Blog da Marcia Tiburi

DEMOCRACIA COMO MERCADORIA – CENSURA, FACEBOOK E VIGILÂNCIA GLOBAL

Democracia como mercadoria

Censura, Facebook e vigilância global

Marcia Tiburi

O Facebook, rede social das mais conhecidas e usadas entre nós brasileiros, vive de um paradoxo. De um lado, promove a democracia. De outro a impede. Todos sabemos que vivemos em um estado de vigilância global (quem nunca ouviu falar do sistema Echelon?) em que ninguém está livre enquanto, ao mesmo tempo, parece totalmente livre. Aquele que sabe disso, tenta usar o Facebook a seu favor e, de certo modo, perfura o sistema tramado com o cimento do autoritarismo, quando posta, “curte” ou “compartilha”, alguma coisa que não deveria fazer parte do sistema.

Minha página do Facebook http://www.facebook.com/pages/Marcia-Tiburi/125357957575256 foi bloqueada em graus e momentos diferentes. Primeiro, quando postei uma “Carta em apoio ao Movimento Passe Livre” e, no mesmo dia, compartilhei fotos e links onde a violência policial era evidente. A partir de então, foi impossível “postar” qualquer coisa. Mas as funções de mensagem, curtir e compartilhar (desde que eu entrasse em outros perfis e partilhasse de lá) mantinham-se intactas. Ontem, após tentar compartilhar links sobre os assassinatos na Favela da Maré, tornou-se impossível fazer qualquer coisa com minha página. Ou seja, eu estava postando ou compartilhando conteúdos “indesejáveis” ou “perigosos” para o sistema – e sobretudo, para o negócio que é o Facebook – e fui sumariamente bloqueada.

Criei outra página (uma página comum), entendendo que o desejo do sistema Facebook (uma mistura orgiástica de Estado-Igreja-TFP) é que páginas como a minha desapareçam. Mas isso não pode ser feito com uma tarja preta, e sim com travamentos sutis, com a diminuição das potencialidades de uso da página, pois que o Facebook não existe sem a fachada de democracia que ele vende. Hoje, com a outra página criada, consegui postar na minha página anterior como usuário externo (o que não é a mesma coisa), mas o mais incrível é que por meio dessa outra página eu até posto na minha, mas nada aparece como meu na minha time line. O Facebook, como tudo o que é hipócrita,  não é direto, ele tenta enganar, confundir o pobre usuário que não está seguindo a sua norma. E neste caso, sim, o caso é a norma ideológica do capitalismo.

A televisão e os jornais das empresas de mídia já deixaram claro há muito tempo esse tipo de negócio relativo ao que vende e o que não vende. Democracia vende se for em doses levinhas. A diferença entre o Facebook e as mídias passadas (ainda presentes) é que este manipula o nosso desejo de democracia, fazendo-nos crer que estamos a realizá-la como coisa pessoal. E, de fato, podemos com o Facebook ir até o limite permitido, administrado e controlado por seus donos. Mas não mais, jamais mais do que o suportável pelo sistema.

O que está em jogo, a meu ver, é, portanto, o paradoxal – para não dizer ainda perverso –  entendimento sobre democracia que está na base de uma rede como o Facebook. A democracia do Facebook é a “democracia enquanto mercadoria”. Não a democracia que vai até as últimas consequências de sua própria realização. Não é a democracia de verdade, mas a democracia da fachada, para contentar os ingênuos. Não pensemos, neste sentido, que é o Facebook que promove as manifestações que vem acontecendo pelo mundo afora e no Brasil. Que o Facebook está do lado da multidão ou do povo (dois conceitos políticos que implicam liberdade), mas da massa que ele pensa controlar. O que acontece na vida concreta – aquilo que parece ajuda do Facebook – é apenas perfuração do sistema da publicidade à qual ele serve. Publicidade e Política são tão opostas como Deus e o Diabo que, infelizmente, se complementam mais cínica do que dialeticamente no mundo atual. Enquanto uns vendem democracia por aí a preço barato, outros tentam realizar sua verdade e pagam caro.

Snowden

O Facebook combina muito com um país como o nosso. Combina muito com os EUA a perseguir o pobre Snowden, Robin Hood no grande cenário do “data-capital”. Se a informação é capital (dados acumulados são o novo capitalismo), pobre de quem se deixa enganar pelo Banco Facebook e os demais que aparecem a toda hora.

Enquanto o Facebook vai jogando para baixo do tapete aquilo que não convém que os outros saibam, ele (e Google, Skype e demais plataformas) sabem de tudo sobre seus usuários, talvez o que seus próprios usuários jamais saibam.  Na minha página nova https://www.facebook.com/profile.php?id=100006243164470 , a primeira coisa que apareceu foi uma oferta de um tênis de marca[1]. Ali, por ter ainda pouca difusão (a antiga tinha uns 12 mil seguidores e era fanpage), ainda dá pra postar o que eu quiser. Fato é que não há para onde possam fugir os otários do sistema que somos todos nós. E não há como deixar de ser esse estranho tipo de otário – o que desconfia ou sabe) porque estamos todos juntos no mesmo campo de concentração de dados digitais. Na era em que o poder (de polícia, mas também nos dados do seu cartão de crédito e interesse de compras) está no controle dos dados, não se salva nem aquele que mantém segredo sobre si mesmo. Esse segredo não existe mais.

