de Letras [risos], a garantia é a obra dele. E por isso a figura final da transfiguração e o verso de Mallarmé, “a eternidade que o transforma nele próprio”. A vida dele é pouco perto do que a eternidade lhe dará.

capa silvianoMachado
Silviano Santiago
Companhia das Letras
R$ 69,90 – 424 págs.