A biblioteca Borges, 30 anos depois

Jorge Luis Borges é relembrado por estudiosos e por quem conviveu de perto com ele

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 por Helder Ferreira

María Kodama gosta de dizer que teve três primeiros encontros com Jorge Luis Borges, escritor argentino com quem se casou em abril de 1986, pouco tempo antes de sua morte, no dia 14 de junho, em Genebra, há três décadas.

No primeiro, aos cinco anos de idade, quem o apresentou foi uma professora que sempre lhe fazia um resumo de suas leituras: “Ela leu “Two English poems” de Borges, que me impressionou pelo uso da expressão ‘fome do coração'”, relembra. “Para uma menina de cinco anos, a única fome possível era a do estômago. Perguntei à professora o que era aquilo e ela me disse que, quando crescesse, entenderia que a fome do coração é o amor”.

No segundo aos 12 anos, quando já se interessava por estudar literatura e escrevia, um amigo de seu pai a levou para assistir a uma conferência do escritor. A sala estava cheia e ela, que sempre foi apaixonada por ensinar – “Porque achava que era a coisa mais bonita que um ser humano poderia fazer: abrir a mente do outro” –, sabia que jamais seria capaz de falar à uma classe lotada como aquela. “Eu era muito tímida e falava muito baixo”, conta. Mas algo mudou quando viu aquele senhor, que parecia muito mais tímido que ela, falar e impressionar tanta gente. “Disse a mim mesma: se ele consegue, eu também consigo”.

No terceiro, quando tinha 16 anos, teria início um relacionamento que se estenderia por 33 anos: caminhando rápido por uma rua no Centro de Buenos Aires, a então estudante de secundário, acabou esbarrando em Borges. Depois de se desculpar, ela lhe contou que, quando pequena, assistiu uma palestra sua. “Sim, porque agora é grande, não é?”, ele ironizou. Quando Kodama mencionou que era estudante, ele a convidou a aprender inglês antigo, do século 9. “Inicialmente, recusei, porque seria muito difícil, mas aceitei depois que ele disse que estudaríamos juntos porque ele tampouco sabia anglo-saxão”. Passaram, então, a se encontrar regularmente nas confeitarias da cidade durante os anos 1950. Duas décadas depois, após Borges se separar de sua primeira mulher, Elsa Astete, e perder sua mãe, Leonor – que faleceu, em 1975, aos 99 anos –, ela se tornaria sua secretária literária, acompanhando-o em viagens ao exterior.

“Minha relação com Borges foi maravilhosa, única. Imagine que o conheci quando adolescente e, 30 anos após sua partida, sigo com ele”, conta María Kodama, que hoje é presidenta vitalícia da Fundação Internacional Jorge Luis Borges. Desde 1988, quando a instituição foi fundada, ela se dedica a manter vivas a obra e a memória do marido, mas prefere delegar questões muito burocráticas, como gestão de direitos autorais. “Minha responsabilidade é o que diz respeito a permissão do que podem ou não fazer com sua obra”, conta. “É uma grande responsabilidade, e não se resume a fazer o que quero ou o que outros querem, mas o que ele queria”.

Quem também, na adolescência, conheceu o autor de A biblioteca de Babel foi Alberto Manguel, escritor argentino naturalizado canadense. Entre 1963 e 1967, ele foi os olhos de Borges, que então, cego, queria revisitar clássicos em prosa de escritores como Rudyard Kipling e Henry James. “Quase toda tarde, eu lia, por duas ou três horas, os contos que ele escolhia”, conta. “Ele me interrompia praticamente a cada frase para fazer algum comentário”.

Uma dessas interrupções recorrentes ficou marcada na memória de Manguel. Ele lia um dos contos de Kipling quando, ao ouvir uma passagem sobre “tigres fantasmas”, Borges disse: “Tinha me esquecido desta imagem. Se pudéssemos escolher lembrar nada além de coisas amáveis como esta, talvez a vida fosse mais feliz. Mas talvez nosso dever seja ser feliz e nosso destino seja ser infeliz”, relembra ele. “Parti para a Europa e vivi o resto da minha vida sob a sombra dessas palavras”, afirma.

“Eu aprendi muito com seus comentários, mas nunca esqueci que esses apontamentos eram para ele mesmo, não para mim”, relata Manguel. “Ele me ensinou sobre a generosidade da leitura e sobre o prazer que um leitor precisa sentir”.

Em julho, o escritor voltará a residir em Buenos Aires para assumir o posto de diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, mesmo cargo ocupado por Borges de 1955 a 1973. Em sua homenagem, planeja converter o edifício da antiga sede da instituição, onde Borges trabalhou, em um centro dedicado ao estudo de sua obra.

Borges e María Kodama / Foto: Divulgação

Borges e María Kodama / Foto: Divulgação

Borges no Brasil

María Kodama acompanhou o autor de O Aleph em sua segunda e última visita ao Brasil, em agosto de 1984. Entre os dias 13 e 14 de agosto, pouco antes de completar 86 anos, o escritor argentino ministrou palestra para uma multidão no auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e concedeu diversas entrevistas. “A estada em São Paulo foi muito agradável, demonstraram um grande apreço e carinho a Borges e isso lhe trouxe grande felicidade”, relembra. “Ele pensava no Brasil como um país-irmão e ficou muito entusiasmado com tudo, em especial o grande conhecimento que tinham de sua obra”.

