Blog da Marcia Tiburi

Kate Chopin – Contos traduzidos e comentados

Estava procurando o meu volume destes Contos Traduzidos e Comentados da Kate Chopin organizados pela Elizabeth Brose e por Betina Mariante Cardoso – com a linda capa de uma pintura da minha ídola Maria Tomaselli) e lembrei de postar aqui algo sobre o livro. Aí vai o blog da Editora Luminara e o meu comentário do conto Athenaïse http://editorialluminara.blogspot.com.br/p/kate-chopin-contos-traduzidos-e.html

Athénaïse ou desejo e indecisão

O que Kate Chopin pretendia mostrar com a personagem Athénaïse? O fato de que o nome da personagem coincida com o título da narrativa é sinal de que temos aqui a demanda de uma atenção. Tão evidente que dela não se admite desvio senão para voltar ao cerne  do conto posto na figura de Athénaïse. Há, contudo, vestígios importantes em torno do grande foco que faz da personagem o título do conto. Se a personagem surge é no esforço de Chopin de desenhá-la para seus leitores – ou melhor, para suas leitoras – por meio do mundo em que ela habita, daqueles que dela são o “outro”. Quem é Athénaïse, o que pensa, o que sente, como age, são questões centrais. No entanto, a maior de todas as questões diz respeito à sua decisão, ao que na narrativa nos remete ao seu destino. Ao redor de Athénaïse, é que temos a chance da revelação de seu segredo do qual nosso olhar de leitor é privado.

A riqueza do conto está na construção dos personagens e nos vários momentos importantes da ação que se nos oferece quase como um roteiro cinematográfico. Destaco dois tempos que me parecem estruturar a narrativa situando-a na figura complexa da jovem moça simples. O primeiro destes tempos se dá pela construção da personalidade de Athenaïse justamente no instante em que nos é apresentada como recém casada até que volte para o marido. Athénaïse, a moça cultural e socialmente tão simples quanto seus pais e irmãos, demonstrará um desejo nada simples a surpreender-nos logo ao início da leitura. Tendo casado com Couchot,  um homem do seu próprio meio social, tão rude quanto honesto, tão simples quanto amoroso, ela o deixa sem explicação. Não chega a fugir dele, antes, tal gesto concentra a idéia de uma retirada não passional a pretexto de visitar a família para longe da casa em que vivia com o marido. Em conversa com Montéclin, o irmão que é muito amigo e está interessado em saber o porquê de sua desistência, descobrimos o aspecto inusitado de sua renúncia, Athénaïse não tem vontade de ser uma mulher casada.

A partir de então o desejo de Athénaïse torna-se emblemático da vida que a narrativa vem descortinar. O gesto de deixar o marido pode nos orientar na leitura do conto, pois ele assinala a principal marca da subjetividade de Athénaïse que nos permitirá o contato com o caráter vago de seus próprios sentimentos. Sabemos que antes do casamento ela tentou o convento que também não satisfez suas expectativas, assim como decidiu casar com Couchot por conta própria sem que a família, sobretudo o irmão com quem ela tem uma importante troca afetiva, tivessem opinado sobre isso.  Montéclin, a propósito, tem uma antiga animosidade com o cunhado e não é impossível que ele represente uma espécie de duplo de Couchot, tal a negação e a importância de seu papel no processo da segunda fuga de Athénaïse, ao ajudá-la com dinheiro e ao oferecer-lhe um lugar na pousada de Sylvie em New Orleans. Do mesmo modo, saberemos que em New Orleans ela procurará um emprego numa tentativa nada intensa que não chega a constituir para ela uma frustração, antes a tentativa malfadada de trabalho ficará  apenas como algo que não valeria a pena.

