Borges inédito

Na Feira do Livro de Buenos Aires, o crítico Julio Ortega apresenta dois textos inéditos do escritor argentino Jorge Luis Borges

O escritor Jorge Luis Borges

Entre os dias 28 de abril e 12 de maio aconteceu, na Argentina, a 40º Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Entre debates, lançamentos e apresentações – especialmente dos saraus paulistanos e artistas da periferia de São Paulo, cidade homenageada nesta edição da feira – mais de um milhão de pessoas e centenas de escritores de todos os continentes se encontraram na capital argentina. No dia 9, o crítico literário Julio Ortega, especializado em literatura latino americana, apresentou ao público dois textos inéditos de Jorge Luis Borges.

O escritor argentino foi professor convidado da Universidade de Austin, no Texas, entre 1961 e 1962. Nesse período, Borges ministrou uma conferência chamada “Meu amigo Dom Quixote”, em que discorria sobre a trajetória do cavaleiro manchego idealizado por Cervantes. Sabendo da preciosidade do discurso, Julio Ortega, que conheceu o autor em Austin no começo dos anos 1980, vasculhou os arquivos da Universidade durante anos e encontrou as fitas com as gravações completas. Toda a conferência estava registrada ali, em inglês, e possivelmente nunca havia sido escutada por ninguém.

A primeira versão do texto, em inglês, foi publicada na Inti – revista de literatura hispânica da Universidade Providence, nos Estados Unidos – e, em 1998, na edição 48 do Diário de poesia com tradução da poeta Mirta Rosemberg. Ortega apresentou o texto na Feira do Livro de Buenos Aires ao lado da viúva do escritor, María Kodama.  Além de “Meu amigo Dom Quixote”, também foi revelado o que teria sido o início do único romance já produzido por Borges, Los Rivero, que dataria de 1950. As quatro páginas do manuscrito foram encontradas num lote que a organização Harry Ransom Center for the Humanities cedeu à Biblioteca da Universidade do Texas, em 1999.

Ao jornal argentino Clarín, Ortega declarou que Los Rivero – que narra a trajetória do coronel Clemente Rivero na luta pela independência das Províncias Unidas do Sul – é um texto “maravilhoso”, uma metáfora irônica típica de Borges, sobre como os pensadores da fundação argentina se perderam. O escritor, no entanto, rejeitava a forma narrativa do romance, pois acreditava que qualquer história poderia ser contada na estrutura de um conto. O crítico Julio Ortega suspeita de que ele tenha se horrorizado quando notou que o romance, justo ele, seria a única maneira de narrar o caminho do coronel e de seus descendentes, e por isso deixou o projeto inacabado.

Fragmentos dos dois textos foram publicados no caderno Ñ, do Clarín, e também ganharam edições luxuosas e limitadas. O livro com a conferência “Meu amigo Dom Quixote” inclui um CD com a palestra original de Borges na Universidade de Austin, além de ilustrações do artista Ricardo Horcajada. Ambos são limitados, com apenas cem exemplares publicados.