Em busca da emancipação

Nos últimos anos, a literatura brasileira procurou criar uma linguagem que a emancipasse de suas determinações históricas e da ideia de “formação”
Teixeira Coelho: os traumas da história brasileira  (Foto: Divulgação)

Teixeira Coelho: os traumas da história brasileira (Foto: Divulgação)

Manuel da Costa Pinto

Se o número 18 – a idade que a revista CULT completa este mês – evoca a ideia de maioridade, esta representa algo para além de seu aspecto jurídico: representa a ideia de emancipação das autoridades tradicionais ou das determinações externas e coletivas pelo indivíduo, que assim afirma sua autonomia, o Sapere aude! (Ouse conhecer!) pronunciado por Kant em O que é o Iluminismo?.

Quando se trata de literatura num país que sempre teve de se haver com sua minoridade (dependência econômica, condição periférica, identidade instável), essa emancipação muitas vezes representou a criação de um discurso empenhado na construção de uma identidade nacional. Ou seja, uma emancipação mais coletiva do que individual – o que não deixa de ser incongruente, senão contraditório, com as noções de autonomia e autodeterminação.

A literatura e o pensamento brasileiro – e isso é um fato, não uma interpretação – sempre estiveram às voltas com a formulação de mitos fundadores, seja na forma dos romances e poemas indianistas de José de Alencar e Gonçalves Dias, da prosa regionalista de diagnóstico e denúncia dos atavismos por trás das catástrofes nacionais, ou ainda dos ensaios de interpretação das tensões do hibridismo social e racial (como em Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, ou Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda) – sendo que as próprias ideias de mito, atavismo e raça implicam submissão a um singular coletivo.

No campo estritamente literário, outro ensaio fundamental, Formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1959), de Antonio Candido, vinculou a identidade literária brasileira justamente aos tais “momentos decisivos” em que escritores e intelectuais estiveram empenhados no projeto de uma literatura nacional – sendo criticado por conceber o processo formativo como uma espécie de destino incontornável, cujo caráter necessário excluía outras vertentes (seria o caso do “sequestro do barroco” apontado por Haroldo de Campos em Formação…).

A crítica não é de todo improcedente. Num artigo do livro Brigada ligeira sobre o romance O agressor (1943), de Rosário Fusco, por exemplo, Candido observa no surrealismo do escritor mineiro um mecanismo de “adoção de valores literários, uma tentativa de transplantar a planta estrangeira para a terra pátria”, “atitude intelectual” que não representa “uma problemática vital para a inteligência brasileira”.

A afirmação parece contraditória com a própria Formação…, obra repleta de exemplos dos empréstimos tomados por árcades e românticos na literatura europeia, sugerindo que Antonio Candido estaria confinando a literatura brasileira a temáticas nacionais (presentes na “cor local” destes, ausentes na prosa de Fusco). Ocorre, no entanto, que o próprio ensaísta deu por encerrado o processo formativo já no século 19 (como observa Roberto Schwarz em Sequências brasileiras), de modo que, da sua perspectiva, aquilo que era um dado objetivo, minuciosamente levantado ao longo dos dois tomos de Formação…, deixa de ser um empenho fortemente impregnador, que confere feição à literatura local, para se tornar uma idiossincrasia individual pouco significativa para a representação da realidade pela literatura.

Essa minúscula digressão sobre uma obra maiúscula ajuda a entender questões de representação presentes até hoje no panorama da literatura brasileira – especialmente nestas duas últimas décadas que tiveram na revista CULT um posto de observação.

Se a modernização e a urbanização dos anos 50 e 60 sepultaram ou, pelo menos, deixaram num estado de letargia o discurso sobre a nacionalidade, a representação literária da experiência brasileira jamais saiu de pauta. Afinal, uma das possíveis e mais fortes definições desse objeto tão fugidio a que damos o nome de literatura – e sem entrar naquilo que distingue a prosa da poesia – é representação ficcional da realidade, ou conhecimento pela imaginação. E, nesse sentido, pode-se dizer que a questão da identidade permeou a representação literária brasileira durante o longo período em que seu objeto – essa realidade, seus atores – estava construindo uma especificidade.