No meio disso tudo, tomara que Edward Snowden sobreviva ao furor policial americano e encontra um lugar para morar nem que seja o Brasil.

ABAIXO uma propaganda alemã que brinca com o sentido das coisas e, ao mesmo tempo, mostra o espírito cínico da propaganda:

Snowden-Ad-


[1] Dia desses tentei comprar um tênis sem marca ou que não tenha sido fabricado na China ou outros locais onde o trabalho escravo é mais comum do que aqui e descobri que não exisitia o dito tênis com exceção de uma marca brasileira que, segundo o esnobismo do vendedor, não se vendia em nenhuma loja daquele xópim.

Comentários (16)

  • Ricardo Rocha Aguieiras |

    02/07/2013

    Marcia, isso tudo realmente tem sido uma constante. No caso específico de usuários e usuárias LGBT’s a censura é ainda mais pesada. Um dos líderes da Luta Homossexual no Brasil, o antropólogo Luiz Mott, é constantemente perseguido pelo Facebook: ficou um mês bloqueado, voltou, ficou apenas um dia e foi bloqueado novamente por que postou uma charge do cartunista Laerte, onde era satirizado o Dep. Federal homofóbico e fundamentalista Marco Feliciano. Foi bloqueado por mais um mês. A página do facebook “Orgulho Hétero”, que já propõs o assassinato de gays na Parada, está lá sã e salva, apesar de inúmeras denúncias, até para a Polícia Federal. A gente denuncia os horreres que essa página publica ao Face e eles respondem apenas “O conteúdo não foi removido”. Um horror. Será que os e as moderadores do Facebook Brasil não seriam machistas, misóginos, homofóbicos, transfóbicos, conservadores, moralistas, por que esta é a “educação” deste país aqui, sufocado pelo fundamentalismo religioso? Penso… por que esses moderadores/as brasileiros/as escapariam disso? Como o Mott, há vários e várias usuários e usuárias constantemente perseguidos/as, bloqueados/as até quando postam a foto do gato… Sinto que seja assim, até mesmo por que, na Carta Magna, a censura é proibida no Brasil. Talvez essa seja mais uma reinvidicação para a gente levar para as ruas…
    Felicidades,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

  • Vinnie |

    02/07/2013

    Marcia, eu concordo em parte contigo e, como sempre, gosto muito de sua linha argumentativa. Mas não lhe parece um pouco esperada essa atitude do Facebook? Quero dizer, o FB é um negócio que vive de anúncios e da venda de informações de seus usuários e, como qualquer mídia, quer manter uma imagem boa com seus patrocinadores. Eu concordo que ele é uma face das mais deslavadas do Capitalismo, mas não é a mesma coisa que tantos outros meios? Afinal, ninguém paga nada pra estar lá e os usuários (e suas informações pessoais) são muito mais o produto a ser vendido pelo site do que consumidores dele.
    Será que daria pra esperar real democracia e liberdade de um meio que é essencialmente capitalista? Se a ideia das pessoas é criar uma ferramenta de compartilhamento livre de informações, não seria o caso da criação de uma que seja independente e não uma empresa multimilionária distribuída num mercado de ações?
    Quanto ao Snowden, estou com você. Tenho muito medo que ele se torne um novo Aaron Swartz.

  • oficinagrogoto |

    02/07/2013

    Vou postar o seu comentário no meu novo Facebook, ok? Vamos ver quanto tempo eles me suportam. Obrigada por escrever.

  • AntimidiaBlog |

    02/07/2013

    Republicou isso em reblogador.

  • Jessika Sampaio |

    02/07/2013

    Um outro acontecimento foi a retirada do ar da pagina da Marcha das Vadias no Rio de Janeiro, uma semana antes da sua realização.

  • vieiraeuclidessantana |

    02/07/2013

    Republicou isso em SUSCETÍVEL FEBRIL.

  • Ricardo Wagner |

    02/07/2013

    Não acho que o autoritarismo posto nas redes sociais, tem haver com questão de gênero, classe, cor ou algo do tipo. Antes, tem haver com a própria postura dos indivíduos que utilizam, e que na sua maioria não aceitam uma crítica, ainda que construtiva ou contrário aquilo que a maioria costuma compactuar, ou seja, os usuários são tão autoritários quanto o próprio autoritarismo. Como dizia o grande Milton Santos, “O brasil globalizado, se mostra cada vez mais um país acrítico e pouco intelectualizado” De fato, o facebook não tem nada de democrático, nem muito pode ser considerado o responsável pelo que vem ocorrendo no país. É um aquivóco achar que ele, o facebook, foi responsável pela queda de alguns ditadores naquilo que se convencionou chamar de “primavera árabe”, pois a rua Árabe sempre foi agitada, muito antes dessas ferramentas nascerem. Como diz o próprio o Slavoj Zizek,” O mundo virtual é cada vez mais privado, e as pessoas virtualizadas tornam-se cada vez mais mercadizadas” Fato!