O convite partiu de Jorge Schwartz, professor titular de Literatura Hispano-Americana da Universidade de São Paulo e atual diretor do Museu Lasar Segall. “O contato foi tão simples que até assusta”, conta. “Ele mesmo atendeu ao telefone, em julho de 1984, aceitando de imediato o convite para vir a São Paulo. Estava ao seu lado María Kodama, que tinha a agenda. Ele só pediu para cuidarmos de um banheiro especial, já que era cego, e foi o que fizemos no Hotel Maksoud em São Paulo, onde se hospedou”.

Schwartz coordenou, no fim dos anos 1980, a tradução das obras completas de Borges, publicadas pela editora Globo a partir de 1989. Ele também foi responsável pela organização do livro Borges no Brasil (Ed. Unesp, 2001), que, em suas mais de 600 páginas, compila vasta bibliografia produzida no país sobre o escritor, como artigos de especialistas, como Leyla Perrone-Moysés, Júlio Pimentel Pinto e Davi Arrigucci Jr. (tradutor de diversas de suas obras) e algumas gemas, como uma resenha, de 1928, em que Mario de Andrade o classifica como “a personalidade mais saliente da geração moderna argentina” e a uma tradução do conto “História dos dois que sonharam”, assinada por ninguém menos que Clarice Lispector. Ao longo dos últimos 15 anos, ele se dedicou a organizar um dicionário com mais de mil verbetes e mais de 60 colaboradores sobre o universo borgeano, que será publicado durante o segundo semestre pela Companhia das Letras. “O caráter enciclopédico do conhecimento de Borges pede um dicionário”, explica. “Há algo de surpreendentemente infinito em seu conhecimento, em suas referências e associações. Não conheço nenhum escritor com essas características”.

Borges e Jorge Schwartz, 1984 /  Foto: Madalena Schwartz

Borges e Jorge Schwartz, 1984 / Foto: Madalena Schwartz

É exatamente este aspecto referencial da obra do argentino que é destacado pela argentina Ana Cecilia Olmos, também professora do departamento Literatura Hispano-Americana da USP. “A literatura de Borges reflete permanentemente sobre a própria literatura. Mais do que uma literatura preocupada com os problemas do mundo ou com os problemas do sujeito, é uma literatura preocupada com a literatura, em termos de formas e efeitos estéticos, e problematização crítica”, explica. “E pelo fato de ele pensar a escrita como o inverso da leitura e fazer disso matéria de sua ficção, seus textos literários ‘convocam a biblioteca’ o tempo todo – não como um gesto de homenagem ou com a aura artística que o cânone pode instaurar para a biblioteca, mas como um ato de leitura crítico e criativo”.

Segundo o professor Jorge Schwartz, o caráter universalista e cosmopolita das fontes que alimentam a literatura borgeana promoveu uma revolução no campo literário argentino dos anos 1940. “A literatura de Borges se opõe a um meio que sempre cultuou o nacionalismo na literatura, e uma de suas respostas é que a literatura não precisa de símbolos nacionais para se afirmar”, relata. “É clássico o exemplo citado por ele de que o Corão não tem e não precisa de camelos para comprovar que é literatura árabe. Nesse sentido, o conceito de argentinidade entra em crise, pelo viés do internacionalismo literário”.

Ele também afirma que a obra do autor de História universal da infâmia foi fundamental para modificar o conceito de influência literária, de forma retroativa, em que autores tivessem a capacidade de modificar a leitura de obras anteriores. “Um conceito de ‘precursor’ às avessas, em que se põe em questão o conceito de obra original”, explica.

Esse aspecto universalista e descolado da realidade da escrita de Borges, no entanto, provocava rejeição entre os críticos literários de esquerda na Argentina, apesar da projeção internacional que sua obra conquistava. “Nas décadas de 1950 e 1960, ele é visto com incômodo, por considerarem que sua obra dava as costas a uma realidade histórica, política e social que demandava certo engajamento do escritor”, explica a professora Ana Cecilia Olmos.

Nos anos 1970, por sua posição pessoal de apoio à ditadura militar, o escritor é ainda mais rejeitado pelos críticos progressistas. “Como disse Beatriz Sarlo, o problema não era ser conservador, pois muitos escritores o foram, mas ter mascarado seu conservadorismo com ironia”, diz, citando a crítica e ensaísta argentina.

De acordo com Olmos, a relação dos críticos de esquerda com a obra de Borges começou a mudar a partir do final da década de 1970. “Pelo modo como Borges concebia a literatura, é possível desassociar completamente sua posição ideológica da possibilidade de significação da obra. O que precisamente interessa é o ato da leitura, não a intencionalidade do autor”, explica. “Nesse sentido, sua literatura pode abrir mais possibilidades de pensar ou vislumbrar outros mundos possíveis, do que talvez uma literatura sustentada numa mimesis realista, que assinala uma e outra vez a injustiça social”.