É neste ponto que um segundo momento importante quebra a narrativa em duas. A mesma moça que se indispusera contra o casamento colocando-nos diante de um desejo incomum de liberdade para uma moça do século XIX, pensamos nós aqui no lugar de mulheres livres que somos, descobrirá algo acerca de si mesma que mudará por completo o destino de liberdade com que, até certo ponto do conto, parecia que ela havia sonhado.  Ao encontrar um homem que rejeita o casamento como ela e que lhe parece o representante claro de uma liberdade urbana e moderna contrária ao atraso rural do qual ela é contemporânea, Athénaïse encontra uma súbita paixão pelo marido e decide voltar para ele. O conto apresenta um final feliz e, no entanto, duas possibilidades para que possamos compreender este final. Um que dá lugar a uma satisfação conservadora: Athénaïse, mergulhada na decisão de deixar o marido, descobre que na verdade o amava, que precisava descobrir isso como uma espécie de verdade acerca de si mesma e, assim, volta ao casamento sabendo que não poderia ser mais feliz longe dali. Outro que dá espaço a uma interpretação mais crítica: como qualquer moça de seu tempo para as quais a subjetividade não é mais apenas uma imposição da ordem objetiva, mas uma possibilidade pessoal, Athénaïse sofrerá em seu processo de autodescoberta a tensão entre saber de si, saber de seu desejo, e não saber nada acerca de si mesma. Ao voltar para o marido sem nos explicar o que aconteceu, ela deixa ainda mais clara a confusão histórico-social da qual é portadora. À pergunta sobre o que seria o seu desejo individual é o que herdamos como leitores e não é impossível que a resposta se situe no limiar onde o desejo de uma mulher apenas se forma no conflito com a ordem masculina estabelecida. Após tantos séculos de lei patriarcal, pode surgir uma mulher como negação desta ordem, como senhora de seu próprio destino?

Athénaïse nos deixa neste transe. Não podemos decidir sobre o que ela realmente pensou e sentiu quando descobre-se apaixonada pelo marido. Talvez tenha sublimado o desejo que sentiu por Gouvernail por um retonro a Cazeau, talvez tenha fugido da autoaniquilação da qual não teria escapado uma heroína francesa muito famosa e com a qual ela tem uma completa afinidade.

Athénaïse sofre de uma espécie de complexo de Madame Bovary, no entanto, privada de livros. Algo a deixa insatisfeita sem que saibamos exatamente o quê. Sobre o marido pesa a suspeita de ser o representante legítimo da insatisfação da jovem. Para o leitor pode parecer que ela não o amava, mas não se trata disso. Cazeau não será em momento algum responsabilizado por Athénaïse sobre seu desejo. Cazeau é apenas um marido: um homem simples, bom e, no entanto, rural. Oposto a ele, está Gouvernail, o homem solteiro, letrado e urbano e que, mesmo tendo se apaixonado por ela negando sua própria ideologia, não deixará de vê-la como uma mulher simples, oposta ao mundo das letras que ele preza tanto e no qual vive. Esconderá dela a paixão que sente. Ela não terá a chance de se amparar neste outro amor possível para seguir com sua vida. E parece que o amor vem representar a saída quando por renunciar ao esforço de viver só na cidade e ter um emprego para arcar com as próprias despesas, ela decide voltar apara o conforto da vida com o marido. A paixão repentina parece mascarar o medo de uma vida livre. Se o conto continuasse, o que teria acontecido com o casamento de Athénaise?

Avançando na leitura veremos que Athénaïse não é personagem de uma tragédia como Emma Bovary. Que ela representa muito mais uma ética da vida simples à qual é fácil curvar-se quando sustentar o próprio desejo pode parecer muito complicado. Talvez o que o conto de Athénaïse venha nos m
ostrar é que nem sequer o vivente é dono de sua própria vida. Talvez o conto venha dizer que a vida pode ser bem mais simples e, deste modo, feliz, quando assumimos com tranquilidade a renúncia.

Comentários (2)

  • rafaela |

    23/07/2012

    a verdade é que o Outro, com quem nos dispomos a con-viver, nunca será o Real do nosso Ideal.
    e o Dilema segue girando-nos a ampulheta…

    beijo!

  • Denise |

    24/07/2012

    é algo que passa pela aceitação e isso é uma virtude ou covardia, dependendo da ideologia