|
|||
HELDER FERREIRA
Tratada pela crítica como “grande promessa da música brasileira” e muito elogiada por seu primeiro disco - Efêmera (2010) -, a cantora e compositora Tulipa Ruiz ainda entrega pessoalmente seus trabalhos nas grandes redes para que sejam vendidos. Ela, que acaba de lançar seu segundo trabalho - Tudo Tanto (2012) -, com patrocínio do edital Natura Música -, participou de encontro com fãs no Espaço Revista CULT, na Vila Madalena, São Paulo.
Sétima edição do projeto Grandes Artistas, de qual recentemente participaram os músicos Lenine e Marcelo Jeneci, o encontro aconteceu ontem, dia 9, e foi mediado pelo jornalista Marcus Preto, da “Folha de S. Paulo”.
“Hoje o mercado da música está nas mãos de pessoas que não entendem de música”, ela critica. Tulipa, que trabalha de modo independente, conta que adoraria assinar com uma gravadora, caso esta lhe oferecesse uma contrapartida interessante. “Eu não estou interessada no básico: produção, distribuição… Tudo isto já acontece”.
Ela conta que analisou algumas propostas de grandes gravadoras que lhe impuseram restrições contratuais anacrônicas. O grande empecilho para o fechamento com uma delas foi indisposição do selo em permitir o download gratuito de seu novo disco – que já está disponível, em alta qualidade, no seu site oficial. “Acho isso um desrespeito com o fã. Isto é ignorar um perfil de consumidor – há aqueles que compram só CDs, mas também há aqueles que baixam e, se gostam, compram o disco e ainda vão aos shows”, disse. “As gravadoras precisam se modernizar. Elas estão piradinhas!”.
Tudo Tanto
Tulipa também falou sobre o processo de criação de seu novo disco. “Foi tudo meio ‘avalanchesco’. O processo foi rápido e intenso, durou pouco mais que dois meses”. Diferentemente do que tinha imaginado, nenhuma ‘sobra’ do primeiro disco foi utilizada – todas as músicas foram criadas durante esses dois meses, em parceria com Gustavo Ruiz, seu irmão. A seleção, segundo ela, foi “natural”: “Ao longo dos ensaios, algumas canções foram se fortalecendo e outros acabaram saindo. É tudo muito natural, intuitivo. O nome do disco é este porque sonhei com ele”.
O novo trabalho, segundo a cantora, é mais “al dente” e se afasta um pouco da graciosidade de “Efêmera”. “‘Tudo Tanto’ é resultado de uma mastigação do meu primeiro trabalho”. Também vem repleto de parcerias, entre elas, Lulu Santos – em “Dois cafés – e Criolo – em “Víbora”.
“Eu não pensei no Lulu ao compor a música. Foi só depois, quando estávamos trabalhando a melodia, que percebemos que ‘Dois cafés’ era a cara dele”, contou ela, que disse ter enviado um e-mail ao cantor, convidando-o para gravar a faixa.
Já a participação de Criolo é definida por Tulipa como um “empurrão no abismo”. “Não estava conseguindo lidar com a letra de “Víbora”… precisava de alguém que tivesse essa vibe mais pesada”. O resultado foram versos como “Metade homem, metade omisso/ Uma parte morta, outra parte lixo/ O teu cheiro, a tua trama, a tua transa/ Hoje eu não vou querer”.
Pequena grande fã
Beatriz Besseler tem 7 anos e está na segunda série do ensino fundamental. Ela acompanha a trajetória de Tulipa desde que tinha seis – vai a todos os seus shows em São Paulo e guarda todas as matérias que encontra sobre a cantora. “A gente foi uma vez a um show dela, e a Bia adorou. Desde então, virou fã. Ninguém entende muito como isso aconteceu”, disse Mércia Besseler, mãe de Bia.
“Minhas músicas favoritas são “Brocal Dourado” e “Às Vezes”. Gosto tanto dela que o tema do meu aniversário de sete anos foi da Tulipa Ruiz. E ela foi, no fim da festa”, conta ela, animada, que também quer ser cantora “quando crescer”. Bia estuda piano e também gosta das músicas de Marcelo Jeneci, Tiê, Filipe Catto e Vanguart.
Espaço Revista CULT
R. Inácio Pereira da Rocha, 400, São Paulo (SP)
(11) 3032-2800
www.espacorevistacult.com.br
Em 2010 fui a um show do Otto no Circo Voador e na abertura me deparei com Tulipa. Abalou tudo! Naquela noite o som de Tulipa entrou para causar um transe e não mais sair. Era uma sonoridade inconcebível para menos que um fenômeno! Imediatamente me questionei sobre como aquela potência era trabalhada em um momento tão complicado, permeado de equívocos, da indústria musical. Eis que dois anos depois, lendo essa entrevista, alguma coisa faz sentido.
Bacana a consciência da artista e inegável a cumplicidade do público. Há de verdade formas de divulgação e comercialização distintas das promovidas incisivamente pelas gravadoras. E a qualidade sonora e sucesso de Tulipa e outros jovens artistas demonstram isso. Aos poucos vai se consolidando um mercado mais aberto para atuações ousadas. Sucesso!