Na estrada

Road movie com Marat Descartes se aproxima da liberdade e da contracultura da literatura beatnik

Patrícia Homsi

Foto: Cristiane Oliveira

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa” (Uivo, de Allen Ginsberg, em tradução de Claudio Willer). Em 1994, os primeiros versos de Uivo provocaram uma “explosão na cabeça” de Gustavo Galvão, diretor de Uma dose violenta de qualquer coisa, cujo título revela a ligação direta com a literatura beatnik. O filme está em cartaz em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília, e chega a Aracaju, Florianópolis e João Pessoa nesta semana.

A partir da ideia de uma cena na estrada, Galvão – na época, jornalista – decidiu que o cinema era seu caminho e deixou o jornalismo em busca de uma nova carreira como diretor. Essa ruptura com o destino garantido, o desvio e a liberdade, inspiraram Uma dose violenta de qualquer coisa.

Na trama, Pedro (Vinícius Ferreira) foge da vida em Brasília e vaga pelas estradas incertas, onde encontra Lucas (Marat Descartes), uma personagem sem passado ou presente, que vive a liberdade sem máscaras e lança frases de efeito pessimistas, retomando os seus desejos, que parecem fora de controle. “O filme procura entender desvios que as pessoas tomaram na vida, e o que elas podem fazer para resgatar o que tinham originalmente”, explica Galvão, que também destaca a empatia dos espectadores com essa jornada de autoconhecimento e volta de ideais das personagens.

Para Marat Descartes, que interpreta Lucas, o processo de afirmação do discurso de sua personagem se deu por meio do conhecimento e da imaginação de um contexto em suas frases de efeito: “O que era mais importante na construção do Lucas era passar um pouco desse sentido de que pessoas estão muito presas às atitudes cotidianas, a uma coisa diretamente ligada à realização material. Ele, então, representa um espírito libertador”.

Após encarar o desafio de personagens como Junior, o retraído e lentamente enlouquecido filho que torna à casa do pai em Quando eu era vivo (dirigido por Marco Dutra), Descartes saltou para uma nova abordagem de atuação. “Eu achei o Lucas muito interessante, desafiador. Era muito diferente do que eu vinha fazendo: personagens introspectivos, de complexidade interna. No Lucas, é outra coisa. Ele é verborrágico, louco, aventureiro.”

O fato de o diretor ser brasiliense também parece ter alterado a maneira com que o filme se apropria da cultura dos road movies, remontando em Lucas o retrato brasiliense de fuga (da casa, da família, das obrigações, do fixo): “Tem uma coisa muito peculiar do povo de Brasília que é um desejo de expandir, sair de um lugar que é meio de passagem. O espírito do viajante, de quem procura contato com outros lugares, pessoas”, define Marat. Gustavo Galvão assina embaixo: “A principal via do Plano Piloto é o eixo rodoviário. Brasília tem uma ligação forte com o carro, com as vias planas e retas, já que o transporte coletivo é ruim. O carro acaba sendo instrumento de fuga”, caracteriza Galvão.

De carro, a produção exigiu trabalho em grupo, como afirma Marat Descartes: “É uma aventura à parte, essa coisa do road movie. O set é a própria estrada. Várias cenas são gravadas dentro de carro, a equipe é muito reduzida, o diretor está no porta-malas, o fotógrafo, no banco de trás… Eu, como ator, acumulava função de bater claquete, de segurar microfone, enfim. A união faz a força.” A maior parte do orçamento (no total, cerca de 750 mil reais) foi direcionada à hospedagem da equipe e à gasolina dos carros. Com menos da metade do orçamento previsto no bolso, Gustavo Galvão apelou a Jean Luc Godard por inspiração: “A gente faz o filme que pode fazer, e não o que quer fazer. Nesse processo de se adaptar ao orçamento, cheguei a o que realmente desejava daquela história.”

O cenário do cerrado, das estradas, também deu forma à personalidade violenta e entrecortada de Pedro, junto à trilha sonora, composta por um jazz totalmente desconfortável e paralisante. “Enquanto escrevi o roteiro, percebi que o jazz casava bem com o Pedro, por ser um ritmo mais quebrado, imprevisível”, destaca Gustavo Galvão. O ritmo que Jack Kerouac tanto citava em On the Road foi crucial para a construção da atmosfera libertária, porém assustadora da estrada. A influência do primeiro choque com a literatura beatnik continua levantando poeira, na estrada e em busca de uma dose violenta de qualquer coisa.