O indigesto Burroughs

No centenário do escritor da geração beat, a CULT relembra sua trajetória e entrevista seu mais recente biógrafo

Patrícia Homsi


William Seward Burroughs II nasceu em 1914, e completaria hoje cem anos. O padrinho da geração beat – ao menos 8 anos mais velho que figuras conhecidas como Allen Ginsberg, Lucien Carr, Gregory Corso e Jack Kerouac – viveu boa parte de seus 83 anos à margem da lei, por onde gostava de se aventurar, além de ter sido responsável pelo método de cut-up, um modelo estrutural dadaísta de escrita.

O escritor de Naked Lunch (Almoço Nu, 2005, Ediouro), Junkie (Junky, 2013, Companhia das Letras) e Nova Express acreditava que a reorganização da linguagem removeria o aspecto ideológico impregnado nas palavras. Segundo Claudio Willer, escritor e pesquisador, o “vírus da linguagem”, a que Burroughs se referia, se relaciona com o papel de mediador atribuído à palavra. “A relação entre as palavras e as coisas, os signos e seus significados, é o tema de um debate imemorial”, explica Willer. Para Rodrigo Garcia Lopes, que já entrevistou Burroughs, “a tirania da Palavra nos mantêm cativos a modos reacionários e condicionados de pensar. A palavra não tem sido reconhecida como vírus porque alcançou um estado de simbiose com o hospedeiro”. Se a interferência da linguagem esbarra em nossa compreensão, a simples pronúncia do nome de Burroughs se assemelha à sua literatura indigerível, naturalmente truncada pelos recortes e pela falta de linearidade. O nome, porém, veio do avô, William Seward Burroughs I, criador de um dos componentes da máquina calculadora.

Nascido numa autêntica família burguesa do Missouri, Estados Unidos, Burroughs, que estudou em Harvard (Inglês e Antropologia), via a instituição familiar como uma ideia introjetada no ser humano, que não era necessariamente livre para reestruturá-la. Este ódio à ordem comum o aproximou do consumo de drogas e dos bandidos que retratava em suas obras. “O que fosse marginal, alternativo, fora da lei, tinha para ele um estatuto de realidade superior àquele do instituído, oficial; da sociedade burguesa, massificada” esclarece Willer.

Fora da lei

Viciado, traficante, homossexual e contra a ordem, Burroughs morou em lugares como Berlim, Cidade do México, Paris, Londres e Tanger, no Marrocos. Foi na época em que vivia no México, onde tinha uma plantação de maconha, que o escritor atirou acidentalmente em Joan Vollmer, sua esposa. Apesar de se declarar atraído por homens, Burroughs era apaixonado por Vollmer, bem como por armas. A combinação dos dois -mais uma boa dose de drogas e álcool – causou uma ébria brincadeira: Tentando atirar num copo acima da cabeça de Joan, Burroughs acertou em cheio na testa da esposa, matando-a. “A escrita seria o modo de libertar-se” diz Willer, com relação ao acontecimento.

A morte de Joan teria disparado em Burroughs a necessidade de escrever, o que motivou seus autobiográficos – porém, labirínticos, embriagados e movimentados – Junkie e Queer. Antes de escrever Junkie, seu primeiro livro publicado – aliás, com a ajuda de um amigo que Allen Ginsberg conheceu num hospital onde cumpria pena – Burroughs já havia escrito, em parceria com Jack Kerouac, E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques. O livro é escrito em capítulos que alternam a autoria dos beats e conta a história do assassinato de David Kammerer por Lucien Carr, ambos amigos de Burroughs e Kerouac. Esta primeira experiência literária, porém, só pode ser publicada em 2008, após a morte de todos os envolvidos.

Padrinho beat

A participação de Burroughs na literatura beat abrange sua própria produção e a colaboração e influência na obra dos outros escritores. Burroughs “fez réplicas de sessões de psicanálise com Ginsberg, recebeu os beats em seus refúgios em New Waverly e Algiers, na Cidade do México e em Tanger” afirma Claudio Willer. Esta presença constante influente nos gostos e escolhas de Ginsberg, Corso, Orlowski, Kerouac e, mais tarde, Brion Gysin, tornaram Burroughs o padrinho da geração beat, um pai, talvez, mais velho e mais rigoroso com suas próprias opiniões.