  • Leo de Carvalho |

    02/07/2013

    Obrigado Marcia e Ricardo por seus depoimentos. Me fizeram ver até aonde pode ir a censura em mídias tão difundidas e que aparentemente seriam um lugar de trânsito entre idéias e pessoas.
    O pensamento ainda é um instrumento de resistência.

  • Tiburinho Vândalo |

    02/07/2013

    As grandes empresas que patrocinam o Feicibuqui pressionam para que censure! Por exemplo, a ¨naique¨não admite sua marca ao lado de um texto de uma intelectual ¨vândala¨,libertária e mulher! hehe!

  • Maria |

    02/07/2013

    Me intriga como uma leitora astuta de Flusser aparenta surpresa quanto ao fato. Li sua crônica sobre o celular e pensei, cá comigo, que o mesmo se pode pensar o tal “face”. Eu não tenho “face”, Twitter, blog. Romanticamente resisto. Prefiro olhar na “cara”. Sorte pra voce na sua teimosia virtual. Espero que consigas passar a perna no sistema. Abs

  • rogeriosouzavicente |

    03/07/2013

    Reblogged this on Tempestade.

  • Cicero Clarindo |

    03/07/2013

    Tomei conhecimento no Facebook através de um amigo que compartilhou. Vim aqui no “filosofiacinza” e li. Voltei ao Face e compartilhei! E assim vamos fazendo. Há que se comunicar nas brechas (enquanto não são fechadas)! Adiante…

  • michellyms |

    04/07/2013

    Graças a Deus nunca fui censurada, mas é um absurdo.. cadê o direito de liberdade de expressão? ://
    Beijocas,
    Http://mmsparadise.com

  • Anselmo Fortunato Forati Junior |

    04/07/2013

    Só uma ideia…

    Raul certa fez escreveu: “Quando se quer entrar em buraco de rato, de rato você tem que transar”.

    Tenho muitos amigos que já foram bloqueados no facebook em algum nível. Existem mecanismos automáticos de controle (que verificam palavras específicas), existem mecanismos de verificação individual através de denúncias (ou seja, um funcionário do facebook analisa as denúncias) e eventualmente existem mecanismos de controle específico, ou seja, alguns perfis e páginas escolhidos são acompanhadas de forma mais direta.

    O que é suprimido? Quem é bloqueado? E qual o motivo?

    Existe um termo de uso, específico mas genérico o suficiente para causar discussão.

    Eu sou ácido em minhas ideias e muitos dos meus comentários são aquarianos, de contestação, de contra-fluxo, e nunca fui bloqueado e nunca tive um único post ou comentário excluído.

    Porque?

    Bom… Não tenho peso e não sou famoso. Talvez seja por isso.

    Mas também não dou espaço para isso. Eu só compartilho, por exemplo, coisas que realmente valem a pena serem compartilhadas e mesmo assim depois de passar por um crivo básico: Existe alguma agressão gratuita neste post contra terceiros ou alguma instituição ou grupo? Existe nudez? Existe preconceito (de qualquer tipo)?

    É possível fazer críticas, inclusive citando nomes, sem cair no crivo do texto duro do manual de regras chamado “termo de uso”.

    Fazendo o papel do advogado do diabo, o facebook precisa mediar a qualidade do serviço que vende (como sugere o texto). É seu direito. O consumidor (nós) podemos concordar ou não, e se não concordarmos, podemos escolher entre participar ou não, e se escolhermos participar, podemos escolher entre seguir ou não a regras, e se não seguirmos as regras, estaremos cientes da possibilidade de limitação do seu uso e até mesmo a suspensão e exclusão da conta.

    Se eu tiver dois perfis pessoais, estou indo contra as regras impostas. Não há argumento.

    Márcia, eu não sei quais os motivos específicos pelos quais você foi bloqueada, mas certamente teve algum motivo. É provável que você tenha feito algo contrário as regras do facebook mesmo que não tenha tido consciência disso.

    Seria muito bom que o facebook lhe informasse quais foram os motivos que culminaram no seu bloqueio.

    Lembro que defendi aqui um lado diferente e que esta não é necessariamente a minha posição sobre o assunto. Tenho certeza que entende o meu objetivo com este post.

    Abraços! Adoro suas ideias, mais ainda quando não concordo com elas! =)

  • Helena |

    07/07/2013

    “a ver” por favor… >_<

  • marilise |

    10/07/2013

    Concordo com o Anselmo, todos concordamos com os termos de uso(muitas vezes sem lê-lo) E depois ficamos dizendo que fomos bloqueados sem sabermos porque. Eu não tenho Facebook, nem twiter, nem Orkut, nem nada,….ah! tenho sim, um e mail, porque senão não poderia estar postando aqui. Assim mesmo, dependendo dos e-mails que envio, se escrevo sobre um tênis por exemplo, no dia seguinte vem um montão de propagandas sobre tênis…por isso NUNCA FAÇA NADA DE ERRADO NEM ESCREVA NADA SUSPEITO PRA NINGUÉM tstststsrsrsrststststs