Lavoura Arcaica e a utopia por um mundo melhor

Para Luiz Fernando Carvalho, romance de Raduan Nassar ecoa a voz dos “famintos que não são aceitos na mesa dos satisfeitos demais”. Há 15 anos filme estreava
Simone Spoladore (Ana) e Leonardo Medeiros (Pedro) em cena de Lavoura Arcaica (Foto: Repodução)

Simone Spoladore e Leonardo Medeiros em cena de Lavoura Arcaica (Foto: Reprodução)

Eric Campi e Paulo Henrique Pompermaier

Antes mesmo do início das filmagens de Lavoura Arcaica, que há 15 anos fazia sua estreia nos cinemas brasileiros, toda a equipe se isolou em uma fazenda. Lá, havia oficinas teóricas ministradas por convidados como Leonardo Boff, e outras em que as atrizes aprendiam, por exemplo, a marcar os passos da Dabke, a dança folclórica árabe que aparece na clássica cena da grande roda. “Éramos felizes”, afirma o cineasta Luiz Fernando Carvalho, diretor do filme.

Baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, publicado em 1975, Lavoura Arcaica ganhou mais de cinquenta prêmios internacionais e é considerado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

A narrativa conta a história de André (Selton Mello), jovem do meio rural que foge de casa, cansado das cobranças do pai autoritário (Raul Cortez). Sua mãe (Juliana Carneiro da Cunha), então, manda Pedro (Leonardo Medeiros) atrás do irmão, que retorna e vive uma relação incestuosa com a irmã, Ana (Simone Spoladore).

Ao ter contato com o romance de Nassar, Carvalho foi “correndo para as entrelinhas daquela coisa”. Ali, encontrou uma metáfora política que expõe o embate entre opressores e oprimidos, tradição e liberdade, além de um texto que “clama pela utopia de um mundo melhor, mais belo e justo para todos”. “Minha fome naqueles tempos era trabalhar com a linguagem, com essa alquimia invisível, com qualquer coisa que me desmentisse, que bagunçasse minhas certezas”, relembra.

Para o escritor e psicanalista Renato Tardivo, autor de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica, o filme é uma das mais importantes obras do cinema brasileiro “de todos os tempos”. “Se o embate de André, narrador-protagonista, era com a palavra do pai, o embate do filme é com as palavras do livro: o longa traz o livro para dentro de seus olhos.”

Em entrevista ao site da CULT, Luiz Fernando Carvalho relembra momentos das gravações e fala sobre os temas contidos nas entrelinhas do romance de Raduan Nassar.

CULT – Como a prosa de Raduan te motivou a adaptar a narrativa poética de “Lavoura Arcaica”? 

Luiz Fernando Carvalho – Aquele livro é uma porta. Ou você entra ou não entra. Ao leitor é dada esta escolha, como quem caminha sobre um fio de navalha. Pode-se desistir na segunda ou terceira página. Antes, porém, caberia ali constar um aviso do poeta Jorge de Lima: “Se vós não tendes sal-gemas, não entreis nesse poema”.  Uma enorme convergência nasceu entre a alma do texto e o meu momento de vida.  Vai ver as minhas cicatrizes estavam abertas. Compreendi porque aquela prosa só deveria existir daquela maneira. O drama em si não é novo, como todos sabem, trata-se da eterna luta entre a tradição das leis paternas versus a ânsia pela liberdade de um filho torto, seu desejo de alçar vôos, arrebentar cercas. Mas Raduan é um poeta, um criador que mexe nas entrelinhas da coisa e, portanto, os conteúdos desta fábula mítica acabam se estilhaçando em mil direções, transformando tudo em um caleidoscópio gerador de linguagem – entendendo-se linguagem como fruto de uma necessidade, uma questão de vida ou morte. E a minha fome naqueles tempos era trabalhar com a linguagem, com essa alquimia invisível, com qualquer coisa que me desmentisse, que bagunçasse minhas certezas. Fui logo correndo para as entrelinhas daquela coisa.

O filme utiliza uma estética que se aproxima do barroco, distanciando-se daquele naturalismo do começo dos anos 2000 presente em Cidade de Deus, O Invasor e Carandiru, por exemplo. Por quê?

O cinema, como qualquer manifestação artística, quer mesmo é discutir a vida. O que me interessa nas minhas tentativas não é outra coisa senão tocar na vida! O resto eu quero me afastar cada dia mais. Não excluo qualquer possibilidade de se alcançar o humano por conta deste ou daquele gênero. Não é uma questão de gênero – pouco importam os vocabulários. Não acredito em regras que possam vender soluções. Tudo é tentativa. Importa, sim, é a coragem de remexer bem fundo, de não fugir se agarrando à estilizações e por aí vai. No meu modo de sentir, quando vamos ao cinema, vamos à procura de vida! Mas, se por outro lado, não houver uma mínima diferença entre a vida que vemos e vivemos do lado de fora da sala de cinema e a vida contida em uma tela iluminada por imagens, não faz o menor sentido entrarmos no cinema. Essa diferença é a linguagem, a experiência do cinema em si.

Quais histórias te marcaram mais durante as gravações?

No período de preparação, isolados na fazenda, nosso exercício diário era composto de oficinas teóricas e práticas. As teóricas eram ministradas por convidados, como Leonardo Boff, entre outros. As práticas ensinavam as atrizes a fazer o pão, a bordar, a dançar a dança do ventre e a marcar os passos do Dabke – a dança da grande roda. Tudo isso acontecia ao lado das leituras e das grandes sessões de improvisação sobre o livro. Todas as manhãs nós ordenhávamos, preparávamos a terra, arávamos (no método arcaico, puxado por bois), semeávamos grãos de milho e feijão. As mulheres tinham uma horta só delas, com tomates, alfaces, rabanetes e pequenas folhas. Era chamada por nós de “a horta da Mãe”. Quando chovia, todos corríamos para a janela e ficávamos contentes. Quando chovia muito nos preocupávamos com o feijão. Fiz questão do trabalho dos atores com a terra por não crer nestas preparações corporais importadas, que obrigam os atores a assumirem posturas sem uma íntima ligação com o contexto real. Queria uma preparação de corpo à brasileira. Então a nossa gestualidade foi ministrada pelos peões da fazenda: “Seu” Bernardino, Batuca, nossos mestres na ordenha, no cabo da enxada, na lavoura. Éramos felizes.

O que a narrativa pode trazer para o debate, 15 anos depois?

Entre as inúmeras reflexões que o Lavoura propõe, podemos entender o texto como uma grande metáfora política, expondo a luta entre opressores versus oprimidos; a tradição versus a liberdade individual. Leio muitas vezes como um oratório sobre o extermínio das liberdades, sejam elas individuais ou coletivas; este mesmo extermínio que nos levam às guerras dos dias de hoje, gerando milhares de excluídos pelo mundo todo. No texto ecoa a voz dos que são postos à margem, dos que gemem, daqueles famintos que não são aceitos na mesa dos satisfeitos demais. Sem falar da relação entre a ordem e a desordem do mundo, que no livro alcança patamares míticos, mas que também encontra lugar em uma espécie de espelhamento da realidade do nosso próprio país e as suas instâncias de poder, se revelando então como um texto que clama pela utopia de um mundo melhor, mais belo e justo para todos.