Para Burroughs, não bastava escrever sobre o submundo, mas subvertê-lo também através da linguagem, remanejando recortes de jornais, panfletos, livros, e construindo um novo sentido. O método de cut-ups, desenvolvido com Brion Gysin, consiste numa atualização para a escrita de modelos dadaístas de linguagem. “Os cut-ups tinham como estratégia textual romper com a lógica linear-sequencial da narrativa tradicional, da sintaxe, ao mesmo tempo em que ofereciam um modo alternativo de leitura. Tinham a função de confundir hierarquias e questionar o papel unitário do autor através de apropriação, citação, montagem, colagem, paródia”, explica Rodrigo Garcia Lopes.

“Quando se experimenta com cut-ups por um longo período, se descobre que alguns dos cut-ups e rearranjos parecem se referir a acontecimentos futuros. Eu apliquei a técnica de cut-up num artigo escrito por John Paul Getty e obtive: ‘É uma coisa ruim processar seu próprio pai’, algo que eu rearranjei, que não estava no texto original. E, um ano depois, um dos filhos dele realmente o processou. Não havia explicação para isto na época, mas o fato sugere que quando se corta o passado, o futuro vaza por ele”, disse William Burroughs sobre sua técnica. Além da futurologia dos cut-ups, o escritor pesquisava todo o tipo de crença, reforçando a ideia de toda a geração beat sobre o conhecimento das religiões orientais, por exemplo. Burroughs, por sua vez, se envolveu com os haxixim – “fumadores de haxixe e assassinos iranianos do século 12”, segundo Claudio Willer -, a paraciência, a energia cósmica e a cientologia de Ron Hubbard – famosa pela aderência de atores hollywoodianos como Tom Cruise e John Travolta.

“Mas ele acreditou em tudo isso?” se pergunta Claudio Willer. A personalidade literária, por vezes, se confundia com a pessoal. Burroughs, como todas as personagens, era controverso, confuso, frequentemente bêbado e, principalmente, indigesto.

Leia exclusivamente no site da CULT a entrevista do biógrafo de William Burroughs, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Paul McCartney, Frank Zappa e Charles Bukowski, Barry Miles, que lançou nos Estados Unidos recentemente Call me Burroughs, ainda sem previsão de tradução brasileira.

CULT – Qual o fato mais marcante da vida de Burroughs?

Barry Miles – Sem dúvida o tiro acidental e a consequente morte de Joan Vollmer foi o evento mais importante de sua vida. Ele me contou que pensava nela todos os dias e que ela era figura constante em seus sonhos. É muito provável que ele nunca tivesse se tornado escritor se não fosse por este acontecimento. Ele usava a literatura como um modo de tentar identificar aquela parte de si mesmo que se comportou de forma tão estúpida e insana para que ele pudesse expulsar aquele sentimento de si. Ele chamava isso de “The Ugly Spirit” (o espírito feio, em tradução livre), e sua escrita pode ser considerada uma evidência de seus esforços para expulsar “The Ugly Spirit”.

Há mais detalhes sobre o caso de assassinato que inspirou E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques em Call me Burroughs, seu novo livro?

Há muito sobre o assassinato de David Kammerer por Lucien Carr no livro, porque Kammerer era o melhor amigo de Burroughs. No entanto, ele achava que Kammerer estava se comportando muito mal por estar perseguindo e cercando Carr todo o tempo e que, eventualmente, ele mereceu ter sido morto por Carr numa briga. A versão dos fatos no recente Kill your darlings [Versos de um Crime, em português, estreia nos cinemas brasileiros em maio] é muito imprecisa. A colaboração entre Burroughs e Kerouac em E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques foi muito importante porque deu início à carreira de Burroughs como escritor, mesmo que esse seu primeiro livro não tenha sido publicado até sua morte e não seja tão bem escrito.

Como era a relação de Burroughs com os companheiros da geração beat? Ele era como um mestre para eles?

