Blog do Alberto Pucheu

O que pode fazer a correnteza

O Houaiss nos deixa saber mais sobre aquela correnteza que arrasta e situa os poemas de Simone Brantes em um entre – fluxo de água que transita entre estar à tona e ir ao fundo, estar acordado e estar dormindo

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por Flavia Trocoli

Do livro de Simone Brantes intitulado Quase todas as noites, começo por um poema que, à primeira leitura, opera por acréscimo: “Quem tem boca/vai a Roma à tona ao sumo à dona ao rumo ao fundo ao fundo da cona”. Ele é o quarto da seção intitulada “A moça sonha” e antecipa o corpo que dará título à seção seguinte, ainda sem fazer par com o adjetivo “estranho”. Estranha é a operação, à segunda vista. O ponto de partida é o clichê, todos sabem e, talvez, alguma vez todos tenham dito, que quem tem boca vai a Roma; no poema, quem tem boca vai à Roma e também ao fundo do fundo – à cona, em duas linhas se é arrastado de Roma para um fundo sem fundo, erotizando o clichê – ao passar de Roma para dona até cona. Da boca que fala a uma outra que tem uma língua, o leitor talvez se lembre que Roma é anagrama de amor, que, aparecendo em letras invertidas desce até o corpo a gozar. Esse caminho a um fundo invisível (de que, diga-se de passagem, Pedro Almodóvar tenta fazer imagem) não deixa de fazer ressoar, retroativamente, a pergunta do poema “As moças” – Como, como -/ por que poder de Deus/ – as moças/ se comem se comem se comem/com as coxas? Deixada sem resposta, mas colocando-nos entre as pernas, a pergunta deságua no título seguinte “O sol na cama”, que, por sua vez, em mais uma retroação, presentifica dois versos de um poema anterior: “no sonho não há sombra/só claridade”. Ressonâncias e movimentos que me fazem pensar que não é sem o corpo que a moça sonha e que, se esse sonho contém o encontro de um corpo com outro corpo, se neles não-há, a pergunta é como fazer? Trazer à luz do sol (na cama), à tona,uma boca sem palavra, um corpo sem pênis, mais de um sonho sem interpretação, em que no umbigo, no sem sentido, aparece a correnteza.

Em “Sonham-se”, que se declina também no singular – “sonha-se”, afinal não há um eu consciente que sonha, depois de se destacar a variedade dos sonhos em cores, em extensão, em diferença e em repetição, com vivos e com mortos, lembrados e esquecidos, diz-se que quem sonha é a filha que se esforça para contar: “um sonho em dois episódios/entre a salvação/ e a morte/ do meu pai/Entre um tumor benigno/e o maligno/Entre o pensamento mágico/e sua impotência”. No primeiro episódio, que parece misturar o sonho aos restos diurnos, joga-se bola, e o pai quase morre, a bola cai no rio e a correnteza inverte seu curso e a devolve. No segundo episódio, o pai já está morto de câncer, a bola cai de novo no rio, mas dessa vez a sonhadora é imobilizada por três cachorros “e então a correnteza/pode fazer apenas/o que pode fazer a correnteza.” Essa suspensão arrasta o leitor à página seguinte, ao poema seguinte: “Se a morte é coisa certa/então no alto da escada/me invade a certeza de que já estou morta”. Em sua segunda aparição, quando o pai já está morto, não se pode dizer o que faz a correnteza, ao contrário, ela torna-se o próprio limite daquilo que se esforça para contar. Sem contar a morte do pai, o sonho e o poema transformam-nas em correnteza que deságua na página seguinte na morte da própria sonhadora, eis “o que pode fazer a correnteza” e, sobretudo, o que podem fazer o sonho e o poema ao dizerem o impossível da morte do pai e de quem escreve.

Mais adiante, é “voltando do Fundão” que a correnteza arrastará da intenção de compra numa farmácia, aquilo que é corrente, para um não-ter que o ato falho coloca em cena. Não-ter que precisará aguardar a potência do sonho para que, de outro lugar, se leia, dormindo. Talvez no fragmento mais narrativo do livro, o eu aparece para tentar interpretar um ato falho do qual escapa a “chupeta” (para o bebê que acabava de chegar!) para inscrever “bochecha” e aparecer “buceta”: “A marca é a marca do sexo […] Eu tento interpretar isso, mas preciso de mais palavras, estas ainda não chegaram de dentro das palavras que tenho no momento. Preciso colocá-las – como se faz com os bebês que choram sem que saibamos por que – para dormir.” Talvez para que eles sonhem “dentro do sonho a lucidez”.

O Houaiss nos deixa saber mais sobre aquela correnteza que arrasta e situa os poemas de Simone Brantes em um entre – fluxo de água que transita entre estar à tona e ir ao fundo, estar acordado e estar dormindo. Correnteza remete também àquilo que é “corrente”, vigente, corriqueiro, claro (a claridade sem sombra do sonho!), evidente. Correnteza e corrente, feminino e masculino, entre, neutro, a ordem do quarto onde se escreve e a desordem da língua em que se escreve, entre o clichê que se desmonta e o gozo de um fundo sem fundo. Talvez esse entre, preposição (?), seja um desdobramento do advérbio quase que indetermina todas as noites no título: não-todas as noites a correnteza faz o que ela pode, não-todas as noites sonha-se, não-todas as noites ama-se, não-todas as noites morre-se. Nas orelhas que emolduram os poemas, Caio Meira nos diz que “Se os mortos aparecem e somem, seja nos sonhos, em velhas fotografias ou nas lembranças inerentes a determinados objetos e lugares, é para abrir na realidade as brechas doloridas por onde transitam os poemas.” Façamos uma torção nas palavras do poeta para dizer que os poemas de Simone Brantes são as próprias brechas – entre sonho e realidade, entre o ato falho e o sonho, entre ela e o outro, entre ela e o corpo, entre ela e os mortos, entre as pernas, entre a bochecha (que rasura chupeta) e a buceta – por onde transitam a dor e o prazer, a morte e o amor.

