|
|||
Caio Liudvik
Em entrevista para a CULT, o professor da USP José Guilherme Magnani discute a importância que o francês tem até hoje na Universidade de São Paulo, que oferece um curso semestral para quem cursa ciências sociais.
CULT – Como avalia as críticas de que Lévi-Strauss retoma a tradição de uma antropologia “de gabinete”, mais especulativa, sem a observação metódica (mesmo em Tristes Trópicos) das realidades concretas particulares?
José Guilherme Magnani – Trata-se de uma visão um tanto distorcida, que remonta a uma velha oposição entre a tradição britânica (empirista) e a francesa, tida como mais especulativa.
Na realidade, em Lévi-Strauss, para quem a antropologia é a “ciência social do observado”, a etnografia é fundamental: toda a sua obra está ancorada em sólido e extenso trabalho de campo – mesmo quando não realizado por ele.
Como entrou em contato com as ideias de Lévi-Strauss? Como ele influenciou seu modo de fazer antropologia?
No doutorado, por influência de Ruth Cardoso, minha orientadora, que esteve em contato com Lévi-Strauss no começo da década de 1960, quando de sua estada em Paris.
Mas já na dissertação de mestrado, defendida na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (Chile), meu então orientador, Emílio de Ipola, incentivou-me a trabalhar com modelos analíticos e categorias do campo do estruturalismo – já que meu objeto de estudo, a ideologia dos contos orais camponeses, colocava em pauta a análise do discurso.
Mais recentemente, algumas formulações contidas em Tristes Trópicos, entre as surpreendentes comparações entre cidades que conheceu em suas viagens pelo interior de São Paulo e norte do Paraná com as do “Velho Mundo” e da Ásia, têm me ajudado a pensar o fenômeno urbano contemporâneo sob um novo ponto de vista.
A antropologia brasileira conseguiu produzir uma (re)leitura específica e original da obra de Lévi-Strauss?
Magnani – Antes de falar em releitura, cabe enfatizar a importância da leitura desse autor: na formação dos alunos do curso de ciências sociais da FFLCH-USP, uma das disciplinas obrigatórias, que dura um semestre, é dedicada exclusivamente a sua obra. Mas há, sim, principalmente por parte de colegas envolvidos em pesquisas com populações ameríndias, propostas de retomar (e fazer avançar) o legado lévi-straussiano, partindo de questões que a etnografia, em campo, impõe continuamente à reflexão.
Lévi-Strauss é o maior antropólogo do século 20?
Magnani – Sem dúvida, tendo em vista o significado que o estruturalismo, esboçado nas primeiras obras e que se consolida principalmente na chamada tetralogia – as Mitológicas –, representou para a antropologia contemporânea.
Sua influência, contudo, estende-se para outras áreas do conhecimento, como a psicanálise, os estudos literários, os da comunicação (cinema, publicidade): Jacques Lacan, Roland Barthes, A. J. Greimas, Claude Brémond, Gerard Genette, Christian Metz e outros autores ligados à publicação Tel Quel são alguns dos intelectuais tributários dessa corrente de pensamento na década de 1960.
Mais especificamente, no contexto atual de pesquisas com povos indígenas amazônicos, por exemplo – nas áreas de parentesco, xamanismo, cosmologias –, Lévi-Strauss continua sendo referência indispensável.
| LEVI-STRAUSS ESSENCIALAntropologia Estrutural (1958)Coletânea com alguns dos principais escritos de Lévi-Strauss entre 1944 e 1956. Muitas vezes acusado pelos marxistas de negar a dimensão histórica, dada sua ênfase tanto na sincronia dos fenômenos sociais quanto nas constantes universais da humanidade, o autor francês aborda tal problema em “História e Etnologia”.
Já em “A Estrutura dos Mitos”, ele relê o mito de Édipo – mencionando a interpretação freudiana como a mais recente “versão” mítica do relato – e lança as bases teóricas e metodológicas do que, após o parentesco, veio a ser o outro grande campo de aplicação do estruturalismo etnológico: a mitologia. O Pensamento Selvagem (1962) Lançado no mesmo ano que O Totemismo Hoje, é uma espécie de prelúdio às Mitológicas. Descartando preconceitos evolucionistas, Lévi-Strauss diz que o pensamento mítico é uma “forma intelectual de bricolagem”, que recupera num processo contínuo os resíduos de eventos empíricos, e uma “ciência do concreto”, tão estruturada, lógica e rigorosa quanto o pensamento científico moderno e igualmente capaz de formular analogias e generalizações. Em seu final, que se tornaria célebre, ele ataca o expoente do pensamento fenomenológico-existencial: Jean-Paul Sartre. Lévi-Strauss vê nele outra forma de projeção eurocêntrica e um valioso documento etnográfico acerca da “mitologia de nosso tempo”. Mitológicas (1964-71) Analisando cerca de 800 mitos ameríndios e inspirando-se na música, esta colossal tetralogia é composta de O Cru e o Cozido, Do Mel às Cinzas, A Origem dos Modos à Mesa e O Homem Nu (este último sai em novembro pela Cosac Naify, que já lançou os outros três). Seu objetivo é mostrar “de que modo categorias empíricas, como as de cru e cozido, fresco e podre, molhado e queimado etc., definíveis com precisão pela mera observação etnográfica, (…) podem servir como ferramentas conceituais para isolar noções abstratas e encadeá-las em proposições”. Desse modo, seria possível chegar a níveis cada vez mais amplos de generalização e, em última instância, desbravar os fundamentos universais do espírito humano. O meio para isso, diz, é o rastreamento das múltiplas recombinações, permutações e oposições por meio das quais os “mitos se pensam entre si”. Antropologia Estrutural 2 (1973) Nesta nova coletânea, o destaque é o clássico “Raça e História” (1952), libelo contra o racismo. Já em “Jean-Jacques Rousseau, Fundador das Ciências do Homem” (1962), o filósofo genebrino é evocado como precursor da etnologia por ter formulado o preceito de que, se para estudar “os homens” é preciso olhar perto de si, para estudar “o homem” é preciso aprender a dirigir para longe o olhar e descobrir semelhanças após observar as diferenças. |