Mostra em SP exibe produção audiovisual indígena

A Bienal de Cinema Indígena, que começa nesta sexta (7), quer refletir sobre estereótipos e a relação com a Terra por meio de filmes, programas de TV e videoclipes produzidos por povos tradicionais do Brasil
aldeia

Isael Maxakali (foto) filma cena do filme “GRIN”, que será exibido na mostra Aldeia SP (Divulgação/Aldeia SP)

por Paulo Henrique Pompermaier

Ressaltando a força da mulher e dos conhecimentos dos povos originários, a mostra Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena, chega ao Centro Cultural São Paulo (CCSP) nesta sexta (7). Na programação, que vai até a próxima quarta (12), há 53 filmes produzidos por indígenas brasileiros, além de atividades e debates com dez diretores. A partir de segunda (10) a Bienal se estende para os cinemas dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs). A programação completa pode ser conferida aqui.

Os títulos que integram a mostra são diversos. Há desde filmes que tratam de combatividade, das lutas pela terra e dos mitos tradicionais de alguns povos, por exemplo, até videoclipes e programas de TV produzidos por eles. “Nós pensamos na curadoria como uma maloca indígena, onde tanto o ritual como o cotidiano estivessem presentes”, explica Pedro Portella, cineasta, antropólogo, fotógrafo e um dos curadores da mostra, que é coproduzida pela SPCine.

Portella conta que o principal critério para a escolha da produção audiovisual que entraria na programação foi a diversidade em termos de regiões e etnias, com um olhar especial para o trabalho das mulheres. Nos filmes dirigidos por elas, são mais presentes temas como arte e agricultura, enquanto no caso dos homens, aparece mais o xamanismo e o ritual, de acordo com o curador. “Nosso processo civilizatório é uma loucura. E todas as crises da Terra são de um sistema patriarcal. Nos abrir para as mulheres desses povos, que sabem como viver neste planeta, é ter um panorama de futuro”, diz Rodrigo Arajeju, advogado, ativista, cineasta e também curador da mostra.

As primeiras produções indígenas começaram na década de 1980, por meio do trabalho antropológico de Terence Turner junto das aldeias Kayapó. Mas, no geral, a produção audiovisual desses povos se intensifica a partir de 2010, segundo os curadores, com a atuação de diversas ONGs e coletivos como o Vídeo nas Aldeias e o Espalha a Semente, que organizam oficinas de formação cinematográfica nas aldeias. Uma forma de “colocar a tecnologia a serviço dos valores tradicionais [indígenas], de se apropriar dela para retratar os seus valores, a sua história, sua cultura”, diz Arajeju.

Pedro Portella explica que a produção indígena carrega peculiaridades próprias de cada povo tanto no formato quanto nos temas dos filmes. Os Kayapó, por exemplo, que vivem dispersos junto aos afluentes do Xingu, filmam sem muitas edições e, assim como seus rituais, seus filmes também são mais longos. Já os Yanomami tem outra relação com o equipamento fotográfico: tradicionalmente, não relembram os mortos.

Hoje, as filmagens dos povos tradicionais têm um papel fundamental dentro das comunidades, segundo Portella. Além de servirem para propósitos educacionais — há filmes de rituais proibidos produzidos apenas para exibição educativa dentro das aldeias –, também ajudam no resgate da própria memória dos povos. Arajeju conta que os indígenas começaram a empunhar as câmeras para repensar o próprio passado e recordar tradições que estavam sendo esquecidas com a morte dos anciãos. “E trazer a autoafirmação identitária dos indígenas para o reduto dos bandeirantes é realmente uma oportunidade de sair do estereótipo e repensar a História.”

Aldeia SP – Bienal de cinema indígena
Quando: Até 12/10
Quanto: grátis
Onde: CCSP (rua Vergueiro, 1000, Paraíso) e CEUs (Aricanduva, Butantã, Casa Blanca, Heliópolis, Inácio Monteiro, Meninos, Paraisópolis, Parque Anhanguera, Parque Bristol, Pera Marmelo e Vila Atlântica)