Certamente, Burroughs era considerado um mestre por Ginsberg e Kerouac, e, mais tarde, por Brion Gysin. Ele manteve amizades com escritores como Paul Bowles, que o tratava como igual. Eles conversavam sobre tudo, menos escrita, apesar de os dois compartilharem de um amor por [Joseph] Conrad. Mais tarde, Burroughs foi uma grande influência para autores como J. G. Ballard e William Gibson. A influência de Burroughs também foi além da literatura, até alcançar o fazer cinematográfico e as técnicas de gravação. Há muitas estrelas do rock que foram influenciadas por ele.

Apesar de se considerar homossexual, Burroughs foi casado com Joan Vollmer. Como era esse relacionamento?

Sua relação com Joan Vollmer era difícil. Ela sabia que ele era homossexual e estava preparada para aceitar que sua atração sexual era voltada principalmente para outros homens. Ela parecia não se importar com os namorados do marido. Porém, eles tinham um filho juntos, William Burroughs III, e Burroughs foi preso no Texas, certa vez, quando ele e Joan pararam o carro numa estrada e fizeram sexo no acostamento. Nesse caso, fica claro que Burroughs era atraído sexualmente pela esposa em algumas ocasiões. Na verdade, ele mesmo dizia que o casal tinha uma vida sexual ativa. Ela estava mais preocupada com o seu consumo de drogas, que o tornava entediante e chato de se conviver, além de reduzir seu interesse sexual. Burroughs, por outro lado, a achava divertida, estimulante intelectualmente e muito inteligente. O relacionamento dela com ele estava ligado a uma figura materna, que cuidava dele e se certificava de que ele não seria perturbado por necessidades práticas. Ela obviamente o adorava.

Como magia, religião, alienígenas ou espiritualidade estão presentes na vida e na obra de Burroughs?

Burroughs acreditava num universo mágico. Quando criança, ele era muito sensível e tinha visões – ele via uma pequena rena verde no parque perto de sua casa e, às vezes, via figuras projetadas nas paredes. Ele conseguiu manter essa inocência infantil e era particularmente interessado na magia com que se deparou enquanto viveu no Marrocos. Ele passou boa parte do final dos anos 50 em Paris tendo experiências com cristais e estados de transe. Não era religioso, mas acreditava no mundo espiritual e estendia essas crenças até a sua ideia sobre alienígenas. Temos que nos lembrar de que ele era um escritor, e que muitas de suas opiniões eram totalmente contraditórias. Frequentemente, ele desenvolvia ideias com propósitos literários; não necessariamente acreditava neles (como suas histórias sobre mulheres que representavam uma força gigante de insetos vindos de Marte!).

O que atraía Burroughs à vida dos fora da lei? Como isto aparece em seu trabalho?

Burroughs se sentia alienado no círculo social privilegiado em que cresceu. Tudo parecia falso para ele, era uma fachada superficial, que se resumia em esbanjar bens, consumismo, poder e dinheiro. Ele queria algo mais real, mais conexão com as pessoas reais. Era atraído por ladrões inferiores, de pouca importância, e viciados em drogas, porque estes estavam fora da sociedade normal e não faziam parte do “American way of life”. Ele sabia desde cedo que era homossexual e se sentia também um estranho, um estrangeiro, alienado de seus colegas. Ele homenageava estas personagens em todos os seus livros. Acreditava que a sociedade não poderia mudar ou se desenvolver, a menos que as pessoas a desafiassem, quebrassem as regras, e, às vezes, infringissem a lei.

Burroughs era obcecado pela característica de vírus da linguagem. O senhor pode falar mais sobre isso?

Burroughs acreditava que a linguagem era impregnada de toda a forma de ideias e atitudes, e que a linguagem em si ajudava na perpetuação dos sistemas de controle que governavam a vida das pessoas.  Ele achava que tudo deveria ser questionado: patriotismo, religião, educação, relacionamentos familiares, nação – todas as ideias que as pessoas inconscientemente aceitam deveriam ser repensadas. Se você ainda aprovasse essas ideias, ele não discutiria. Só queria que todos pensassem por si mesmos e fossem livres do controle dos anúncios e propagandas.