Os cadernos negros de Heidegger

Pesquisador alemão herdeiro de um desses documentos revela seu conteúdo
O filósofo alemão Martin Heidegger (Fred Stein Archive/Archive Photos/Getty Images)

O filósofo alemão Martin Heidegger (Fred Stein Archive/Archive Photos/Getty Images)

Roberto Barros e Rico Gutschmidt

A partir de 1931 até o começo da década de 1970, Heidegger utilizou diversos cadernos de notas com a capa na cor preta, nos quais deixou uma série de anotações e esboços, que não eram, em princípio, destinados à publicação. Na década de 1950, várias de suas preleções e alguns desses cadernos foram entregues a Dorothea Vietta, para serem transcritos. A senhora Vietta datilografou esses escritos, que lhe foram presenteados posteriormente pelo próprio Heidegger, que havia mantido com Dorothea mais que uma relação de amizade.

Silvio Vietta, professor emérito da Universidade de Hildesheim, herdou de sua mãe esse precioso tesouro. Em meio à polêmica suscitada pela publicação de parte desses cadernos no final do ano passado, que reviveu o debate acerca do engajamento de Heidegger com o nazismo, o professor Vietta não apenas doou sua “herança” ao Arquivo de Literatura Alemã, em Marbach, como também escreveu um livro no qual coloca sua própria posição em relação a este debate. Leia abaixo entrevista do professor concedida à Revista CULT

CULT: Como chegaram até o senhor os Cadernos negros e outros manuscritos originais de Heidegger?

SILVIO VIETTA: Minha mãe, Dorothea Vietta (1913 – 1959) recebeu do próprio Heidegger muitas de suas preleções e também os Cadernos negros para transcrição. Ela então datilografou estes cadernos. Dessa relação de trabalho desenvolveu-se nos anos 1950  uma estreita relação amorosa. Heidegger deu para ela como presente os textos que ele então lhe pedira para transcrever.  Muitos dos textos têm uma dedicatória pessoal a Dorothea Vietta. Evidencio isso também no meu livro Heidegger – Existência ambivalente e crítica à globalização, que será publicado no outono pela editora Fink, de Munique.

Como foi a sua relação pessoal com Heidegger?

Ela se deu a partir da relação pessoal de meus pais com ele. Pois o meu pai também teve uma relação amigável com ele. Desde 1931 eles trocaram cartas. Essa correspondência está hoje, conjuntamente com os póstumos de Egon Vietta, no Arquivo Alemão de Literatura, em Marbach. Heidegger esteve frequentemente como hóspede em nossa casa em Darmstadt, mesmo quando eu ainda frequentava a escola. Em abril de 1958 ele leu na minha casa um diálogo de Platão, com minha mãe, comigo e um pequeno círculo. Durante os meus anos de universidade em Freiburg, entre 1966-68, o visitei com frequência na sua casa, no Rötebuckweg. Normalmente me era permitido chegar logo após o meio-dia. Eu fazia então um pequeno passeio com Heidegger na Floresta Negra e ficava, em geral, para o jantar com ele e com sua esposa.

O senhor conversou com ele sobre a filosofia, isto é, sobre questões filosóficas ou políticas em geral?

Sim. Na época eu era monitor (studentische Hilfskraft) do sucessor de Heidegger na universidade, o judeu Werner Max. Heidegger se interessava muito, nos seminários, pelo trabalho filosófico, mas também pela agitação estudantil iniciada em 1968. Eu então podia contar-lhe coisas a respeito. Mas, conversávamos também sobre temas atuais, como a ascensão da linguística e da cibernética naquele período. Antes de tudo, Heidegger via isso de forma crítica. Nesse período ele me presenteou com seus próprios exemplares da Filosofia da linguagem, de Humboldt e dos Fragmentos dos pré-socráticos. Heidegger lamentou muitas vezes que a capacidade para a análise fenomenológica estivesse em declínio.

Ele se manifestou com o senhor a respeito de seu envolvimento com o nacional-socialismo alemão?

Relativamente pouco. Isso ainda não era na época nenhum grande tema, como se tornou a partir de uma série de publicações, como as de Victor Farias, Emmanuel Faye e outros. Quando, certa vez, falei com ele a respeito, ele disse: “em 1933 tudo ainda não estava tão claro”. Sim, isso também não é falso. Muitos judeus acreditavam em 1933 que poderiam chegar a um acordo com o regime. Todavia, o antissemitismo se tornou a cada ano mais terrível e excludente. Consequentemente, em 1934, Heidegger retirou-se da política. Durante os seus anos de Reitorado, ele nada fez como apoio à política racial do Terceiro Reich. Pelo contrário, se recusou a afixar os cartazes contra judeus na Universidade de Freiburg, proibiu a queima de livros em 1933 e ele mesmo não fez, em nenhum discurso neste período, qualquer declaração antissemita. Devido a isso, foi também criticado pelos nazistas. Eu possuo a edição de Ser e tempo de 1935 – este já era o período das leis raciais de Nuremberg. Heidegger teve a coragem na época de imprimir a grande homenagem a seu professor judeu no livro: “A Edmund Husserl, com devoção e amizade”. Todavia, em 1942 ele precisou retirá-la, mas pôde manter sua veneração a Husserl em uma nota de rodapé.

