Ser herói

Os silêncios, as canções, os olhares e os diálogos reduzidos traçam a vulnerabilidade das personagens em "Praia do Futuro"

Patrícia Homsi


É inevitável embarcar nas ondas e nos silêncios de Praia do Futuro. O filme dirigido por Karim Aïnouz, que estreia na próxima quinta-feira (15), é um desafio aos longos e explicativos diálogos que muitas vezes resumem o cinema atual. Requer calma, reflexão, porém desperta angústia e raiva. Guiado por Heroes, “a canção mais bonita de todos os tempos”, Aïnouz pretende transportar o espectador ao tom melancólico, “que pega na goela”, da música. “Como diziam os americanos, ‘eu quero dominar corações e mentes’, queria um tom arrebatador nesse filme, que acho que o cinema precisa ter”, explicou o diretor numa conversa com a imprensa, em São Paulo.

O poder da trilha sonora, com que o diretor trabalhou mais profundamente somente em Praia do Futuro, e o contraste entre os silêncios e os trancos corporais compõem uma maneira ousada de se contar a história por parte de Aïnouz, que considera este o seu filme mais ambicioso enquanto gesto narrativo. O abandono e a perda, temas recorrentes ao longo da narrativa, são demonstrados logo nos primeiros minutos de filme, quando Donato – interpretado pelo ator Wagner Moura – um guarda-vidas da Praia do Futuro, em Fortaleza, perde seu primeiro afogado para o mar. O “Aquaman”, como é chamado por seu irmão, Ayrton, não é mais um herói.

A partir deste acontecimento, Donato conhece Konrad (Clemens Schick), com quem rapidamente se envolve num relacionamento amoroso. Schick interpreta um motociclista alemão em aventura pelo Brasil, que conduz o guarda-vidas ao abandono da família, numa viagem das cores vibrantes da Praia do Futuro aos tons frios do inverno de sua terra. Para guiar o espectador aos temas e às transições do filme, gravado entre Alemanha e Brasil, Aïnouz optou pela divisão de Praia do Futuro em três partes: O abraço do afogado, Um herói partido ao meio e Um fantasma que fala alemão.

Para o diretor, que confessa “um novo amor a cada vez que se liga a câmera”, as gravações entre os dois países foram muito naturais. “O que é terra estrangeira?”, questiona. “O mundo todo é uma terra estrangeira para mim.” Aïnouz afirma que a escolha de Berlim tem a ver com sua própria trajetória, da qual a cidade fez parte. Após gravar Madame Satã, o diretor morou lá e propõe que a exposição a novas culturas possui muita influência na vida dele e na da personagem Donato. “Diferença produz tolerância.”

Clemens Schick, que é alemão, confessa que a barreira da linguagem da fala tornou as gravações no Brasil ainda mais reais. As maiores trocas de sentimento com Moura e Jesuíta Barbosa, que faz o papel de Ayrton anos depois de o irmão deixar a Praia do Futuro, aconteciam por meio de olhares.

Para os atores brasileiros, as gravações na Alemanha, em língua estrangeira, também foram reveladoras. Segundo o bem humorado Wagner Moura, Jesuíta Barbosa (que se destacou no filme Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda) aprendera rapidamente o novo idioma e não teve nenhuma de suas falas cortadas, ao contrário dele mesmo, cujo alemão se limitou a pequenas falas decoradas. No entanto, as personagens não seriam encontradas nos diálogos, superficiais e bem construídos, mas em suas ações. Como na vida, em que, na maioria das vezes, a expressão não parte das cordas vocais, do pensamento racional, mas das torções da boca, dos giros do olhar. “Esses personagens se expressam mais pelo que fazem do que pelo que falam, especialmente Donato, que não sabe bem o que sente. A gente vê como ele é quando ele dança, nada, trepa…”, acrescenta Moura.

O ator, que irá interpretar o traficante Pablo Escobar em série televisiva dirigida por José Padilha – com quem trabalhou em seu mais conhecido papel, como Capitão Nascimento, em Tropa de Elite – confessa que a parte mais complicada na manutenção de Donato em detrimento de Wagner foi a terceira, em que contracena com o irmão abandonado, Ayrton. Pai de três filhos, Moura afirma: “Para mim, as cenas com Jesuíta [Barbosa] foram muito difíceis. Era muito complicado esse negócio de deixar um menino para trás”.

A falta de praia fez com que o “Aquaman” Donato adotasse novas maneiras de caminho. Em vez de nadar pelo mar, o guarda-vidas aparece circulando estradas. Assim como em O Céu de Suely, O Abismo Prateado e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te amo, Karim Aïnouz sugere um novo caminho físico, sempre procurando o diálogo com os rumos pretendidos pelo espectador. “Eu preciso deixar a personagem ir embora.” A estrada aquática ou terrena, física ou emocional, de Donato é incrivelmente relacionável. Quando seus caminhos se cruzam com os do espectador, o filme ultrapassa a ficção e nos presenteia, causando um nó na garganta, com uma sensação de liberdade conquistada, porém, dentro de seus limites, contida às telas.