Meu filme de formação

São Bernardo, de Leon Hirszman, e Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos

por Mariana Marinho

Milton Hatoum, escritor

Foto: Mariana Marinho

Apaixonado por Graciliano Ramos (1892-1953) e sua obra, Milton Hatoum pensou duas – ou três vezes – antes de assistir à versão cinematográfica dos romances do escritor alagoano. “Tinha medo de me decepcionar”.

Porém, após assistir Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e São Bernardo (1971), de Leon Hirszman, Hatoum pôde respirar aliviado: não houve nada de traumático na experiência. Longe disso, ambos se tornaram longas-metragens favoritos do autor. “São filmes bem elaborados apesar de algum tipo de precariedade técnica. O Graciliano teve sorte: são cineastas muito talentosos que entenderam seus romances e o Brasil”, conta.

“O filme Vidas secas expressa muito bem um dos grandes temas da obra de Graciliano: há, de um lado, a carência extrema da miséria e do saber e, de outro, a opulência, a tirania dos fortes que utilizam um discurso manipulador”, afirma o escritor amazonense, que teve contato com o romance Vidas secas por volta dos 14 anos, quando era estudante do Colégio Pedro II, em Manaus. “Foi uma leitura da minha juventude que me marcou muito”.

No filme São Bernardo, Hatoum enxerga com bons olhos o fato de o roteiro ser calcado no livro. “Isso poderia ser um problema, mas, ao contrário, foi uma saída”, explica. “No filme, a Madalena aparece depois de 30 minutos. No livro, ela aparece depois da terça parte. Há afinidades enormes entre o andamento do livro e o andamento do filme: a temporalidade de um é a temporalidade do outro. O filme mantém a essência do romance, algo que todo escritor sonha”.

Sereno, dono de uma voz grave e mansa, Hatoum não oscila ao frisar suas cenas preferidas do longa-metragem de Hirszman. “Gosto muito do diálogo entre Paulo Honório (Othon Bastos) e Madalena (Isabel Ribeiro) na igreja. Também é bonita a cena em que ele a pede em casamento. Madalena diz que a união também será vantajosa para ela. Há um jogo. Ela, nesse momento, é uma personagem machadiana, uma Capitu. Também gosto muito do final, é belíssimo: o Othon Bastos cresce quando fica calado”.

No filme de Nelson Pereira dos Santos, é a tristíssima morte da cachorrinha Baleia que ganha destaque aos olhos do escritor. Para ele, as temáticas de Vidas secas e São Bernardo permanecem atuais. “A corrupção, o favorecimento, o privilégio: tudo isso continua presente no Brasil”.

Grande conhecedor de Graciliano Ramos, coube a Milton Hatoum discorrer na conferência de abertura da 11a edição da Flip sobre a importância da obra do autor alagoano na cultura brasileira, incluindo, além da literatura, o cinema e a política. “Percebi que poderia transformar essa palestra da Flip, em que exponho o que vejo de mais importante na obra de Graciliano, num ensaio maior e, humildemente, pagar a minha dívida com o escritor brasileiro que mais admiro”, diz