Entrevista com Sérgio Sant’Anna

Sergio Sant’Anna, que lança “O conto zero e outras histórias”, fala sobre memória, suas vivências no exterior e lembranças que viraram ficção

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por Paulo Henrique Pompermaier

Com uma obra marcada pela oscilação, na qual as experimentações linguísticas talvez sejam as únicas constantes, o escritor carioca Sérgio Sant’Anna lança seu 19º livro, “O conto zero e outras histórias”. Nascido em 1941, o escritor publicou seu primeiro livro aos 28 anos, estreando como contista. Apesar de ser o gênero que melhor define sua carreira, suas experiências formais já o levaram ao teatro, ao romance e até à poesia.

Ganhou três prêmios Jabuti, um Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional e um Prêmio Portugal de Literatura Brasileira. Sua obra também já foi adaptada para o cinema, no caso de A senhora Simpson e Um crime delicado, e conta com traduções de seus livros em várias línguas, como o alemão, francês, italiano, espanhol e checo.

Em “O conto zero e outras histórias”, Sérgio Sant’Anna traz vozes de seu passado para compor as dez narrativas que o volume encerra. São histórias que remetem à sua vivência em Londres, onde se mudou aos 12 anos; desilusões amorosas em Belo Horizonte; sua participação, em 72, do Programa Internacional de Escritores de Iowa; suas experiências fortemente marcadas pelo Rio de Janeiro; versos juvenis rasgados e lançados ao mar.

Relembrando o texto Advertência sobre os escrúpulos da fantasia, o escritor italiano Luigi Pirandello disse que a ficção “é metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos; a construção, frequentemente complexa, que fazemos de nós mesmos ou que os outros fazem de nós. Portanto, um mecanismo sim, em que cada qual deliberadamente, repito, é a marionete de si mesmo”. Uma afirmação na qual o novo livro de Sérgio esbarra, ao transitar imperceptivelmente entre suas lembranças e construções ficcionais. Um jogo no qual sua própria vida transforma-se em “marionete” para sua imaginação fecunda.

 

CULT: Por que intitular o livro “Conto zero”, se o “momento zero” era aquele que “você não conservava uma memória e era como se fosse ninguém”, nas suas palavras? 

Sérgio Sant’Anna: Primeiramente eu gosto do título. E “O conto zero” é quando eu vou pegando minhas memórias de infância e chega um momento que elas se apagam, não resta nada. Foi a partir disso que surgiu o livro e, por isso, aquele é o “Conto zero”.

Qual o limite entre realidade e ficção em um livro ficcional tão marcado pelas lembranças?

O livro é marcado pelas lembranças, mas eu me permiti colocar ficção dentro da realidade. No conto “Flores brancas”, por exemplo, aquela vivência minha em Venda Nova com a Letícia, que era minha mulher na época, tem muito de realidade. Em compensação, todo aquele quebra-quebra no ônibus é exagerado.

Em seu primeiro romance, Confissões de Ralfo, a autobiografia aparece como uma ficção, a imaginação de um escritor.  Mais de 40 anos depois você escreve um livro que tem suas recordações pessoais como mote contínuo. Nesse tempo, o que mudou na sua forma de encarar seu passado e seu próprio trabalho literário?

Eu já escrevi muita ficção e aí de repente eu resolvi explorar a memória. Achei que a memória era uma fonte muito boa de material para a ficção. E senti que esse era um momento de usar a realidade. A mudança foi essa decisão de mergulhar na memória.

“O verdadeiro escritor começa por ser um crítico severo de si mesmo”, você escreveu em um artigo de Sérgio Sant’Anna – Um autor em cena. Esse é um dos motivos do uso da recordação pessoal, rememorar-se criticamente?

Eu não fui tão crítico em relação ao passado. Eu fui crítico em relação à forma de colocar isso no conto. Mas o passado é algo que não pode mudar. Alguém já disse “A única coisa que Deus não pode mudar é o passado,” né? Então foi mais uma seleção entre fragmentos do passado que me pareceram interessantes. Lembranças que ainda me moviam bastante na hora de escrever o livro e colocar na ficção.

Você já chegou ao conto que te “redimiria de tantos outros, talvez até te eximisse de escrever”, como diz no “O conto”? É aquele da moça na passarela?

