Igualdade na tela

Mostra no CCBB, que começa nesta quarta (21), quer aumentar a visibilidade de cineastas latino-americanas e chamar a atenção para disparidades de gênero na indústria cinematográfica
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Cena do filme venezuelano “Pelo Malo”, de Mariana Rondón (Divulgação)

por Eric Campi

“As mulheres necessitam de uma voz que nos represente. Quem melhor para falar de um indivíduo do que seu par”? Com essa frase, a cineasta argentina Sofia Torre definiu o objetivo principal do projeto Mulheres em Cena, da qual é uma das curadoras. A mostra, que acontece simultaneamente no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo e do Rio de Janeiro, a partir desta quarta (21), exibirá 18 obras de grandes diretoras latino-americanas contemporâneas e contará com debates gratuitos sobre o papel da mulher no meio cinematográfico. Na programação, há até títulos novos como Mãe só há uma, de Anna Muylaert, e Trago comigo, Tata Amaral. 

“Nós escolhemos as cineastas que consideramos fazer parte da primeira geração latino-americana. São mulheres dos 45 aos 50 anos, que romperam muitas barreiras, que conseguiram passar do nível nacional ao internacional em questão de reconhecimento e prêmios”, explica a curadora Andrea Armentano. “Todos os filmes que serão apresentados tratam da realidade latino-americana, apresentam olhares políticos, sociais, de diversidade sexual ou preconceito.”

O projeto surgiu quando Sofia e Andrea faziam pesquisas para criar uma mostra de cinema latino e perceberam que havia pouquíssimas mulheres diretoras realmente reconhecidas. “Se você analisar o Festival de Cannes, que tem 70 anos de existência, apenas uma mulher ganhou a Palma de Ouro [Jane Campion, em 1993]. Não é uma questão de chamar atenção, é uma questão de dados históricos, de que a mulher recebe um cachê menor, de que a mulher é subjugada. É mais do que urgente que haja uma sororidade para debater esse tema”, afirma Andrea.

Mesmo que diretoras brasileiras — representadas na mostra por Anna Muylaert, Tata Amaral, Laís Bodanzky e Lúcia Murat — tenham recebido maior destaque nos últimos anos, há países da América Latina em que a produção de mulheres é ainda mais escassa. No Paraguai, por exemplo, o filme La Hamaca Paraguaia, de Paz Encina, foi o primeiro em 30 anos a ser dirigido por uma mulher no país. O longa foi lançado em 2006.

O reconhecimento, portanto, é importantíssimo para mudar essa perspectiva. Andrea Armentano garante que “todas as mulheres da mostra têm a mesma qualidade que os homens da mesma geração, mas às vezes eles são mais reconhecidos. Queremos ter uma equidade. A relação não é de gênero, mas sim artística”.

As organizadoras pretendem estender o itinerário da mostra para chegar em outras cidades do Brasil e, também, em outros países, para que a América Latina possa conhecer a própria filmografia. Como exemplo, Andrea conta o caso de Adélia Sampaio, “a primeira diretora negra brasileira que não consta em nenhum registro historiográfico”. Se Sofia Torre explica o fato afirmando “que a história é escrita por homens”, já passou da hora do cinema ser comandado, também, pelas mulheres.

Confira a programação completa aqui.


Mostra Mulheres em Cena
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112)
Quando: Até 10/10
Quanto: De R$ 5 a R$ 10; debates gratuitos
Info: culturabancodobrasil.com.br/mulheres-em-cena