Modernismo e regionalismo ainda foram “movimentos” – e o fato de o serem demonstra, por si só, o atrelamento a questões de ordem coletiva – com um projeto de criar a linguagem ideal para expressar ou desvendar uma realidade estável, ou que perpetua os vetores de sua instabilidade: “nossa” vocação antropofágica, os ciclos de “nossa” dependência – o uso dos pronomes possessivos, até hoje tão frequente no ensaísmo brasileiro, reiterando como um lapso de linguagem o apego à ideia de pertencimento a um ente comunitário.

O surto modernizador do pós-guerra, porém, “desenraizou” o país de suas determinações (patrimonialismo, estrutura escravocrata), criando outras que, no entanto, mantêm aquelas presentes como resíduos arcaicos. E a perda da homogeneidade da experiência, característica da vida urbana, gera uma percepção literária dessa dinâmica não mais como essência a ser decantada ou superada, mas como cicatriz individual.

Da literatura de sondagem interior de Clarice Lispector ao brutalismo urbano de Rubem Fonseca, das elipses de Dalton Trevisan à obscenidade de Hilda Hilst, a literatura brasileira envereda por representações cada vez mais particulares e obsessivas – como são particulares e imiscíveis as obsessões dos viventes das cidades em que tais autores põem seus personagens para perambular.

Modesto Carone: nova maneira de representar a realidade (Foto: Divulgação)

Modesto Carone: nova maneira de representar a realidade (Foto: Divulgação)

E se literatura brasileira se tornou, já faz algum tempo, uma literatura urbana feita por sujeitos que expressam o universo muito pessoal do indivíduo insularizado na massa amorfa da metrópole (construção ou clichê cultural tão forte quanto foi outrora o “Brasil profundo”), também mudou aquela correia de transmissão que vinculava cada autor a um autor precedente dentro de uma tradição nacional. Os escritores de hoje reivindicam (quando reivindicam) influências dos mais variados matizes e, nas intervenções públicas (festivais internacionais, feiras de livros), fazem um esforço devotado para arrancarem a etiqueta grudenta do escritor brasileiro – com tudo o que ela carrega de cor local e imaginário tropical.

Conrad e Thomas Bernhard, W.G. Sebald e Bruce Chatwin, Philip Roth e J.M. Coetzee são autores que parecem ter um peso maior na escrita de Cristovão Tezza, Bernardo Carvalho, Teixeira Coelho ou Bernardo Ajzenberg do que Dyonelio Machado ou Guimarães Rosa, dentro do mote borgeano de que o escritor cria seus precursores e da ideia de que “a literatura nasce da literatura”, tão bem formulada pela ensaísta Leyla Perrone-Moisés (de resto, autora de Vira e mexe, Nacionalismo, reflexão bastante crítica sobre a recorrência da questão nacional no mundo pós-colonial).

Nas últimas duas décadas, as poucas tentativas de buscar um traço definidor da literatura brasileira contemporânea se limitaram à forma (o miniconto como decantação da experiência fragmentada e volátil) ou a uma atmosfera de fundo, com personagens/autores “transgressores”, enredos que mergulham no “bizarro” – para citar termos usados por Nelson de Oliveira em antologias por ele organizadas e que incluem autores como Veronica Stigger, Ana Paula Maia, Lourenço Mutarelli, Paulo Scott e Santiago Nazarian.

Em todos esses autores – e sem entrar aqui em juízos críticos – desaparece como valor de face a questão nacional (deslocada, em alguns casos, para a questão dos gêneros sexuais), mas não a da representação – pela qual a questão nacional penetra de maneira insidiosa.

