Um poeta da vida interior

Entre almas e estrelas, texto póstumo do professor Haquira Osakabe, apresenta hipóteses centrais de leitura da obra de Fernando Pessoa

Alcir Pécora

Graças à dedicação de Maria Lúcia Dal Farra, poetisa e professora de literatura portuguesa, a Iluminuras acaba de lançar um texto póstumo de Haquira Osakabe (1939- 2008), que foi seu amigo de coração e antigo colega na Unicamp – universidade onde Haquira militou e foi um dos fundadores do Instituto de Estudos da Linguagem. Intitulado Entre almas e estrelas, o volume ensaia hipóteses centrais de leitura para a obra complexa de Fernando Pessoa (1888-1935), da qual Osakabe era profundo conhecedor.

Não gosto muito do título, apesar de extraído de texto de Pessoa (e, no fundo, à morte do próprio Haquira se refira). As suas ressonâncias espíritas não se ajustam ao livro, embora coubessem certamente nas preocupações de Haquira. Um título mais adequado seria “Pessoano, pessoal”, utilizado pelo prefácio de José Miguel Wisnik, outro grande amigo e ex-colega do homenageado. De fato, o Pessoa investigado por Haquira se esboça entre passeios e paisagens do bairro lisboeta de Campo d’Ourique, onde ambos moraram.

E não apenas por isso: para Haquira, o conhecimento pessoal, o convívio, a amizade e o sentimento íntimo eram intérpretes decisivos do mundo, em qualquer de suas instâncias. Tal perspectiva subjetivista encontra algum correlato no Pessoa que ele enxerga como essencial: um poeta da vida interior, suficiente em sonhos e avesso ao mundo contemporâneo.

Um texto chave para a compreensão desse viés interpretativo é, para Haquira, “O marinheiro” (1912), que refere o caso das três irmãs que, enquanto velam uma quarta, vão desfiando a história de um marinheiro náufrago que, para suportar a solidão, passa a sonhar com sua cidade natal e também a modificá-la, com a gradual introdução nela de novos elementos de sua imaginação. Num certo momento do velório, a inevitável suspeita pessoa- na se introduz: não seriam as irmãs, elas próprias, parte do sonho do marinheiro?

Para Haquira, o heterônimo decisivo para se compreender a natureza dessa suspeita presente em toda a obra pessoana é Bernardo Soares, cujo viés demiúrgico se aplica a glosar o inexistente, a criar uma “inquietante multiplicidade de irrealidades (…) verdadeiras”. Nesses termos, Osakabe pensa Pessoa fundamentalmente como uma “função demiúrgica”, de criador de mundos e mitos.

Não é uma novidade na fortuna crítica de Pessoa, mas ajuda a recolocar questões centrais da “heteronímia” e das “ficções do interlúdio”, isto é, da tensão dramática entre Alberto Caeiro e seus discípulos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, num duplo enquadramento bem articulado.

O primeiro deles traz à cena a ideia pessoana do“neopaganismo”, relida, por sua vez, através de seus dois procedimentos poéticos centrais: o “sensacionismo”, que se pode simplificar como uma adesão do poeta à natureza e à matéria, sem sentido ou mistério, e o “interseccionismo”, no qual as muitas imagens do mundo se embaralham e se sobrepõem na transparência do sujeito poético que as apreende. Para Haquira, é justamente por meio dessa junção aparentemente paradoxal da autonomia das figuras da sensação com a multiplicidade superposta no sujeito que Pessoa obtém a proliferação, em sua poesia, desse sentimento perene e inquietante de confusão entre criador e criatura.

O segundo enquadramento diz res- peito ao “decadentismo” pessoano, que identificava em Portugal e no mundo contemporâneo um declínio moral, religioso e filosófico. Haquira amarra esse diagnóstico àquilo que Pessoa denominou “drama em gente”, o qual se pode localizar estrategicamente na tensão das atitudes frente ao mundo reveladas por Caeiro e seus dois discípulos principais. Assim, ao “estilo zero” de Caeiro, que simula adesão pura ao fluxo da natureza, opõe-se o “estilo epigramático” de Reis, que formula a “indiferença” que tem ou busca, bem como o “estilo épico” de Campos, que emula a adesão à natureza como ajuste paradoxal à fricção da vida entre as máquinas. Neste ponto, Haquira revela talvez sua melhor habilidade como intérprete: a inteligência que opera a translação de conteúdos mais ou menos conhecidos para observações estilísticas agudas e pertinentes.

Epicentro teleológico

No entanto, o neopaganismo é apenas a via de entrada ao Pessoa haquiriano. Num segundo momento do andamento do ensaio, trata-se muito mais de apontar os seus limites, evidentes no investimento do poeta para reavivar mistérios e enigmas. Surge daí um Pessoa “mais obscuro”, cujo texto básico Haquira localiza no “Passos da Cruz”, de 1917, e cuja realização máxima se dá em “Mensagem”, de 1934.

A esse novo momento – que Haquira, usualmente aproveitando os termos de Pessoa, identifica como relativo a um “paganismo superior” –, já não são estranhas as vias ocultistas e nacionalistas, ambas inseridas no cerne de um projeto salvífico para a decadência coetânea. A adesão à natureza e o repúdio ao cristianismo pie- doso, próprios do neopaganismo, agora são reinterpretados de modo a admitir a dor em seu epicentro teleológico.

Significa que a ideia pessoana de conhecimento passa a ter um compo- nente necessariamente sacrificial, do qual a paixão de Cristo é uma figura exemplarmente assimilável. Aí, já não há iluminação sem sofrimento. Todos os mediadores decisivos da história são, por assim dizer, vítimas. Por exemplo, aplicado o raciocínio à história das des- cobertas portuguesas, Pessoa celebra D. Sebastião, cujo desaparecimento, sentido coletivamente como tragédia, torna-se condição da nacionalização do mito do Encoberto e do anúncio de um Supra- Camões: aquele que novamente virá cantar o destino superior de Portugal. Apenas que, desta vez, como Império espiritual, sem mais a ilusória investidura de domínio geográfico ou político.

Entretanto, antes de esmiuçar a natureza desse Império esotérico aqui proposto, o ensaio salta para um terceiro momento pessoano, em cujo centro Haquira reconhece novamente o semi-heterônimo com que havia iniciado seu texto: Bernardo Soares, autor atribuído do Livro do desassossego, por vezes partilhado com Vicente Guedes. Para Osakabe, a prosa de Soares deveria então ser entendida fundamentalmente como uma consolação da filosofia do sacrifício a que chegara a poesia de Pessoa. O próprio gênero da prosa marcaria essa “via de despojamento” e “uma lição de vida menos utópica”, isto é, um gosto que não repudia, mas adota como matéria de criação a banalidade do mundo.

Tal hipótese luminosa de articulação dos dois gêneros, tais como praticados em Pessoa, a qual integra tanto o “neopaganismo” como o “paganismo superior” (embora não na forma de uma síntese ou de uma superação dialética), não chega a ser desenvolvida. E nisso o conjunto do volume, que tanto lembra a maneira intensa de pensar de Haquira, também evidencia uma progressiva falta de fôlego. Quanto mais se aproxima do núcleo de seu interesse intelectual, tan- to mais lhe falecem as forças para falar dele. Ao cabo do livro, é como se ele fabricasse um grande pórtico para um espaço que a escrita apenas vislumbra, e que é pressentido mais como ausência do que expresso como significado.

E, de fato, quando o livro se fecha, Haquira já não estava lá. Os cinquenta depoimentos que se seguem, de professores, amigos e alunos, dão, a seu modo, a medida dessa ausência.