A terra e os seres de Graciliano Ramos

Na FLIP, Milton Hatoum conduz conferência de abertura sobre o escritor

“A terra está intimamente vinculada à vida das personagens e ambos, seres e terra, são elementos constitutivos da trama"

“Se dissessem ‘boa noite’ ao Graciliano, ele responderia: Você acha mesmo?”. Foi ressaltando o lado pessimista do escritor alagoano que Milton Hatoum iniciou, ontem, por volta das 19h30, a conferência de abertura da 11º edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Em frente ao púlpito onde apoiava seu texto, Milton discorreu, durante cerca de uma hora, sobre a obra e o Brasil do autor homenageado.

Entre janeiro de 1933 e março de 1936, Graciliano Ramos teve forte atuação política no cargo de diretor da Instrução Pública de Alagoas, como frisou Milton, e foi num forte contexto de mudanças sociais, políticas e culturais que nasceu a sua literatura. Uma obra na qual as personagens vivem seus conflitos em áreas específicas do nordeste, regiões atrasadas, em descompasso com a industrialização do sudeste. “A terra está intimamente vinculada à vida das personagens e ambos, seres e terra, são elementos constitutivos da trama”, observou Hatoum em seu comentário da obra.

Para ele, no entanto, ainda que os romances de Graciliano sejam ambientados nesses territórios inóspitos, existe um forte traço de modernização na vida de seus narradores, que, desde o romance Caetés, de 1933, buscam problematizar a linguagem. “Eram regiões atrasadas que se modernizavam sem mudanças estruturais, pois o progresso alcançava poucos e as iniquidades persistiam para a maioria. Graciliano compreendeu essas contradições e viu nelas um impasse.”

Dialogando com críticos e literatos como Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux – e também com personagens e situações dos romances Vidas Secas, São Bernardo, Caetés e Angústia -, ele ainda destacou que na década de 30 foram publicados alguns dos romances mais importantes da literatura brasileira: Os ratos, de Dyonélio Machado; a obra de Lúcio Cardoso e Érico Veríssimo, além da poesia de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.

Em certo momento, evocou o escritor argentino Jorge Luis Borges, que escreveu: “É curioso o destino do escritor. No início é barroco, vaidosamente barroco, e ao cabo dos anos pode lograr, se lhe são favoráveis os astros, não a simplicidade, que não é nada, mas a modesta e secreta complexidade.” Para Hatoum, alguns astros foram, de fato, favoráveis a Graciliano. “Ele alcançou em cheio essa modesta e secreta complexidade tencionada pelo escritor argentino.”

Para encerrar, escolheu o parágrafo final do discurso de Graciliano – algo que ele detestava fazer -, quando foi homenageado por amigos no Rio de Janeiro, em 27 de outubro de 1942: “Mas porque estamos aqui? É preciso descobrir o motivo para esta reunião. Penso, meus senhores e amigos, que a devemos à existência de algumas figuras responsáveis pelos meus livros. Paulo Honório, Luis da Silva, Fabiano. Ninguém dirá que sou vaidoso, referindo-se a esses três indivíduos, porque não sou Paulo Honório, Luis da Silva e não sou Fabiano. Apenas fiz o que pude por exibi-los, sem deformá-los, narrando, talvez com excessivos pormenores, a desgraça irremediável que os açoita. É possível que eu tenha semelhança com eles e que haja, utilizando os recursos duma arte capenga adquirida em Palmeira dos Índios, conseguido animá-los. Admitamos que artistas mais hábeis não pudessem apresentar direito essas personagens, que, estacionando em degraus vários da sociedade, têm de comum o sofrimento. Neste caso aqui me reduzo à condição de aparelho registrador – e nisto não há mérito. Acertei? Se acertei, todo o constrangimento desaparecerá. Associo-me aos senhores numa demonstração de solidariedade a todos os infelizes, que povoam a terra”.

Comentários (1)

  • Elilson José Batista |

    05/07/2013

    Grande Graça, que forma com Machado e Rosa a Tríade da Literatura Brasileira.