Se tomarmos os 18 anos de existência da revista CULT como recorte, Resumo de Ana (1998), de Modesto Carone, surge como livro decisivo da nova maneira de representar a realidade brasileira – não mais pelo registro frontal da vivência social, mas em dois enredos complementares, narrados a partir de pontos de vista íntimos, que espreitam a trajetória de uma empregada doméstica e de seu filho, numa parábola de ascensão econômica seguida de ruína que resume de modo enviesado as catástrofes do país desde a crise de 1929 até os anos 80.

Da mesma maneira, a trilogia de Milton Hatoum – Relato de um certo oriente (1989), Dois irmãos (2000) e Cinzas do norte (2005) – se dá num registro memorialístico (traumas familiares e experiências de imigrantes libaneses), mas consegue fazer de Manaus, epicentro das narrativas, a metáfora viva dos massacres da memória pela história brasileira recente.

A partir de Hatoum, diga-se de passagem, podemos observar o resgate, também enviesado, de uma experiência que não se dá nem na megalópole nem no tempo congelado da província (como ainda podia acontecer em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar). São regiões que, excluídas da prosa urbana, retornam como cenário remoto no mapa, porém atingidas pela degradação e pela anomia proporcionados pela modernização desenraizadora – como podemos ler em Galileia (2008), de Ronaldo Correia de Brito (romance que flagra sem qualquer nostalgia o retorno do migrante às origens rurais), Curva de rio sujo (2004), de Joca Reiners Terron, ou Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2005), de Marçal Aquino, em que centro-oeste e norte brasileiros, respectivamente, são transformados em terra de ninguém, submundo sem superfície.

Alguma ideia de pertencimento subjaz ainda na prosa que resgata origens comunitárias, como nos gaúchos Moacyr Scliar ou Cíntia Moscovich – mas o próprio fato de serem aqui memórias judaicas amplifica a questão do apagamento da memória para um desastre maior, que coincide com a história do século 20. E se essa é a matéria de outro gaúcho, Michel Laub, seu romance Diário da queda (2011) conecta o tema da Shoah (ou Holocausto) ao do Alzheimer – dentro de uma vertente em que a doença e os traumas afetivos familiares fornecem o mote narrativo. Não por acaso, uma obra de magnitude como O filho eterno, de Cristovão Tezza, e um romance como Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, fazem da síndrome genética ou do mal congênito a inóspita pátria do escritor.

Esse aprisionamento ao corpo e suas pulsões percorre a obra de um autor que se consolidou na cena literária nesses 18 anos: Bernardo Carvalho, cujo romance Nove noites (2002), ao desvelar uma história pessoal durante investigação do suicídio de um antropólogo norte-americano no interior do Brasil, opera um cruzamento de aberrações familiares e coloniais no qual o horror do estranhamento não tem passaporte.

Aliás, o tema da viagem – frequente na obra de Bernardo Carvalho – adquiriu recorrência singular na literatura contemporânea brasileira e, num plano mais superficial, parece indicar o gesto simbólico de uma anexação de territórios à paisagem narrativa. São os casos de O homem que vive: uma jornada sentimental (2010), cujo protagonista errante corre o mundo atrás da felicidade e da beleza perdidas, e, sobretudo, de História natural da ditadura (2006). Nesse livro de forma híbrida, entre o romance, o registro memorialístico e o ensaio, Teixeira Coelho revisita as catástrofes do século 20 (Segunda Guerra, regimes militares de Brasil e Argentina) de modo oblíquo, em encontros no tempo presente que colhem os escombros do passado e encontram no deslocamento permanente uma forma de aliviar o peso do mundo.

Poucos livros como essa obra-prima (aqui não me furto ao juízo de valor) representam os traumas da história brasileira com tanta agudeza, pois, sem mimetizar realidades objetivas (apenas assinalando seus vestígios), conecta-a a outros estados de exceção e faz da ficção um ato subjetivo de recusa das identidades coaguladas – que é a marca de uma literatura que se emancipa criticamente de suas determinações.