A gripe borgiária

por Alcir Pécora

Certos gêneros de narrativa — nos quais se encaixa a que apresento aqui — só podem ser bem caracterizados por meio do enredo. Ei-lo, portanto.

Na Argentina do início dos anos 20, um jovem portenho aspirante a escritor, que é também narrador do livro em questão, é homônimo e contemporâneo de Jorge Luis Borges. É o que basta para odiá-lo, tanto porque se julga melhor escritor, como porque Borges resolveu, antes dele, o caso dos ataques à família da menina judia que ele, homônimo anônimo, amava.

Já às vésperas da Segunda Guerra, a menina, agora adulta, surge com um namorado alemão, tipo que logo fica menos interessado nela do que num conto escrito pelo grande Borges sobre o tema do Judas. Só que o alemão atribui equivocadamente a autoria do conto ao pequeno Borges. Não bastasse o engano, ainda passa a exigir que este desenvolva o conto que não escreveu. E dá toda sorte de explicação, expandida pelo narrador, a fim de dar aparência lógica à salada. O efeito é semelhante ao do saca-rolhas de Lewis Carroll, que desgraça qualquer história ao dar voltas e mais voltas em torno dela, em vez de contá-la.

Num dos giros, o alemão revela a sua identidade. É um perigoso membro de uma terrível seita secreta de três membros adoradores de serpente. Com vocação didática, o alemão ensina ao narrador que a serpente, metafisicamente, significa que para haver o bem deve haver o mal. Daí para que Judas se configure como o grande herói da humanidade não vão muitas páginas. Ao que parece, Jesus andara se acovardando, ameaçava fugir da Paixão. Mais fiel ao plano divino, Judas o delatou para que se cumprisse a Morte na Cruz e a gente fosse remida, conquanto ele próprio acabasse levando a injusta pecha de traidor, venal e assassino.

Ainda segundo o valente hermeneuta germânico, não seria idiota quem visse nele, e não em Cristo, a face humana do verdadeiro Deus. O único problema era que o mundo estava despreparado para ouvir revelações tão impensadas. Seria preciso um novo Profeta para anunciá-las. Passo seguinte, o alemão rapta o pequeno Borges e o carrega para Munique, sede do partido proto-nazista Thule, outro dos clubes de que faz parte e cuja história logo expõe no costumeiro viés for dummies. Assustado, o Borginho trata logo de adivinhar o desejo dos nazis e profetiza que da Alemanha adviria um novo Judas divino. E quem mais, senão Adolf Hitler?

E basta — ainda que o enredo tenha muitas outras cartadas do mesmo naipe, que vamos conhecendo por meio de flashbacks tão frouxos em ação como ricos em reviravoltas explicativas enroladas. Informo apenas que a intriga que aqui se apresenta foi extraída de O Evangelho segundo Hitler, de autoria do paranaense Marcos Lopes (1984), feliz vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2002/2003.

Como penso estar demonstrado pela simples exposição do enredo, o livro é um exemplar acabado do gênero chamado de Besteirol —, um produto genuinamente nacional.

Embora seja também um ramo florescente do arbusto universal que atacou e recobriu como praga a literatura refinada de Jorge Luis Borges.

Nos seus momentos epidêmicos decisivos, redundou nas falácias bizantinas de Eco; proliferou aleatória por Vila-Matas; não poupou o Nobel português; acometeu outros tantos, de vária nação, até atingir o estado de pandemia em O Código da Vinci (2003), do norte-americano Dan Brown.

Pós-DB, a cepa do vírus se estabilizou num misto de excitação popularesca por teoria conspiratória, tino editorial de vendas, alegre disposição para a falsificação histórica, e, por último,como fantasia pedestre de cultura, à maneira de almanaque de trívia ou de manual de simbologia.

E não há porque ser cético: a cada dia se aperfeiçoa a lesão do estilo.

Nem sequer cabe o pejo de ser nacionalista: um brasileiro bem poderá levar a palma sobre todos os outros que espalharam até aqui o resfriado, a febre, o catarro. Dez anos depois de Dan Brown expor com sucesso global a influenza borgiária, quem poderá negar que começamos a contribuir pra valer com o fenômeno?