“O conto” é uma grande reflexão sobre o ato de escrever um conto. Sobre essa busca contínua que todos os autores empreendem. Para isso busquei um conto que fosse forte. E essa narrativa da moça foi a escolhida por ser bem dramática. Sua força dramática me levou a colocar como “O conto” que eu estava procurando.

Nesse mesmo conto você estabelece um embate entre a arte romântica, lírica, e a arte crua, da realidade da rua. Qual o papel social da arte, em sua opinião?

A arte precisa sair para refletir as coisas, como a realidade. Então o papel social da arte é colocar em cena os dramas da existência e os dramas sociais que, em um país como o Brasil, estão ao seu lado. Mesmo no conto “Flores brancas” aquela confusão no ônibus é uma realidade social. Eu não busco fazer arte engajada, mas ela surge, ela me toma devido à realidade brasileira que é bem difícil e dramática.

A cidade, seja o Rio de Janeiro, Iowa City, Londres ou Praga, aparece diversas vezes em seus contos. Qual a sua relação com o meio urbano? Você costuma ter ideias literárias durante suas flanações?

A cidade do Rio de Janeiro está muito presente em minha ficção. E Londres também foi uma experiência que me marcou muito. Eu tinha apenas 12 anos e, entre todas as viagens internacionais que eu fiz, essa primeira foi a que mais me ensinou, mais mexeu comigo. Até hoje eu guardo isso dentro de mim e, por isso, surgiu agora no livro. Para Praga eu fui especificamente descrever aquela realidade. Eu ficava flanando em Praga para captar as coisas da cidade. Foi uma coisa muito intencional. Mas o Rio está muito presente pois é o meio ambiente em que vivo, que acaba me tomando na minha ficção. Acaba sendo o cenário de grande parte da minha literatura.

Como foi fazer parte de grandes momentos de efervescência cultural, como no descrito no conto “Vibrações”?

Aquela vivência foi a melhor experiência que tive em minha vida. Aquele tempo que passei em Iowa foi o período mais fértil, mais interessante que eu vivi. Tanto é que no “Vibrações” eu pude falar com várias pessoas, de vários países. No meu entender esse é o melhor conto do livro, pois ele mergulha, retrata uma comunidade internacional. Então são muitos personagens de diversos países. E eu fiz uma enumeração deles, fui falando como eles eram, como agiam, o que escreviam. Lá tive uma convivência tão intensa que não escrevi nada. O programa visava dar tempo para a gente escrever, mas era uma experiência tão interessante que ninguém escrevia nada. Acabava vivendo para escrever depois, como aconteceu comigo. Quando eu voltei, comecei a escrever a principio algumas coisas que estão no “Vibrações”, mas depois parei completamente. Fui retomar 45 anos depois. Mas eu queria preservar aqueles momentos, e acho que consegui.

E por que retomar agora, depois de 45 anos?

Porque eu sentia que, de algum modo, aquilo tinha que entrar na minha ficção. Foi uma experiência única com uma série de pessoas que eu nunca mais vou ver na vida. E cada uma era muito interessante, tanto pela captação de suas particularidades de diferentes nacionalidades, como por traçar um retrato para o leitor de uma época distante.

Além de Clarice Lispector, já citada em “A bruxa”, quais outras escritoras/escritores influenciaram sua carreira literária?

Tem o Machado de Assis também, que cito no conto. Tem muitos escritores que me influenciaram, pois leio de tudo. Mas na hora de escrever procuro ser eu mesmo, sem transparecer minhas influências na escrita.

E atualmente você tem lido o que?

Eu procuro ler algumas coisas contemporâneas para saber o que está se passando. Mas no momento eu estou relendo “Zero” do Ignácio de Loyola Brandão, que é um excelente livro. Também releio pois vou participar de um evento em SP junto com o Ignácio, Bernardo Carvalho e Luiz Ruffato.

Seu livro tem muitos contos marcados pela metalinguagem também, como “Bastidores”…

Minha literatura é marcada pela metalinguagem. Eu sempre usei e até procuro escapar disso um pouco hoje em dia, porque a palavra metalinguagem na verdade está um pouco gasta. Mas quase inconscientemente, quando estou escrevendo, acaba entrando uma reflexão sobre o ato de escrever.­


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