Essas brechas-poemas despertam o leitor para os seus próprios mortos, para o seu próprio corpo estranho, para ler na última seção um título – “No caminho de Suam” e uma epígrafe – “Tudo vale a pena quando a alma se apequena.” Suam não é Swann, aquele que, tendo vindo para o jantar, faz o beijo da mãe demorar, não é o apaixonado por Odette, antecedendo os ciúmes do narrador da Recherchepor Albertine. Assim como a alma, depois de Pessoa, se apequena, para, talvez,em outro tempo, continuar a “passar alémda dor”. E, de certo modo, Proust e Pessoa voltam a se avizinhar algumas páginas adiante em dois poemas: “Res” em torno do tempo – “verdadeira coisa extensa” e “Mar”, depois de certas perdas: 1. a alma que não é pequena; 2. o “portuguez” que acompanha o título do poema de Pessoa em “Mensagem”; e 3. o Swann que nos separa do instante amoroso, lê-se:

Mar

Aquele dia quando voltávamos

do cemitério –

a pequena serra e o mar

em grandes goles, lá fora

a pele se cobria

de azul de sol de maresia

a vida eu pensava

é só isso

o amor é só o fio

que nos ata

(enquanto pode)

à superfície

O poema termina aqui e me arremessa para trás, é preciso nadar contra a correnteza, e agarrada fragilmente ao fio do amor, volto a dormir e a sonhar, para fazer de Pessoa e de Proust, da poeta que sonha e morre e ama, da vida que é só isso, “um feixe amoroso/de ossos”. A carregar antes “que a terra nos seja leve”, eis a tarefa pela qual o livro começa.

Die Aufgabe

Chegar em casa um pouco mais

do que cansada e puxar ainda assim

e aos poucos o fio longo da mortalha

até fazer da noite sair enfim um dia

dentre todos os dias a morrer na praia

 

 

Meus mortos não estão encarapitados
no alto das árvores
não são eles que balançam
os galhos quando eu passo nos dias de calmaria
não estão debaixo da terra nem voam pálidos
sobre minha cabeça debaixo do céu azul
Aparecem nos sonhos e desparecem
quando são cinco ou seis da manhã
meus mortos são covardes
não têm coragem
de viver

Izabela sonha

Depois de mil e
tantas tentativas
de falar com o pai
sonha dentro do
sonho a lucidez:
o meu pai morreu
A bordo do sonho
desembarca em casa
o telefone toca
é o pai
(minha filha)
o silêncio sonha

Sonham-se

Sonham-se sonhos coloridos ou em preto e branco
sonhos que se repetem toda noite ou toda manhã
antes de despertar
Sonham-se sonhos com mortos ou com vivos
com quem morreu e com quem
irá
Sonham-se sonhos repetidos
à risca
ou com algumas diferenças
sonhos camuflados em
outros sonhos
Sonham-se sonhos longos ou
curtos
sonhos que se chamam pesadelos
A alegria, o prazer, o gozo
não alteram o nome sonho
Sonha-se no sonho com quem já se namorou
ou com quem nunca se namorará
Sonham-se sonhos com multiplicação de coisas
lentes de contato que se reproduzem até
o ponto em que quem sonha não sabe
mais qual lente
é a verdadeira lente
que deverá pôr no olho
para garantir a visão
Noites após o papagaio foge
e quando é procurado na floresta
há uma floresta apinhada de cópias de
papagaio
Sonham-se sonhos dos quais se pode lembrar
e sonhos que não se podem contar
para ninguém ou para alguém
Sonham-se sonhos premonitórios
mas absolutamente inócuos
Sonham-se sonhos também
a prestações
como episódios de um seriado
da Netflix
ou da televisão

2.

É este sonho em episódios que
me esforço
há anos
para contar
um sonho em dois episódios
entre a salvação
e a morte
do meu pai

Entre o tumor benigno
e o maligno
Entre pensamento mágico
e sua impotência

3.

Não é já o sonho
mas a realidade que o irriga
Na beira do rio tinha uma estrada estreita
onde jogávamos bola
eu e todos os garotos da rua
Eu entrava com a bola e eles
com a fome
Quando a bola caía no rio
um deles
equilibrava a queda e a descida
pela ribanceira
e voltava com ela
debaixo do braço

 

Então
da primeira vez que meu pai
quase morreu
eu estava lá
de novo mas sozinha com a bola
que caía outra vez
no rio
e era dessa vez
a própria correnteza
que invertia seu curso
e a devolvia

4.

Quando meu pai
morreu de câncer de pâncreas
dez anos
atrás
eu voei em sonho
para essa mesma margem
de rio
a bola caiu nele de novo
mas três cachorros negros
chegaram do nada
e me prenderam
firmemente
pela perna de modo que eu
não podia me mover

e então a correnteza
pôde fazer apenas
o que pode fazer a correnteza

Flavia Trocoli é professora do Departamento de Teoria Literária da UFRJ. Membro-fundador do Centro de Pesquisa Outrarte – a psicanálise entre a ciência e a arte, sediado no IEL/UNICAMP. Autora de A inútil paixão do ser: figurações do narrador moderno (2015), coorganizou livros de Teoria Literária e de Psicanálise, traduziu, com Carla Rodrigues, Demorar: Maurice Blanchot (2015), de Jacques Derrida.