Pérola do cancioneiro

Exposição no Itaú Cultural exalta a poesia de Cartola. Para neta e “guardiã de suas memórias”, o músico representa a importância dos compositores oriundos das favelas como fazedores de cultura
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Cartola no desfile da Mangueira. Foto: Walter Firmo, Rio de Janeiro, RJ

 

por Paulo Henrique Pompermaier

No ano em que o samba completa 100 anos, o Itaú Cultural homenageia um dos maiores sambistas da música brasileira: Cartola. Em sua 31ª edição, a “Ocupação”, dedicada agora ao compositor carioca, procura recuperar um Cartola que se revela um grande poeta.

A Ocupação, que acontece até o dia 13 de novembro, é dividida em seis eixos temáticos, que vão do Rio de Janeiro de 1908, quando Cartola nasceu, até homenagens e interpretações de suas músicas feitas por artistas contemporâneos. Entre os dois polos, a narrativa passa por suas parcerias, pela história do Zicartola – primeira casa de samba do RJ –, a fundação da Mangueira, além de fotos e depoimentos ligados aos seus relacionamentos e gravações musicais.

A cantora Fabiana Cozza, uma das curadoras, diz que o maior desafio foi “apresentar Cartola sem cair nas armadilhas dos estereótipos que não revelam o artista e sua obra, ao contrário, reduzem-no”. Por isso, os curadores optaram por ouvir e ler o próprio Cartola em vídeos, áudios, entrevistas com amigos, parentes e parceiros. A intenção era trazer para a Ocupação a própria voz do sambista, de acordo com Cozza.

Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, morou com o avô desde os 14 anos. Foi sua “cuidadora, secretária, parceira e estudiosa”, como relata, e hoje se considera “guardiã de suas memórias”. Ela afirma que o compositor representa a “importância dos compositores oriundos das favelas como fazedores de cultura. Pessoas simples que foram capazes de construir a principal referência identitária do brasileiro”.

“Cartola é daqueles raros compositores que consegue associar uma incrível capacidade melódica e rítmica com poesia de excelente nível, dando contornos de ótimo padrão àquilo que se costumou designar como canção popular”, afirma José Geraldo Vinci de Moraes, coordenador do grupo de pesquisa Entre a Memória e a História da Música, da USP.

É justamente a poesia de Cartola que a exposição ressalta: cada visitante recebe um livreto com 12 poemas inéditos, “um sonho que ele nutriu em vida, mas que não conseguiu concretizar”, diz Nilcemar. Para ela, a Ocupação “pretende romper barreiras de uma sociedade partida, e que agora começa a assumir a importância de Cartola, um homem negro de baixa escolaridade e poeta intuitivo, porém capaz de criar preciosidades para nosso cancioneiro”.

Ocupação Cartola
Onde:
Itaú Cultural, av. Paulista, 149
Quando: Até 13/11; ter. a sex. das 9h às 20h; sab. dom. e feriados das 11h às 20h
Quanto: grátis