Como o senhor interpreta a diferença de opiniões entre alemães e franceses? O editor da obra de Heidegger na Alemanha, Peter Trawny fala de um “escrito antissemita visceral” e o editor francês, Francois Fédier, afirma que se tratariam de “falsas suposições”.

Na minha perspectiva, a discussão alemã segue – não é tanto assim na Áustria – uma via equivocada. Não é plausível, nem filológica nem filosoficamente, que Heidegger quisesse culpar os judeus de uma conspiração fictícia por aquilo que aconteceu. Ele não mencionou a suposta conspiração mundial sionista em nenhum dos cadernos negros e até mesmo em nenhuma passagem de suas mais de trinta mil páginas publicadas. Ou seja, é pura especulação querer atribuir-lhe isso. Mas, essa insinuação também é, filosoficamente, sem sentido. Heidegger critica a globalização do pensamento calculador em conexão com uma “predatória” ganância do homem, enquanto consequência da história do Ser ocidental. De todo modo, descrevi essa expansão da racionalidade em meu livro Racionalidade: Uma história mundial (Munique, 2012). É simplesmente um contrassenso insinuar que Heidegger quisesse remeter a globalização do pensamento calculador à provável conspiração de um comando inteiramente judeu. Fédier tem razão: Heidegger provavelmente não conheceu estes pseudo-documentos sionistas – que eram pura ficção. Ele viu a participação dos judeus na globalização, isto é, como elite financeira, mas não foi nenhum obscuro teórico da conspiração. Trawny, e com ele parte da discussão alemã, se equivocaram neste ponto.

No debate atual é defendida a posição segundo a qual o antissemitismo constitui o centro da filosofia de Heidegger. Como o senhor considera esta acusação?

Penso que é necessário fazer uma distinção clara aqui entre crítica civilizatória aos judeus e antissemitismo racista biopolítico, como Gobineau e Chamberlain defenderem no século 19 e, posteriormente, Hitler. Esse foi o programa de aniquilação de uma raça, tal como Foucault também claramente vê. Heidegger nunca se relacionou, de maneira alguma, com o sentido desse programa terrível. Em 1928, escreve a sua mulher acerca dos seus estudantes: “os melhores são – judeus”. No fim dos anos 1930, menciona criticamente em poucas páginas nos cadernos negros o talento dos judeus para o “pensamento calculador”. A sua falha foi não ter reconhecido que os judeus enquanto povo também foram histórica e culturalmente pressionados na Europa. A eles não eram acessíveis as profissões práticas formais. Mas a sua crítica civilizatória aos judeus precisa ser claramente separada do racismo biopolítico. Isso, porém, não tem um significado central na sua crítica da globalização.

Antes do atual debate, o senhor pensou em colocar o seu exemplar dos Cadernos negros à disposição da pesquisa?

O Caderno negro sob minha propriedade era herança de minha mãe e advém dos anos de 1945-46. Há poucas semanas, o doei ao Arquivo Alemão de Literatura, em Marbach, onde agora está disponível à pesquisa.

O seu exemplar contém ainda algum material explosivo, que eventualmente seria interessante para o corrente debate?

Não há nenhuma passagem de crítica aos judeus, porém passagens críticas ao desenvolvimento das universidades e da ciência. Heidegger viu cedo que as ciências nas universidades seriam transpostas a uma espécie de sistema operacional técnico-econômico e que com isso o próprio pensamento crítico seria levado a retroagir. Essa visão, se pensarmos na nossa atualidade, não era tão falsa.

Na sua opinião, quais consequências para a pesquisa filosófica sobre Heidegger na Alemanha e exterior trará o debate acerca dos Cadernos negros?

Propriamente os Cadernos negros não trouxeram nenhum ponto de vista novo acerca do assim chamado antissemitismo de Heidegger. Faço sempre a diferenciação entre crítica aos judeus e o antissemitismo biopolítico assassino dos nacionais-socialistas. Com estes, Heidegger nunca teve algo a ver. Ele sempre criticou, desde cedo, os judeus, como nas suas cartas a Elfride Heidegger, de 1916 e 1920, assim como nos Cadernos negros, na medida em que eles, como elite modernizadora – tal como Heidegger os percebeu – impulsionaram uma civilização desenraizada, que ele combateu. Novo, nos Cadernos negros, são as suas críticas à civilização e à globalização. Apresento isso no meu novo livro, já mencionado acima.

O senhor pensaria em consequências decisivas?

A crítica civilizatória de Heidegger clama por uma inflexão de pensamento. Creio que hoje nós entendamos isso muito melhor, digamos, que em 1950, pois nossa civilização se dirige a um perigoso ponto de colapso. Heidegger vê os homens não como exploradores, mas como “pastores do Ser”, portanto no papel de “sustentação” da natureza. Isso é mais atual que nunca.