Cinco vezes David Bowie

Alice Caymmi, Edgard Scandurra, Lívia Nestrovski, Tiê e Thiago Pethit  comentam a morte do cantor e compositor britânico

 

bowie

Helder Ferreira

 

Morreu neste domingo, aos 69 anos, o cantor e compositor britânico David Bowie. Segundo comunicado publicado em sua página oficial no Facebook, ele lutava contra um câncer havia 18 meses.

A notícia, que figurou em destaque em todos os portais de notícia nesta segunda-feira (11), chocou os fãs do autor de “Life on Mars” que, na semana passada, comemorou aniversário lançando um novo álbum, Blackstar.

Em entrevista à CULT, cinco nomes  da música brasileira comentam a morte de Bowie e compartilham histórias pessoais relacionadas à obra dele.

 

ALICE CAYMMI, cantora e compositora

A minha grande questão com o David Bowie era a da representatividade do gênero fluído, do fato de ele ser mutante.

Bowie era um artista inovador que inspirou a música, a moda, as artes plásticas… Minha relação com o trabalho dele tem a ver com música também, mas está muito mais relacionada à estética dele e às coisas pelas quais ele lutava sem falar nada. Essas coisas que minha geração quer, ele já fazia há tempos: quebrar paradigmas. É um artista do passado, do presente e do futuro. Para uma artista da minha idade, é obrigatório pensar nas contribuições dele.

Música favorita: “Rebel rebel” – Diamond dogs, 1974

Foi a canção que mais me marcou e me inspirou a fazer exatamente o que quero. Sempre pensei nessa música quando alguém me questionava sobre a minha família, sobre a tradição musical. Foi importante no processo, doloroso e trabalhoso, pelo qual passei para me destacar da minha família.

 

 

 

EDGARD SCANDURRA, cantor, compositor e músico

Poucos foram tão criativos e inovadores quanto David Bowie dentro da música. Ele elevou a música pop à categoria de uma arte riquíssima em detalhes, camadas sonoras e visuais de um artista que não se satisfazia em se revisitar, sempre buscava o novo para si e para seu público.

 

Música favorita: “Blackstar” – Blackstar, 2016

É uma música linda e nova mostrando que ele não se prendia ao passado e estava buscando o melhor de si.

 

 

LÍVIA NESTROVSKI, cantora

Conheci o Bowie mais tarde, ele não fez parte da minha adolescência. Tinha 18 anos quando o Fred Ferreira, meu marido e parceiro musical, me mostrou Aladdin sane – canção que tem um solo de piano atonal, que ouvíamos bastante. Depois, fui conhecer mais da obra dele mais velha, com 24 anos. O que mais me atraía nele era a performance, o modo como ele conseguiu criar essa imagem do cara que se camufla e transforma. A partir dele, compreendi o sentido de ser artista, em uma amplitude maior: não só na música, mas também na imagem e na performance. A morte dele me chocou porque não sabia que ele estava doente, mas fez todo sentido após ouvir as músicas e ver o vídeo lançado por ele recentemente. Até na hora da morte, ele conseguiu ser lúcido e profundo. E completamente íntegro no que ele fazia.

Música favorita: “Sue (Or in a season of crime)” – Blackstar, 2016

Gostei muito dessa música, achei de um outro patamar estético. O David Bowie conseguiu sempre se renovar.

 

TIÊ, cantora e compositora

É muito triste a morte dele – inclusive, ele acabou de fazer 69 anos e lançou um disco, todo mundo ficou super orgulhoso. Ele é um cara sensacional que faz parte, pelo menos, de toda a nossa geração e tantas outras gerações. Ele é um cara muito revolucionário. É místico, mágico… Um cara forte, que tem tantas histórias, tantas músicas e está tão presente. Realmente, é muito emblemática esta morte. O número de pessoas que postaram fotos do Bowie hoje é bem significativo. Fiquei meio chocada com a notícia, mas desejo que ele descanse em paz. A gente só tem a agradecer porque tenho certeza de que ele ensinou muito a todos nós.

Música favorita: “John, I’m only dancing” – The rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, 1972

Uma música que me dá uma vontade louca de dançar e sacudir o cabelo.

 

 

THIAGO PETHIT, cantor e compositor

Hoje foi meu último dia de férias. Acordei cedo numa ilha no Sul, com essa notícia ainda na cama. Fiquei triste, mas não melancólico. Sinto que ele deixou sua última palavra, como queria, em forma de um disco réquiem dificílimo e de forma magistral.

Pra mim, Bowie foi o maior. Bowie é a representação máxima da vanguarda artística, da capacidade ilimitada e poderosa do pop, enquanto propulsor psíquico de transformação social, e o verdadeiro rockstar – por excelência. O mundo não perdeu um homem ou um artista. Perdemos uma espécie.

 

Música favorita: “Rock’n’roll suicide” –  The rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, 1972

Não tenho uma preferida, mas hoje estou escutando esta.